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Jardim da Infância: Como a criança do Grajaú encontra a criança do Pacaembu?

Jardim da Infância: Como a criança do Grajaú encontra a criança do Pacaembu?

Nowmastê

Edição Greice Costa, fotos Camila Miranda via Yoga Journal Brasil  (que infelizmente não existe mais)

Criolo: Crianças não ligam para CEP!

Monja Coen: Vamos brincar?

……

Monja Coen: Fiquei sabendo que sua nova música, seu novo disco se chama convoque seu Buda. Como é isso?

Criolo: Aconteceu no meio do processo de fazer esse trabalho. Eram 14 horas por dia criando situações. O Marcelo e o Daniel (respectivamente Cabral e Ganjaman, músicos e produtores de dois álbuns de Criolo) me mostravam um recorte de uma música que se transformou numa outra coisa. Achei tão forte o que eles criaram que veio diretamente na minha cabeça esta frase: “Convoque seu Buda”. Percebi naquela sonoridade nova, que estava ainda borbulhando, um lance de até que ponto se demonstra alguma força por meio de algo ríspido. A força é outra coisa, né? Acredito que tenho essa força e acredito que todas as pessoas têm algo muito forte dentro de si, todos os seres vivos. Quando falo Buda, não imagino imagem, mas sim a sensação dentro de mim, de movimento, de calor. Depois da frase, teci o texto, deixando aquilo caminhar por mim, e virou uma canção.

Monja Coen: Muito bem!

Criolo: E eu me senti bem vivo. E são raros os dias em que a gente se sente assim.

Monja Coen: Quando a gente está em conexão! E como é que é essa música?

Criolo: É uma canção muito simples. Uma tentativa de chamar as pessoas para fazer alguma coisa: “Convoque seu Buda porque o clima tá tenso”.

Monja Coen: Que bom! É isso aí, convoque o seu Buda.

Criolo: Tem aquilo que você disse sobre o barulho da rua enquanto as pessoas estão fazendo meditação.

Monja Coen: Sim, o barulho não atrapalha, ele na verdade faz parte. É entrar em contato com a realidade, que pode ser violenta. Como a gente responde a ela? Como convoca o nosso Buda? E é isso, Buda não é uma imagem, é um estado interior, como você mesmo falou. Um estado de percepção clara da realidade. Ver com clareza e poder reagir com discernimento. Como eu respondo a esse mundo? Reagir é fácil, “se me empurrar, eu empurro de volta”. Como faço outro movimento? Não empurro de volta. Eu faço um movimento de transformação que não precisa ser violento. Isso para mim é chamar o Buda. A resposta de Buda, que transforma com sabedoria e compaixão. Tem ternura.

Criolo: É.

Monja Coen: Mas é preciso fazer alguma coisa, não se omitir. Na minha interpretação.

Criolo: Sim. Na sua.

(risos)

Monja Coen: E como é o seu Buda?

Criolo: Acho que ele é um pouco parecido com o seu. É isso que você falou mesmo. Parece que temos um cardápio com sabores muito interessantes e depois tem uma conta.

Monja Coen: Tá certo! Veja só, os neurocientistas dizem que 95% do que somos, falamos e escolhemos já está predeterminado. Não só geneticamente mas pelas experiências que passamos. Mas tem 5%. E nesses 5% é que a gente pode trabalhar. É nesses 5% que a gente pode convocar Buda. Que a gente pode fazer a diferença sem repetir modelos. A física quântica coloca isso como o elemento desconhecido. Esse livre–arbítrio é de 5%, mas é importante.

Criolo: É. Ainda restam esses 5% e o que a gente faz com eles, né?

Monja Coen: Tive a bênção de estudar em escola pública. Mas aos 13, minha mãe me matriculou em uma escola de freiras, fui discriminada. E disse: “Chega! Vou embora daqui!” E me casei com 14 anos.

Criolo: E em que ano foi isso?

Monja Coen: Em 1961, acho. Em que ano você nasceu?

Criolo: Que maravilha. Eu sou de 1975.

Monja Coen: Então foi 14 anos antes de você nascer.

Criolo: E você já estava toda serelepe pra lá e pra cá! Que ótimo, isso é maravilhoso.

Monja Coen: Depois de uma separação durante a gravidez, uma filha, viagens e muitas mudanças, descobri a meditação, o zazen. Pensei: “Nossa, aqui tem um portal. Não precisa de nada além de você sentado e respirando”. E é por aí que eu tenho caminhado, dizendo às pessoas que existe uma cultura de paz, de não violência, mas ela é ativa, não passiva. Você medita para ter clareza em agir, fazer suas escolhas nesses 5%. Uma pessoa que desperta irradia essa sabedoria a quilômetros de distância. Mas me conte de você. Sei que seu pai é lindo.

Criolo: Meu pai é maravilhoso, lindíssimo. Minha mãe também. Eles juntos, então, fica um sol.

Monja Coen: Eles juntos dão você! E tem irmãos?

Criolo: Tenho quatro. São lindões. Sou filho do seu Cleon e da dona Vilani. Somos do Grajaú, zona sul de São Paulo. Minha mãe sempre se esforçou muito para deixar os filhos em contato com coisas leves e estou aqui te conhecendo.

Monja Coen: E como você começou na música?

Criolo: Vi com 11 anos um amigo fazendo um verso… era possível rimar. Depois de dois anos escrevendo, pedi para cantar em uma festa no bairro, com doação de comida, presente e de roupa. Preparei uma fita cassete e cantei duas músicas. Foi um dia lindo, todo mundo pegando seu brinquedo, sua roupa, sua cumbuca de comida feliz da vida.

Monja Coen: E o que você cantou?

Criolo: Duas letrinhas, mas não lembro.

Monja Coen: Com 6 anos, antes de ler, aprendi duas poesias com minha mãe. Uma se chamava Moleque bacurau, sobre um menino negro que não tinha comida nem brinquedos. Foi a primeira reflexão sobre desigualdade social. A outra era O crime de hoje, sobre um menino jornaleiro que anunciava a manchete do dia sem saber que o criminoso era o pai, porque não sabia ler.

Criolo: É um príncipe esse menino. Príncipe do caos… Os dois textos são bem atuais.

Monja Coen: Faz 60 anos.

Criolo: E não mudou.

Monja Coen: Quase nada. Por isso que eu digo, vai demorar, mas vai chegar.

Criolo: Há anos aconteceu um pequeno acidente em casa, meu pai chegou com a roupa de metalurgia, cheio de graxa e já me levou para o hospital. Fui atendido em 20 minutos. Mas demorei duas horas para sair porque chamaram a polícia porque acharam que meu pai era um negro que sequestrou um menino. Eu entendo o garoto vendendo o jornal. Nascemos no alçapão. Para uns, alçapão de bambu com arame velho, para outros, um pouco mais reluzente. Mas sempre um alçapão.

Monja Coen: Romper a barreira do alçapão.

Criolo: Continuar cantando no alçapão a chama da vida e de alguma forma fazer disso uma mão que levanta esse alçapão. Ou conseguir achar uma fresta ali. Não é legal pelo menos imaginar isso? Esses pequenos goles de esperança de cada dia.

Monja Coen: É isso aí.

Criolo: Eu acredito muito nisso

Monja Coen: Eu também. Tinha um colega da redação no jornal em que trabalhei que dizia: “O impossível demora um pouco mais”. Sempre dá.

Criolo: Às vezes já deu, né?

Monja Coen: Sim! Me fale do seu disco.

Criolo: Se de certa forma eu ouso dizer Convoque seu Buda, é porque eu enxergo o Buda em você e em todos. Porque é muito duro cobrar ou esperar o que a pessoa não tem. É cruel.

Monja Coen: É verdade.

Criolo: Então tem essa sensação de como a nossa pele se arrepia ou simplesmente perceber os dedos dos pés, esses milagres maravilhosos.

Monja Coen: É a presença absoluta.

Criolo: E isso é muito forte. É muito forte se perceber no mundo. Ai, ai, ai, eu gostei bastante de te conhecer!

Monja Coen: Eu também! Não sabia o que esperar.

Criolo: Nem eu. Isso é bom, né?

Monja Coen: Vou convocar o Buda.

Criolo: Você tá sempre convocando… Que novidade… (risos) Mas é o que você falou, é uma sensação. Como esse lance do alçapão, parece que precisamos estudar 20 mil anos para realizar uma coisa, mas às vezes você só precisa sentir em um dia. Sim, estudar é uma coisa linda. Mas a sabedoria é um dos tesouros mais maravilhosos.

Monja Coen: Nossa, eu quero que você seja meu monge! A você eu transmito odharma! O ensinamento de Buda é isso. E nós somos o tempo.

Criolo: Você falar, isso é um soco na cabeça, porque joga uma leveza, mas também uma responsabilidade do que faz com seu tempo. Você deu um belo ippon (golpe perfeito, nas artes marciais japonesas). Mas tem outro lado: a gente tá ficando e o tempo tá indo e rindo da nossa cara… Não estamos indo junto com a natureza porque a nossa soberba não deixa.

Monja Coen: O tempo rapidamente se vai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar para o acordar e despertar. Isso a gente fala antes de dormir. O tempo da vida humana é limitado. Não aproveitar o potencial é desperdiçar a vida.

Criolo: É, quem está em movimento não vai acumular a poeira. Está tudo em movimento

Monja Coen: A vida assim como ela é. E não é! Vamos melhorando devagarinho.

Criolo: Para fazer o chá tem que esquentar a água. Vamos tomar um chá?

Monja Coen: Vamos!

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