Mas será que é sempre bom ser vulnerável?

Por Dulcineia Alcock*

Foto by Alexandra Gorn on Unsplash

À medida que vamos passando por diferentes níveis de evolução e amadurecimento, vão surgindo certas “modinhas” ou assuntos de interesse (e estou usando esta palavra em dois sentidos) de todo mundo, que acabam virando algo sobre o qual muita gente fala ao mesmo tempo: tem a do sagrado feminino (ou masculino), a do mindfulness, enfim, você sabe do que estou falando.

Desde que a Brené Brown fez aquele TED, surgiu a modinha da vulnerabilidade: coragem é mostrar que você tem defeitos.  Parecia um alívio numa era de redes sociais em que todo mundo queria se mostrar perfeito.

Só que tem um lado disto que não está no vídeo: quando a gente é vulnerável por desespero (ou pior, por falta de assunto).

Foi o que aconteceu comigo há um tempo atrás: primeiro dia de aula e eu encontro uma brasileira aqui na Suíça. Tinha acabado de me mudar das montanhas, onde nem vizinhos eu tinha, para a cidade, e estava doida pra me conectar. Eu, que não sou de tomar este tipo de iniciativa até conhecer bem a pessoa, convidei-a para um café. Ela era médica e eu sem diploma (porque afinal, tudo que eu estudei até hoje não vale nada se o MEC não disser que vale). Me passou um ar completamente blasé: tinha muitas amigas brasileiras, uma vida confortável, isso e aquilo, e não me dava nada. E eu comecei a me desesperar. E contei pra ela o incontável – um problema de cunho íntimo e pessoal.

Não, aquilo não nos conectou. Nunca nos tornamos amigas – não tínhamos nada em comum além da nacionalidade. E não há ho´oponopono que me faça superar a minha língua solta.

Sobre se valorizar

Esta situação não foi apenas sobre conectar ou ser autêntica – era sobre não saber meu próprio valor e, por isso, tentar demais.  Quando eu contei aquela história para uma desconhecida procurando conexão, o que eu fiz foi simplesmente diminuir o meu valor (pra ela e mais ainda pra mim mesma) algo completamente contraproducente.

“Quem conquistou o direito de ouvir minha história?”

Esta é a pergunta que a Brené Brown não fez no vídeo, mas fez no livro “A Coragem de Ser Imperfeito”. A palavra chave é “conquistar”.

O primeiro fato é que, como na história que Brené conta no livro, eu estava envergonhada por ter me exposto e não ter recebido apoio. Ou por ter criado uma expectativa e ter dado com os burros n´água. Mas o segundo fato é que aquela pessoa não tinha conquistado a minha confiança antes que eu contasse pra ela alguma coisa, ainda mais tão íntima.

Depois de um tempo, através de um curso baseado no livro “O Caminho do Artista”, da Julia Cameron, aprendi sobre o que ela chama de “espelhos de fé”: pessoas que vão ‘potencializar o crescimento uma das outras; espelhar um “sim” uma para as outras.’

A Brené diz que pode ser apenas uma única pessoa com quem você pode contar. Não que você não vá ouvir criticismo, mas que seja aquela pessoa que vai te acolher, e que você tem certeza que quer o seu melhor.

A Julia é adepta aos grupos: “sucesso ocorre em grupos e nasce da generosidade”, ela diz.

Foram várias as lições, não só sobre me valorizar e o quanto e pra quem me abrir, mas sobre me proteger (e ir embora antes de falar demais quando eu começo a entender os sinais do meu corpo), e também sobre o quanto ser generosa quando alguém se abre pra mim também. Porque “é dando que se recebe”. Vou aprendendo.

*Dulcineia Santos é terapeuta multidimensional, life coach e praticante certificada da ferramenta MBTI® de tipos psicológicos. Acredita que a vida é cheia de lições, e que se não as aprendemos não passamos pro próximo nível do jogo. Saiu de casa cedo e foi morar no mundo – agora está na Suíça, onde estudou antroposofia por três anos. Gosta de tomar cerveja no boteco enquanto papeia, de aconselhar, da língua portuguesa, de cozinhar, de ficar só e de flexibilidade de horários. É esotérica, mas acha que estamos encarnados pra viver as experiências terrenas com o pé no chão – de preferência dançando.

Facebook: /curadeamor
Facebook: /dulcineiasantos
Email: [email protected]
Instagram: @dulcialcock

 

Um Comentário

  1. Patricia Nogueira Wanderley Razza diz:

    Olá Dulcineia!

    Adorei a sua forma de falar sobre si mesma e sobre os modismos que nos caem a porta no dia a dia.
    Isso é muito verdadeiro e se não prestarmos atenção perderemos a pessoa mais importante; nós mesmos.

    Gratidão por compartilhar.
    Forte abraço.
    Patrícia

Deixe uma resposta

Por uma vida mais consciente

Você quer receber as novidades e promoções do Nowmastê no seu e-mail?