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Mas o que é esse tal de Sagrado Feminino?

Mas o que é esse tal de Sagrado Feminino?

Nowmastê

Por Babi Surati Kiliam Farah*

Foto: Maria Carolina Turin

Muito vem se falando sobre o Sagrado Feminino. Fala-se tanto mas, de verdade, o que é? O nome pode dar a impressão de ser alguma coisa mística, quase remetendo à ideia de bruxas que se reúnem pra fazer poções mágicas e rogar pragas nos maledicentes. Olha que não seria uma má ideia termos esse tipo de poder: já pensou, que facinho seria? Era só reunir um bando de mulheres, fazer uma mandinguinha básica e puff, sumiriam do mapa todos os maledetos abusivos, bolsonaros da vida, misóginos, racistas, enfim, aquela lista toda que todo mundo já sabe. Aaahhhh, que alívio, neam?

“Porque realmente uma magia acontece quando elas se encontram: o tempo para neste nosso relógio de 24hs, e abre-se uma fenda neste espaço.”

Como isso não existe nem em filmes, o termo Sagrado Feminino veio à tona. E ainda que possa trazer um certo quê de misticismo, na verdade nada mais é do que a mulherada se reunir pra passar a limpo um monte de bobagens que se fala a respeito do que é ser mulher. É estar juntas pra se reconhecer, se fortalecer, se apropriar e empoderar. É por isso que grupos de mulheres vêm se reunindo diariamente nas ruas, no trabalho, em rodas de conversa, dança, de cura. Utilizando-se da linguagem que for.  Porque realmente uma magia acontece quando elas se encontram: o tempo para neste nosso relógio de 24hs, e abre-se uma fenda neste espaço (eu sei, o termo é sugestivo, mas no fim, é isso mesmo) onde se pode compartilhar desde todas as aflições e angústias até os prazeres e deleites relacionados a este Universo Feminino. E esta espécie da raça humana que é a mulher (sim, sim, amore, somos uma espécie diferente, muito embora pertençamos à mesma raça) tem habilidades muito bacanas mesmo, dentre as quais a de falar sobre o seu sentir. Por isso que quando a gente senta em roda é tão potente. Porque a gente consegue fazer reverberar umas nas outras estes sentires, e o que quer que seja que estejamos passando fica “magicamente” mais leve, mais sutil. Então, sim, é bruxaria, huahuahuahuahua (com direito a vassouras voando em rodopios, gato preto miando alto na janela e fumaça saindo do caldeirão). Nem que seja por algumas horas.

E a gente só precisou recorrer a este termo, Sagrado Feminino, porque a coisa foi ficando absurda de tal forma que precisava de uma boa desculpa pra reunir o clã novamente. A espécie estava, e ainda está, ameaçada de extinção, por assim dizer. E olha que já caminhamos! A ameaça vem de todos os lados: não só o clã está intimidado por outras espécies, em particular o espécimen masculino, mas a própria espécie vem se voltando contra ela mesma, veja só! E não é aquela coisa tipo o chefe da matilha brigar com o outro pra disputar o posto de macho alfa e o perdedor continuar no bando, não. O babado é forte, bicho pega pra valer mesmo! Mulher detonando a outra sem o menor pudor, puxando o tapete, falando pelas costas, querendo que a outra “se ferre”. Mulher dizendo que mulher que engravida do cara é “vagabunda” ou “tá querendo alguma coisa”. Mulher dizendo que mulher que apanha do homem é “porque provocou”. Mulher dizendo pra mulher que “o seu trabalho não é bom assim, que rezar chanupa (cachimbo da paz) não é o suficiente, não pode cobrar, tem que oferecer mais coisas” (essa eu ouvi, aaaffff!). Mais, sempre mais. Nunca o que a gente faz é suficiente. Nem as da nossa espécie reconhecem. E é aí que mora o perigo. Porque que a outra espécie, neste caso, os homens, façam isso, eu até entendo, muito embora ache patético. Duas raças disputando, uma quer ser melhor que a outra, blá blá blá. Mas dentro da própria espécie? Jura? Até quando?

“Ou aquelas “super amigas” que “te apoiam em tudo” o que você faz, mas não são capazes de dar um “like” no evento que você promove, quem dirá compartilhá-lo ou comparecer ao mesmo.”

O pior é que a lista de detonação não para. Tem aquela situação da mulher que fala pra outra, “Noooossa, ainda não casou? Vai ficar pra titia, hein? ”, ou ainda as que dizem, “Também, com esse cabelo/ bunda/ barriga, quem é que vai querer?”. Tem ainda aquelas que não querem trabalhar com outras porque “trabalhar com mulher é um saco”. Tem as que soltam os cachorros nas atendentes mulheres, mas nos homens, não. Tem as que chamam a colega que brada por seus direitos de “histérica” ou “louca”, ou ambos. As que rotulam a outra de brava se ela não é meiguinha nem fala baixinho. As que são suas “amigas” mas fazem fofoca pro teu “namorado/a”, “amigo/a”, “chefe” porque estava “preocupada com você”. Ou aquelas “super amigas” que “te apoiam em tudo” o que você faz, mas não são capazes de dar um “like” no evento que você promove, quem dirá compartilhá-lo ou comparecer ao mesmo. Sem falar naquelas amigas que dizem te admirar muito, te convidam pra um trabalho, mas não te pagam porque você já está recebendo espaço pra “mostrar e divulgar o seu nome”.

Cada vez que uma mulher desencoraja outra, entra em disputas, cobra que seja mais isso, menos aquilo, uma outra cai morta no chão. Do mesmo jeito que diz o Peter Pan sobre as fadas. É como se estivéssemos matando a nós mesmas, desacreditando de nosso poder de voar, de criar, de compartilhar. Sem perceber, cada vez que as mulheres entram nesses exemplos, nessas falações, nesses jogos de poder, estão ajudando (assinando embaixo, perpetuando, corroborando, sim!!!!) a manter todo esse sistema patriarcal e machista em seu posto de intocável, irreparável, indelével, irrefutável.

“Cada vez que uma mulher parte pra cima de outra porque ela “roubou seu homem”, está perpetuando o machismo. Quando uma mulher responde grosseiramente a uma outra mulher e não a um homem, está corroborando o patriarcado.”

Sim, sim, é isso mesmo. Cada vez que uma mulher diz que outra mulher “tá querendo confusão” porque usa mini-saia, está ajudando este sistema. Cada vez que uma mulher parte pra cima de outra porque ela “roubou seu homem”, está perpetuando o machismo. Quando uma mulher responde grosseiramente a uma outra mulher e não a um homem, está corroborando o patriarcado.  Quando só apoia a outra se for nos eventos que ela promove, ela está protegendo este sistema. Quando boicota a outra porque “aquela vaca não merece”, está mantendo o machismo em pé.

Por isso que a gente precisa falar mesmo sobre o Sagrado Feminino. E recorrer a este termo, neste momento, é urgente. Mas vamos falar de verdade, sem laira-lairice, pelamor. Vamos verbalizar sem medo e sem culpa o quão feridas ainda estamos, o quanto o desmerecimento, a invalidação, a descrença constantes exercidas milenarmente pela espécie masculina sobre as mulheres nos contaminou de tal forma que estamos repetindo cegamente o mesmo comportamento, inconscientes de que esta não é nossa essência real. Vamos nos responsabilizar por nossos sentires verdadeiramente. Vamos admitir que sim, quando reproduzimos estes atos estamos corroborando com o machismo, com o patriarcado, com tudo aquilo que lutamos contra, ainda que não propositadamente. O machismo, segundo definição do site significados.com, “ É o comportamento, expresso por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo e enaltecendo o sexo masculino sobre o feminino”. Já o dicionário informal define patriarcado como sendo o “Conjunto de relações sociais que tem uma base material e no qual há relações hierárquicas entre homens, e solidariedade entre eles, que os possibilitam a controlar as mulheres. Patriarcado é, pois, o sistema masculino de opressão das mulheres.” Deu pra entender? Pode parecer radical, e obviamente não se trata somente de mulheres fazerem isso, mas é que facilmente a gente pode cair no engano de achar que, porque estamos defendendo / falando/ apregoando o Sagrado Feminino, estamos isentas destas armadilhas, isentas de sermos machistas e de sermos responsáveis pela manutenção deste sistema. Infelizmente, não. Mas estamos no caminho.

À espécie feminina foi usurpado o direito de sentir-se sagrada, ou seja, de ter suas escolhas, seus desejos, seus quereres, seu modo de ser, validados e aceitos, sacramentados. O Sagrado Feminino vem pra trazer luz à esta energia, que de verdade não é exclusividade da espécie feminina. No entanto, como esta espécie estava (no passado, espero) ameaçada de extinção, era com ela que o termo teria que renascer, que se materializar. Esta espécie abriga, em sua anatomia, o ventre, a geração de novos frutos. Tem forma de mãos acolhedoras, de concha, de proteção. É nutridora. É a própria manifestação da Terra, de Gaia, Pacha Mama materializada. Esta é a figura desta espécie feminina. Só poderia vir através dela.

“Quanto mais os homens se permitirem vivenciar o Sagrado Feminino em si mesmos, mais leve ficará o peso de “ter que fazer tudo sozinhas” das mulheres.”

Enquanto espécie, a mulher vem plantando esta semente de concretizar seu direito à vida plena e livre nos aspectos básicos (poder sair sem ser atacada/ ameaçada/ estuprada, vestir-se como quer, salários equivalentes, etc, etc, etc) há muito tempo. Vimos experimentando a energia masculina há dezenas de décadas, assumindo muito mais papéis e funções do que manda o figurino, seja porque os homens ou morreram (na época das guerras), ou acharam que transar era só pra diversão e se a mulher engravidasse, problema dela, ou porque, ainda que assumissem, quando vinha o divórcio “os filhos precisam ficar com suas mães” e eles poderiam começar tudo de novo, iupi!!!!, pra citar alguns. Mas justamente esta experimentação das duas polaridades trouxa às mulheres um poder incrível, e é por isso que o Sagrado Feminino precisa ser bradado aos 4 ventos. Porque, dentre outras maravilhas, é deste ventre que nasce o Sagrado Masculino e a possibilidade de que a espécie masculina viva as duas polaridades, masculina e feminina, em si, assim como as mulheres vêm fazendo e já são experts. Quanto mais os homens se permitirem vivenciar o Sagrado Feminino em si mesmos, mais leve ficará o peso de “ter que fazer tudo sozinhas” das mulheres. Quanto mais a espécie masculina puder expressar o que sente surfando nas mesmas curvas e ondas dos corpos femininos, se permitindo vivenciar o mesmo espectro de sensações sem medo do turbilhão que elas causam e que nós, mulheres, sabemos tão bem, menos competitivas e invejosas seremos. Não precisaremos mais nos validar e nos afirmar na espécie oposta, e sim em nós mesmos. Tanto a espécie feminina quanto a masculina. Sim, eu sei, talvez utópico. Pra minha geração, certamente. Mas pras gerações futuras, quem sabe?

Foto: Eve Ramos

Babi Surati Killiam Farah (Curitiba-PR) é Criadora da Ciranda das Curandeiras, do Florescer da Curandeira, do Mulheres em Círculos nas Praças e da vivência mista Caminhos do Coração – uma Jornada de Florescimento Humano. Terapeuta Corporal Especialista em Análise Reichiana e Análise Bioenergética pelo Centro Reichiano de Curitiba-PR. Mulher Medicina consagrada pelo Fogo Sagrado de Itzachilatlan do Brasil, Membro do Conselho da Busca de Visão e da Dança do Sol, Dançante das Estrelas, Carregadora da Pipa Sagrada e Condutora de Temazcal e Temazcal de Lua (Tenda do Suor Sagrado) dentro destas tradições. Terapeuta do Sistema dos Florais da Amazônia (Centro de Medicina da Floresta-AM) e dos Florais Iapuna do Vale do Juruá-AC, região mais preservada da Amazônia Brasileira. Deeksha Giver – doadora da Benção da Unidade – Oneness University Brasil. Também é doadora de Reiki Xamânico Estelar. Cantora. Perpetuadora das Tradições Ancestrais Ameríndias, curadora através do canto e tambor xamânico. Jornalista e Bacharel em Letras-Inglês.

www.cirandadascurandeiras.com

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