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Manoel de Barros, quem prova que ele morreu?

Manoel de Barros, quem prova que ele morreu?

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Repost de Claudio Edinger*
Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) — Como é que se faz pra ter saudades de um poeta que já morreu e quem a gente só conheceu através de seus poemas? E quem prova que ele morreu, se está mais vivo que nunca (e vai continuar mais vivo que nunca) em seus trabalhos? Poeta morre? Dá pena mesmo é do pessoal do Premio Nobel que vai descobrir o poeta tarde demais…

“Noventa por cento do que escrevo é invenção
Só dez por cento é mentira.”

“O escuro me ilumina”

“Aquele que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto às fraquezas,
ao desalento, ao amor, ao poema.”

“A tarde está verde no olho das garças.”

“Quem anda no trilho é trem de ferro,
sou água que corre entre as pedras.”

“Escurecer acende os vagalumes”

“As coisas que não existem são mais bonitas”

“O mistério é a coisa mais real que existe”

“Poesia não é pra compreender
É para incorporar
Entender é parede
Procure ser árvore”

*****

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho.
Por motivo do ermo não fui um menino peralta.
Agora tenho saudade do que não fui.
Acho que o que faço agora
é o que não pude fazer na infância.
Faço outro tipo de peraltagem.
Quando eu era criança
eu deveria pular
muro do vizinho para catar goiaba.
Mas não havia vizinho.
Em vez de peraltagem eu fazia solidão.
Brincava de fingir que pedra era lagarto.
Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho
mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas.
De uma infância livre e sem comparamentos.
Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança,
a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha,
de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore.
Então eu trago das minhas raízes crianceiras
a visão comungante e oblíqua das coisas.
Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.
É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor.
Eu tenho que essa visão oblíqua
vem de eu ter sido criança
em algum lugar perdido
onde havia transfusão da natureza
e comunhão com ela.
Era o menino e os bichinhos.
Era o menino e o sol.
O menino e o rio.
Era o menino e as árvores.

****

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

******

Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

******

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

Claudio Edinger

*Formado em Economia, Claudio Edinger é autor de 14 livros fotográficos e um romance. Começou a dar aulas de fotografia em 1979 na Parson’s School of Design e mais tarde no International Center of Photography (ICP), ambos em Nova York.

Recebeu o Prêmio Leica duas vezes, o Prêmio Hasselblad, o Prêmio Higashikawa, o Prêmio Ernst Haas, Prêmio JP Morgan, Prêmio Pictures of The Year, Prêmio Abril, Prêmio Marc Ferrez e, por duas vezes, recebeu o Prêmio Porto Seguro no Brasil.

Suas fotos estão nas coleções do MASP, MIS, MAM, MAC, Pinacoteca, Museu Metropolitano de Curitiba, Metronòn (Barcelona), Higashikawa (Japão), AT&T Photo Collection, Equity International Photo Collection, Brazil Golden Art Fund, Itaú Cultural, Centro Cultural Banco do Brasil e nas maiores coleções particulares de fotografia do Brasil. É professor de História da Fotografia Contemporânea na Casa do Saber.

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