Krishnamacharya – o homem por trás do Yoga moderno

Por Azriel ReShel via Uplift*

O verdadeiro princípio do Yoga

Quase 40 milhões de pessoas praticam Yoga apenas nos Estados Unidos. O Yoga tornou-se um modo de vida para muita gente no Ocidente. Mas quantas dessas pessoas que praticam sabem que o Yoga por eles praticado foi influenciado – e alguns até dizem que inventado – por apenas um homem?

Tirumalai Krishnamacharya, nascido há 131 anos em uma minúscula vila no sul da Índia, foi o principal professor por trás dos estilos de Yoga mais populares dos dias de hoje, incluindo o refinado Iyengar, o Vinyasa, o dinâmico Ashtanga e muitos outros.

Muitos se referem a este mestre como o pai do Yoga moderno, devido a sua experiência, a sua maneira única de tratar o Yoga e a sua enorme influência sobre outros tantos mestres. Seus alunos mais famosos – Pattabhi Jois, B.K.S. Iyengar, Indra Devi e T.K.V. Desikachar -, foram fundamentais para a popularização do Yoga no Ocidente.

Krishnamacharya foi treinado em Hatha Yoga durante os sete anos que passou com seu guru, Ramamohana Brahmacharya, que morava em uma remota caverna no Himalaia. Ele também passou muitos anos como aluno estudando e posteriormente ensinando sânscrito, vedanta e filosofia.

O ponto de vista do aluno

O neozelandês Mark Whitwell é professor de Yoga, autor e foi aluno de Krishnamacharya, ele descreve os seus ensinamentos como tendo sido trazidos da tradição autêntica do Yoga.

“O principal ponto do trabalho de Krishnamacharya é que existe um Yoga correto para cada pessoa, não importa qual pessoa. Qualquer um que queira praticar, pode. Ele costumava dizer ‘se você pode respirar você pode praticar Yoga’. Então, no seu ensinamento, nós adaptamos o Yoga à pessoa. Nós não adaptamos a pessoa ao Yoga. Nós não criamos sistemas padrões estilizados e depois insistimos que a pessoa chegue até lá seguindo um esforço linear. Isso, às vezes, pode ser difícil, o tentar chegar em um lugar presumidamente superior como se a pessoa já não estivesse lá agora, como a vida que é.”

Mark estudou por muitos anos com Krishnamacharya e também com seu filho, Desikachar.

“Eu fui a Índia porque os Beatles haviam ido para a Índia e viajei por lá por um ano e meio conhecendo gurus, professores e yogis. Daí eu fui para o ashram de Ramana e conheci um jovem que me levou até Krishnamacharya e Desikachar. Quando os conheci eu soube que eram pessoa inteligentes que não estavam apenas montando um negócio. Eles não eram empresários do Yoga ou Espiritual nem gurus naquele modelo de poder tradicional. E isso foi um alívio.”

É curioso que Krishnamacharya não apenas levou o Yoga até os ocidentais, mas ele também reviveu essa prática em sua própria casa. O ressurgimento do Yoga na Índia, depois de ter desaparecido com a colonização britânica, deve-se muito as aulas de Krishnamacharya e as demonstrações de Yoga conduzidas por toda a Índia nos anos 30.

A viagem pessoal de Krishnamacharya

Algumas anotações biográficas feitas por Krichamacharya nos dão pistas sobre sua vida pessoal e sua viagem pelo Yoga. De acordo com elas – que foram escritas na última década de sua vida -, ele foi iniciado no Yoga por seu pai, quando tinha apenas 5 anos de idade, aprendendo os Yoga Sutras de Patanjali. Seu pai lhe contou que sua família descendia de uma família de yogis do século IX, chamada Nathamuni.

Krishnamacharya escreveu que ele aprendeu 24 asanas de um swami no templo de Sringeri Math, onde nasceu a linhagem de Yoga Sivananda. Seu pai faleceu quando ele tinha 16 anos, e foi então que Krishnamacharya iniciou um peregrinação ao templo de seus ancestrais, onde ele se encontrou em uma maravilhosa visão.

Durante os sete anos com seu guru, Ramamohana Brahmacharya, Krishnamacharya decorou o Yoga Sutras, estudou asanas -ele afirmou ter se aprimorado em 3000 asanas – e pranayamas, e também os aspectos terapêuticos do Yoga.

Em dado momento Ramamohana Brahmacharya pediu que ele retornasse a sua casa para ensinar o YOGA PARA TODOS, e não apenas para aqueles que queriam renunciar a vida em sociedade. Foi assim que Krishnamacharya começou a ensinar, primeiramente nos seus dias de folga enquanto trabalhava como gerente em uma plantação de café.

Suas primeiras aulas eram uma versão fiel ao Hatha Yoga, mas não demorou muito e ele se tornou um dos famosos inovadores do Yoga. Em 1931 ele foi convidado a dar aulas no Sanskrit College de Misore. O maharaja de Misore, conhecido por seu suporte às artes ancestrais, auxiliou Krishnamacharya por 20 anos a promover o Yoga pela Índia, patrocinando demonstrações e publicações. Ele oferecia aulas de Yoga e também demonstrações das capacidades excepcionais do corpo yogi – conquistadas pelos grandes yogis – para chamar a atenção das pessoas para uma tradição que desaparecia. Dentre as demonstrações estavam asanas extremamente difíceis, parar o pulso e até segurar com os dentes objetos pesados.

O retorno da sabedoria de Krishnamacharya

Ao contrário de muitos yogis dos tempos modernos, Krishnamacharya acreditava que o Yoga pertencia a Deus e por isso jamais se disse seu dono. Mark Whitwell acredita que a sua sabedoria e aquilo que ele trouxe da grande tradição foi suprimido pelo Yoga moderno.

Mark é incisivo quando fala em retomar o Yoga que desenvolve uma prática para o indivíduo, baseada nos ensinamentos de Krishnamacharya e de seu filho Desinkachar, com quem ele teve uma amizade e uma relação de mais de 20 anos.

“Eu fui pra América pela primeira vez para ver o Yoga e fiquei chocado com o que vi. Não tinha nada a ver com o que Desikachar e Krishnamacharya haviam me ensinado. A aparência e o sentimento eram outros.”

“Quando você coloca os princípios de Krishnamacharya neste formato de Yoga que se popularizou ele se torna o verdadeiro Yoga, poderoso e seguro.”

Mark Whitwell é o autor dos livros Yoga of Heart e The Promise of Love, Sex and Intimacy e é o editor do livro O coração do Yoga de T.K.V. Desikachar, escrito para ajudar a trazer os princípios de Krishnamacharya e a pureza da sabedoria do Yoga de volta ao mundo de hoje.

“Krishnamacharya descreve todas as diferentes categorias de Yoga como pertencentes a um mesmo grupo, como uma forma holística integrada para ser adaptada as necessidades de cada pessoa. Ele insistia que era errado o pensamento ocidental de dividí-las como se elas pudessem ser isoladas umas das outras.”

Mark descreve os profundos ensinamentos de Desikachar da linhagem de seu pai como ‘o coração do Yoga é a relação entre o estudante e o aluno’ e ele queria que o Yoga ocidental se alinhasse a essas origens ancestrais.

“Indianos na Índia agora estão suscetíveis aos ensinamentos do ocidente sobre o Yoga e, apesar de ser um reflexo da fusão que começou no século XIX, é uma espécie de re-colonização da Índia. Então, nós temos que incluir os princípios de Krishnamacharya. O espectro completo do Yoga deve ser praticado e entendido, e colocado nesse sistema popularizado que ganhou forma nos últimos 30 anos. Aí sim as pessoas estarão no jogo com todas as ferramentas, tendo o Yoga em todos os seus aspectos.”

O poderoso legado de Krishnamacharya vive de alguma forma por todo o globo, através da influência do Yoga no dia-a-dia das pessoas. Mas chegou a hora de abraçarmos o verdadeiro poder do Yoga, através de sua sabedoria ancestral, integrando-a no Yoga que nós todos amamos.

“O problema é a forma como o ocidente popularizou o Yoga, como sendo apensa um exercício muscular. Isso é apenas o masculino. Não há o aspecto feminino. E é claro que a vida é os dois, masculino e feminino em união perfeita. É por isso que a respiração é um professor central e até o propósito por detrás dos asanas. Esse conhecimento foi deixando de fora. É curioso que nós tenhamos ignorado Krishnamacharya, mesmo ele tendo sido consagrado o guru dos guris. No ocidente nós honramos as linhagens, nós queremos os professores ensinaram, mas nesse caso, por alguma razão, o Yoga foi popularizado, mas a base foi ignorada, mesmo sendo tão poderosa para cada indivíduo.”

*Texto publicado em junho de 2018 e traduzido pelo Nowmastê.

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