"La vuelta redonda"

Por Aline Micelli*

Aline na Estação da Luz. Foto de Alice Martins.
Aline na Estação da Luz. Foto de Alice Martins.

Cerca de três meses atrás fiz uma operação para retirar a vesícula, tinha pedras em quantidade suficiente nesse órgão para provocar uma severa pancreatite e nenhum tratamento alternativo no meio daquela crise poderia ajudar. Não existia limpeza de vesícula a base de Ghee que fosse trazer resultado naquela altura do campeonato. Expelir as pedras de forma natural só poderia agravar o quadro. Fui internada no hospital e fiquei uma semana na espera pelo procedimento.

No meu quarto duas mulheres jovens, uma faria a cirurgia bariátrica, indicado para quem sofre de obesidade mórbida e a outra reconstruía pela terceira vez o enxerto de pele da perna direita, causado por um atropelamento. Como elas não podiam se mover e eu estava apenas recebendo soro e analgésicos para dor, fiquei cuidando delas e aprendendo na prática como criar mecanismos de adaptação contra o desconforto do hospital.

A mulher da bariátrica se chamava Andreia, mãe de 2 filhos, estava no segundo casamento e tinha apenas 30 anos. Ela não suportava a dor causada pela posição na cama, o tempo todo virada de barriga pra cima e queria mover o corpo pro lado. Não tinha forças pra levantar e ir ao banheiro, todas essas coisas que nos deixam a mercê dos cuidados alheios. Não sei o que acontecia com as enfermeiras, na maioria assistentes, mas elas deixavam essa moça esperando por quase uma hora seguida.

A mesma situação lamentável acontecia com a outra paciente, Débora, mãe de 3 filhos e que um dia atravessou a rua e foi atingida em cheio por um motorista que nem sequer prestou socorro. Faz 5 anos que ela passa por uma cirurgia atrás da outra, tirando pele de um lugar e transferindo pra coxa. Seu osso dessa região, parte do fêmur, foi substituído por uma prótese de aço. O ferimento dela sangrava, ela também quase não se movia e as enfermeiras nunca chegavam.

Por mais técnicas de respiração e meditação eu estava confusa, cheia de medicamentos percorrendo meu sangue e as veias machucadas e estouradas em ambos os braços. Mal conseguia atender as menores necessidades delas e minha. Quando a enfermeira aparecia, depois de horas, a situação já tinha passado do agradável e eu tentava controlar minha indignação segura de que aquilo acabaria logo. Até que um dia acabou, as outras moças foram embora com suas famílias e fiquei no quarto sozinha.

Foi a primeira cirurgia que fiz na vida e estava com medo e cansada daquela maratona toda. Os dias passavam devagar e a vontade de voltar à normalidade era grande. Criei tantas expectativas e mesmo assim não tinha a menor idéia de como seria essa cirurgia. Já na maca de operação, após inalar um gás sedativo, acordei para a minha surpresa no corredor do hospital e tudo tinha acontecido numa rapidez assustadora. Agora eu era uma mulher de 33 anos e sem vesícula.

Cheguei ao quarto e em poucas horas estava de pé, treinando caminhar de um lado pro outro, munida da minha bolsinha de soro. Os enfermeiros e médicos ficaram assustados com essa minha rápida recuperação, afinal eu tinha sofrido cortes, tinha pontos, mas mesmo assim acharam ótimo e queriam descobrir meu segredo para ter tanta resistência. Respondia cheia de alegria que era Yoga, minha prática constante, minha companhia fiel e que nunca me faltou, principalmente nos momentos de maior dor.

Tenho desde então essa relação passional com minha prática de Yoga, essa paixão flamejante. Por causa dessa simples rotina de exercícios conscientes, aliados a respiração, a meditação e o cultivo da atenção plena consegui com muita garra ser a heroína da minha trajetória. O segredo da minha força não é meu, pertence a toda humanidade. Está exposto a todo mundo que queira agarrar sua vida e tomar a responsabilidade por ela.

Tive que ter a minha vesícula extraída, o Yoga nem sempre, como lembrei no início do texto, resolve tudo. Mas ele me deu estrutura para que o sofrimento fosse vivido de forma positiva, aceitando essa pequena morte, abrindo caminho para esse novo corpo. Na segunda semana da alta eu já estava praticando levemente e com um mês voltei a dar minhas aulas. No final de outubro parei de dar aulas, pelo menos oficialmente. Estou entrando num ano sabático como professora para vivenciar minha vida de praticante.

Depois de quase três anos de São Paulo escolhi viajar para o sul, para as minhas raízes. Começo pelo Rio Grande do Sul, sigo para o Uruguai e me mando para a Argentina. Segundo uma amiga uruguaia realizarei “la vuelta redonda”. Sim, estou circulando dentro do meu mundo, reencontrando pessoas importantes, revendo os espelhos que tinha deixado no passado. Preciso fortalecer ainda mais meu caminho, curar as pendências familiares e renascer ainda mais forte. É honesto comigo e mais ainda com meus alunos.

Até mesmo o caminho do Yoga não é feito só de joias preciosas. Precisa de muita lapidação. Sigo repartindo aqui no portal minhas histórias e nelas sempre vocês podem encontrar minha visão ampla sobre o Yoga.

NOWmastê! 

alineperfil
*Aline é jornalista formada pela PUCRS, professora de Yoga há mais de 10 anos, com formações em Hatha Yoga e há dois anos formada pela professora Micheline Berry em Vinyasa Flow Yoga. Cozinheira, taróloga, flamenca e apreciadora da humanidade. Tem também um blog no qual divide suas histórias lúdicas, escritos pelo seu lado mais selvagem, chamado Lili e o Mundo.

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