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Lições do oceano para a vida

Lições do oceano para a vida

Juliana Marinho Pires

Por Juliana Marinho Pires*

Viver em Fernando de Noronha tem seus desafios. Um deles é integrar o mar ao seu dia a dia e fazer dele seu principal aliado. Praticar apneia, mergulho de cilindro, fazer snorkel, surfar, andar de caiaque e barco são apenas algumas formas de se aproximar do oceano por aqui. A riqueza da vida marinha é incalculável: balés de cardumes, tartarugas enormes, raias, peixes ornamentais,corais. Cada entrada na água é uma surpresa e muitas vezes no fundo do mar meus olhos chegam às lágrimas de emoção. A natureza é muito perfeita! Sinto isso aqui todos os dias.

Mas voltemos aos desafios. O oceano também é muito vasto e cheio de mistérios.

Às vezes também dá medo de encarar aquela imensidão. São infinitas histórias de pescadores, piratas guerreiros, deuses, atletas; homens, mulheres e outros seres que enfrentaram e se relacionam com mar em diversos níveis…O oceano então se torna um meio que permite cruzar fronteiras, ocupar territórios, lidar com medos, encarar o desconhecido, ter sucesso ou fracassar…Ele ensina. Porque por mais que as correntes e movimentos sejam estudados e conhecidos, cada dia é um dia diferente. E isso é a própria imprevisibilidade da vida, da vida da gente.

Ainda na busca por olhar cara a cara os meus medos internos, decidi peitar as ondas grandes. Sim, aquelas ondas que me imobilizavam, que quando vinham me deixavam atônica, não sabia se eu furava ou se deixava que elas me dominassem.

Na maioria das vezes levava caldos homéricos e inclusive me machucava. Teve até uma vez que eu achei que ia morrer, tamanha a embolada que dei com a água na areia, me arrastando com uma força descomunal. Segundos de terror.

Conheci aqui em Noronha o Homem Peixe (www.homempeixe.com.br), um bodysurfer e couching com muita experiência em tornar o mar nosso grande aliado e assim enfrentar melhor os percalços da vida. Sim, porque ficou claro para mim que tem tudo a ver. A desenvoltura com que ele pega tubos sem prancha e desliza pelas águas me fascinou, um pacto que ele estabelece com o mar e o mar com ele, como velhos amigos. O Homem Peixe escolheu para a vivência a praia da Cacimba, normalmente boa para surf, ou seja, com o-n- d-a- s g-r- a-n- d-e- s. Não tinha para onde correr. Além disso, do grupo de quatro mulheres que íamos fazer a vivência, duas tinham muita intimidade com o mar.

Entrei na água com muito medo. À medida que o Homem Peixe desconstruía aqueles temores que adquiri ao longo da vida, fui também aprendendo que a indecisão e falta de iniciativa te deixa tão vulnerável que o mundo passa por cima. “Fura a onda, com determinação! É agora!”, ele gritava para mim. Não dá para esperar, assim como na vida. E assim ia me liberando a cada impulso, a cada pulo, a cada mergulho bem sucedido. Você escolhe ir com garra na hora certa, ou deixar a onda passar por cima? Foi a grande lição que vivi naquele dia.

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Eu passava por baixo das ondas, e sentia toda a sua potência sobre mim sem me deixar levar.

Foto: Maíra Kellermann

Comecei a passar por baixo da onda, enquanto ela vinha por cima, numa harmonia que eu nunca pude sentir antes. Depois foi a vez de pegar onda! Sem medo de ser feliz, ia com tudo e me senti muito empoderada. Senti verdadeiramente como é ser amiga do mar em alguns instantes, sem temê-lo. E percebi mais uma vez que está tudo dentro de mim: a segurança, a determinação, a força e também o medo, o sofrimento, a indecisão. O trem vem e eu pego, não preciso nem deixar ele passar nem deixar ele me atropelar. O próximo passo é conseguir uma nadadeira de bodysurfer e deslizar ainda melhor pelas ondas!

Quero ir a fundo, literalmente.

A natureza está na gente e a gente está na natureza. Embora saiba que você, natureza, não precisa necessariamente de mim para sua evolução, eu preciso muito de você para a minha. Gratidão.

Juliana Marinho

Meu nome é Juliana Marinho Pires. Sou jornalista e publicitária formada pela UnB, já morei na Alemanha, Espanha e Chile estudando e trabalhando. Por aqui já fui, entre outras coisas, diretora e produtora de documentários, professora universitária, assessora de comunicação, tradutora e até atriz. Viajante e curiosa compulsiva, me empreendi recentemente em um período sabático pela Ásia e África. Ao voltar, mergulhei de cabeça no universo da espiritualidade e atualmente também sou leitora de aura, pratico tantra yoga e bioenergética, além de experimentar nos campos do xamanismo, do sagrado feminino e visitar comunidades de diferentes grupos e filosofias de vida.

No momento estou em Fernando de Noronha!! Estou trabalhando aqui em um programa por 3 meses no Instituto Chico Mendes de Biodiversidade – ICM Bio),

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