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Memórias de um Mestre

Memórias de um Mestre

Nowmastê

Sri T. Krishnamacharya trouxe enorme sabedoria e devoção para a disciplina do Yoga. Um pouco de sua vida e de seus ensinamentos

Por A. G. Mohan

Tradução: Greice Costa

Fotos: Ilustração: Olaf Hajek

Via Yoga Journal Brasil  

krishnamacharya

Muitas vezes descrito como o pai do Yoga moderno, Sri Tirumalai Krishnamacharya (1888-1989) é hoje mais conhecido no Ocidente como o professor de lendas como B. K. S. Iyengar, fundador do Iyengar Yoga, e K. Pattabhi Jois (1915-2009), fundador do Ashtanga Yoga. Krishnamacharya ensinou muita gente que propagou e influenciou a prática no Ocidente, incluindo seu filho T. K. V. Desikachar, Indra Devi e outros. Mas mesmo que ele tenha construído uma base tão bonita para a nossa prática, poucos de nós sabemos sobre ele.

Um estudioso em sânscrito, Vedas, filosofia yóguica, Ayurveda e muito mais, Krishnamacharya passou sete anos estudando Yoga com um mestre tibetano, cujoashram era uma pequena caverna. Voltou à Índia honrando a promessa que fez a seu professor de difundir o conhecimento que ele tinha recebido, e começou a dar aulas. Ele nunca escreveu um manual definitivo, mas passou a vida oferecendo algo tão profundo que continua sendo abraçado por pessoas ao redor do mundo.

Aqui, A. G. Mohan, aluno de Krishnamacharya por 18 anos, compartilha suas memórias do professor humilde mas exigente.

 

Devoção e ritual

“Hoje em dia todo mundo fala de ‘amor, amor’. Mas o que é? Amor verdadeiro é devoção ao Divino. Tal devoção acontece quando temos desejo e cuidado pelo Divino como temos com o nosso próprio corpo.”

Krishnamacharya em uma palestra

Yoga Sutra de Patañjali, o importante texto sobre Yoga, define Yoga como uma completa tranquilidade na mente. Nesse estado mental, não há nenhuma infelicidade, nunca. Esse estado pode ser atingido ao praticarmos os oito membros do Yoga. Entre várias práticas, a devoção ao Divino é oferecida como uma delas. Sendo inculcada na tradição do Vaishnavismo (uma forma do hinduísmo em que Deus é adorado como o Senhor Vishnu), que tem raízes na devoção, Krishnamacharya preferiu seguir seu caminho no Yoga ao se ligar com o Divino. A prática de devoção é opcional em uma prática de Yoga, mas não é deixada de lado, nem mesmo colocada em segundo plano no Yoga Sutra. Se há algo como um atalho nos sutras, não é a subida da kundalini ou outra prática esotérica. É devoção. No Sutra II.45, o comentário de Vyasa estabelece que “por meio da prática da devoção, samadhi (o foco da mente que é o objetivo final do Yoga) fica mais próximo”. O trabalho preciso e impassível de Patañjali, com seus igualmente precisos comentários, não deixa espaço para exageros ou desentendidos. A sentença significa o que diz.

Devoção é uma das melhores maneiras de ajudar a mente a se manter focada e em paz. Pode ser um apoio poderoso para a meditação e para uma vida estável. Mas deve ser feita com uma concepção adaptável do Divino. Como cuidado, devemos saber que devoção praticada com uma relação psicológica incorreta ao Divino ou à sua imagem pode levar à perturbação mental e não estabilidade.

Devemos entender o propósito e a natureza da devoção e como uma atitude apropriada em relação ao Divino pode ser estudada antes de ser colocada em prática.

Devoção é uma atitude interna de confiança e amor pelo Divino. Todas as outras práticas de Yoga – por exemplo, asanapranayama, controle dos sentidos – são essenciais para trazer a mente sob controle. Elas apoiam a devoção e são apoiadas por ela. Por meio de adorações e rituais externos, reforçamos nossa ligação interna com o Divino. Krishnamacharya seguiu o estilo de vida vaishnava, que incluía adoração e rituais. Depois da prática de asana e banho matinais, ele fazia seus rituais, compranayama (exercícios de respiração/controle da energia vital). Depois fazia um puja(oferenda) dirigida ao avatar de Vishnu chamado Hayagriva. Como parte do puja, ele tocava um sino que pesava um ou dois quilos, às vezes acordando a família!

Krishnamacharya às vezes expressava tristeza em relação ao declínio das práticas tradicionais de dedicação autêntica às práticas mais profundas de Yoga. “Tanto da sabedoria tradicional que tínhamos, até do que vi na minha juventude, agora está se perdendo…”

Em uma aula, ao discutir o Yoga Sutra, Krishnamacharya observou quepunaranveshana (literalmente, pesquisar, buscar mais uma vez) era necessária. Ele sentiu que as práticas ancestrais que decaíram com o tempo precisavam ser exploradas mais uma vez e seus valores, trazidos de volta.

Ele dizia: “Há assuntos de duas categorias. Uma categoria pode ser aprendida meramente por palavras, ouvindo e entendendo – são assuntos teóricos, como regras de gramática. A outra categoria precisa de prática, como música, culinária, artes marciais e Yoga. Hoje em dia, a prática de Yoga para nos asanas. Muito poucos chegam a experimentar dharana dhyana (meditação mais profunda) com seriedade. Há uma necessidade de pesquisar mais e restabelecer a prática e os valores do Yoga nos tempos modernos”.

Nomes e Histórias

As posturas de Yoga são nomeadas de várias maneiras. Algumas recebem nomes de animais e pássaros, algumas descrevem a posição do corpo no asana e algumas vêm de figuras mitológicas ou de sábios famosos. Por exemplo, bharadvajasana vem do sábio Bharadvaja; visvamitrasana vem do sábio Visvamitra; assim comobhagiratasana.

Bhagiratasana? Posso até ouvir professores de Yoga vasculhando em suas memórias para achar este nome estranho. Não é um asana novo. É muito conhecido como a postura da árvore (vrksasana), um asana de equilíbrio em que você fica em pé sobre uma perna e flexiona a outra, com a sola do pé na coxa oposta, logo abaixo da virilha. As mãos ficam acima da cabeça, como na ilustração na página oposta. Bhagiratasanaera como Krishnamacharya chamava essa postura. Bhagirata foi um rei famoso na mitologia védica. Seus antepassados faziam um ritual chamado asvamedha, que tinha a participação de um cavalo (asva). Acidentalmente, o cavalo acabou na morada de um sábio, e os antepassados causaram muito transtorno para recuperá-lo, então o sábio os amaldiçoou, reduzindo-os a cinzas.

Para reviver os antepassados, o rio Ganges, que estava no céu, teria de ser trazido para a Terra para fluir sobre as cinzas. O avô e o pai de Bhagirata não eram capacitados para realizar essa tarefa, então Bhagirata assumiu o comando, deixando o reino aos cuidados de seus ministros. Sacrificou todos os confortos da corte e retirou-se para a floresta, levando uma vida de austeridades, praticando meditação profunda, buscando a graça de Brahma, o Criador. Brahma disse a Bhagirata que não tinha objeções quanto ao rio Ganges descer à Terra, mas que ele deveria perguntar pessoalmente a ela (o rio é feminino na cultura hindu).

Então Bhagirata voltou à sua meditação, rezando para Ganges, que apareceu em sua frente e concordou em descer à Terra.

Mas, ela disse, a Terra não agüentaria a força de sua descida, então Bhagirata tinha de encontrar alguém para suportar essa força.

Bhagirata meditou em Shiva, pedindo que ele fizesse isso. Shiva apareceu e concordou. Finalmente, o rio Ganges desceu para a Terra, mas no meio do processo ela foi tomada pelo orgulho por sua força e pensou em mostrar seu poder, arrastando Shiva com a água caindo sobre a sua cabeça. Sabendo o que Ganges pensava, Shiva aprisionou-a em uma mecha de seus cabelos. Bhagirata meditou mais uma vez e pediu a Shiva para soltar Ganges. Shiva apareceu e concordou em liberar o rio pela Terra. Novamente, deleitando-se com seu poder, Ganges passou pela morada do grande sábio, causando destruição total pelo lugar. Vendo a desgraça de seus discípulos e outros seres, Agastya bebeu todo o Ganges em um gole. De novo, Bhagirata meditou e rezou para Agastya liberar Ganges, e deu certo. Finalmente o Ganges fluía sobre as cinzas dos antepassados de Bhagirata. Bhagirata passou milhares de anos nesse processo, em austeridades e meditação, com uma concentração inabalável, nunca desencorajado pelos inúmeros obstáculos.

O que essa história tem a ver com bhagiratasana? Bhagirata teve de meditar por todos aqueles anos em uma perna só!

Krishnamacharya chamava a postura da árvore de bhagiratasana pelos valores contidos nessa história. Ele dizia: “Quando fizer essa postura, mantenha o grande Bhagirata em mente. Traga a perseverança incansável e a concentração imperturbável para a sua prática”.

Uma vez, Krishnamacharya me perguntou bem sério: “Você conhece dhruvasana?”. A história de Dhruva é bem conhecida na mitologia védica – um jovem príncipe que se dedica à meditação com rigor –, mas nunca ouvi falar da postura. Ele sorriu e explicou: “É como o bhagiratasana, mas você não fica sobre o pé inteiro, e sim apenas sobre o dedão!”

Demonstração

Krishnamacharya geralmente sentava-se em sua cadeira enquanto eu praticava. Algumas vezes ele se levantava para me observar mais de perto. A sala era bem pequena; só havia espaço para uma pessoa praticar confortavelmente. Mas isso não era problema, porque todas as aulas de asanas (posturas) que tive com Krishnamacharya foram de um para um. Nos anos em que estudei com ele, nunca o vi ensinar asanas para um grupo de alunos. Provavelmente porque muitos dos alunos procuravam suas aulas por algum problema de saúde e não poderiam ter aulas de Yoga eficazes em grupo.

Dificilmente Krishnamacharya demonstrava algum asana para mim. Lembro-me de uma rara exceção em uma aula em que ele mencionou que havia 32 variações de parada de cabeça. Isso pareceu demais para mim, e acho que olhei para ele com um ar de desconfiança. Ele considerou minha expressão por alguns momentos. E disse: “O quê? Parece que você não acredita em mim”.

Ele foi até o meio da sala. “Dobre o tapete e coloque aqui”, disse. E então demonstrou todas as 32 variações de parada de cabeça! Naquela época, ele tinha cerca de 85 anos. Observei ao longo dos anos que estava em sua natureza se esforçar muito para responder a uma pergunta – se fosse uma questão importante de um aluno sério.

Anjali Mudra

Algumas fotos mostram Krishnamacharya juntando as palmas em um gesto conhecido como anjali mudra. Esse gesto se parece com a forma que os indianos dizem namastê, que significa “saudações a você”. Mas esses gestos não são a mesma coisa. Em anjali mudra, as palmas não ficam retas, chapadas. As articulações na base dos dedos ficam um pouco curvadas, criando um espaço entre as palmas e os dedos das mãos. Quando realizado corretamente, o formato do anjali mudra lembra um botão de flor pronto para abrir, simbolizando a abertura do nosso coração. Isso significa o potencial e a intenção de progredir para um despertar espiritual maior.

Podemos usar o anjali mudra na maioria dos asanas em que as mãos estão estendidas e paralelas. Em vez de mantê-las separadas, podemos juntá-las em anjali mudra. Isso ajuda a estabelecer uma atitude interior pacífica durante a prática de asanas

Medidas como o anjali mudra ajudam a certificar que os asanas nos trazem mais humildade do que encorajar o ego ao conseguir realizá-los. A história a seguir ilustra bem isso.

Um cantor famoso de música clássica do sul da Índia veio a Krishnamacharya preocupado com o enfraquecimento de sua voz. Ele achava que poderia perder a habilidade de cantar em concertos. Krishnamacharya prescreveu algumas ervas e ensinou alguns asanas e exercícios de respiração simples. Em poucos meses, a voz do cantor teve melhoras significativas e ele estava cantando bem em shows novamente. Ele voltou a Krishnamacharya para agradecer. Evidentemente orgulhoso de suas habilidades recuperadas, o cantor disse, entusiasmado: “Minha voz voltou! Ouça!”. Ele estava pronto para cantar quando Krishnamacharya o parou. “Eu sei que você é um cantor renomado. Mas você lembra, eu ensinei jalandhara bandha (em que a cabeça se curva, pois o queixo desce em direção ao esterno). Deus deu a você uma voz maravilhosa, mas mantenha o bandha em mente. Devemos baixar a cabeça e viver com humildade.”

Desapego e Contentamento

No esforço de acumular posses materiais e riquezas, em proteger os bens, em seu declínio, em suas impressões latentes, eles abandonam na mente, e o prejuízo inevitável causado aos outros seres – em todos estes vive a infelicidade. Deste modo o yogi pratica o desapego.

Do comentário de Vyasa sobre o Yoga Sutra 11.30

Krishnamacharya nunca acumulou muito dinheiro. Em aula, dizia: “Para que precisamos de dinheiro depois de certo ponto? Estarmos livres de doença, inimizade ou dívida, isso já não é o suficiente para uma boa vida? Buscando dinheiro, perdemos nossa saúde. E se não estamos bem, como podemos estar em paz? Da mesma maneira, uma pessoa com inimigos nunca dorme fácil, nem uma pessoa com dívidas. Liberte-se disso e você estará bem. Muito dinheiro leva apenas a menos paz”.

Lembro-me de quando perdi um relógio no fim dos anos 80. Eu estava na aula de Krishnamacharya como sempre, mas sem o relógio no pulso. Krishnamacharya reparou nisso por uma ou duas semanas. Um dia, ele trouxe um relógio e me ofereceu. Quando hesitei em aceitar, ele disse: “Você tem feito muito por mim. Nunca devemos estar em dívidas. Aceite”.

Senti que, comparando com os ensinamentos que vinha recebendo dele por anos, o que fiz por ele era nada. Mas receber um presente dele significou muito para mim. Tive o relógio por anos, até depois que parou de funcionar. Ele não queria ter dado o relógio só porque eu não tinha mais um. Era também porque ele não queria dever nada para ninguém no máximo que pudesse. Nunca queria sentir que alguém tivesse feito algo por ele e ele não pudesse retribuir.

Ele frequentemente citava o Mahabharata: “Na busca da riqueza há infelicidade, assim como em proteger a riqueza conquistada. Novamente se as riquezas acabam, há infelicidade. Na verdade, toda riqueza não passa de infelicidade!”

Extraído de From Here Flows the River: The Life and Teachings of Krishnamacharya, por A. G. Mohan com Ganesh Mohan (Shambhala Publications, 2010; shambala.com)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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