A importância de um mestre

Por Bruno Jones* via Yoga Bhumi

Hoje em dia o Yoga se transformou em um negócio bastante lucrativo. Ao mesmo tempo em que virou um negócio, se perdeu em sua essência. No Brasil se formos à uma livraria, encontraremos os livros de Yoga nas prateleira de esoterismo e/ou, pior ainda, na seção de auto-ajuda.

Na era das redes sociais, não é difícil de se encontrar milhares de frases de efeito relacionadas a mestres daqui e dali. Mas será que estas frases são, de fato, destes mestres? E mais ainda, será que estes mestres estão realmente ligados à tradição védica?

Há um surto de organizações mundias de Yoga e bem-estar que vem crescendo mundialmente. E mesmo direto da Índia (claro, pois assim têm mais crédito e respaldo). Imitando modelos empresariais de pirâmide, os quais prendem seus adeptos aos seus cursos e produtos, gerando lucros sem fim.

Portanto, para chamar um mestre de mestre, é só ver o seu perfil na rede social e dali, segui-lo? Ouvir Cd’s? Ler livros? Sair repetindo as frases feitas por eles? Ou será preciso estar na sua presença? Conhecê-lo de fato? Saber ao mesmo tempo que ele te conhece para que possa guiá-lo?

Um mestre, para ser teu, tem antes de tudo que te conhecer. Para saber trabalhar contigo naquilo que mais você precisa. Te guiar em práticas adequadas.

Um mestre, não precisa fazer discípulos. Um mestre é um renunciante, portanto, não precisa de lucros ou fama.

Existe um mantra bastante interessante na Taittirīya Upaniṣad, que diz: “Que eu tenha fama” (o mestre). Mas esta fama é no sentido de que os seus próprios alunos sejam reconhecidos pelo mérito de suas capacidades para ensinar.

Porque, na verdade, o que um mestre ensina, não é mérito dele. É merito do seu mestre. Que por sua vez teve seu mestre, e assim em diante.

Um professor que está dentro da tradição védica, não está emitindo a sua opinião. Está apenas repetindo aquilo que já vem de muito tempo. Dos Vedas.

Nesta tradição, o ensinamento vem do professor em forma de diálogo porque algo deve ser entendido. Algo deve ser seguido, não apenas “engolido”. Em uma crença, você engole. É algo que tem que ser aceito por completo, sem questionamento. Qualquer questionamento que se estabeleça é apenas para estabelecer ainda mais a crença. O que na verdade não é nenhum questionamento. Por isso há tantas tentativas para tentar se provar que alguém existiu em determinado momento da história. Se alguém existiu ou não, não é o que importa. O que importa é o ensinamento.

A essência de vários tipos de conhecimento por muitas vezes encontra-se extremamente criptografada e torna-se difícil de ser compreendida. Assim é no caso dos textos antigos de Yoga, como a Bhagavad Gītā ou Yoga Sūtras. A pessoa deve ter completo conhecimento sobre os Śāstras para poder apreciar em sua plenitude tudo aquilo que estes textos estão dizendo.

Por exemplo, mesmo Arjuna, na Gītā, tendo certo “background”, não foi fácil para ele compreender. Ele teve que questionar. Se não foi fácil para Arjuna, certamente não é para nós, que vivemos em um tempo no qual não dispomos de tanto tempo para meditações e reflexões.

Para pessoas como nós, estes textos tomarão muito tempo para serem absorvidos. Este conhecimento se apresenta na forma de palavras. Porém, o objeto de estudo é algo único, portanto, nem sempre este conhecimento se torna acessível através das palavras. Ao mesmo tempo, as palavras são empregadas para que o Ser seja imediatamente revelado. Portanto, todos nós precisamos não apenas do ensino de Vedānta como um pramāṇa, mas também de um professor, um guru.

A necessidade de um professor

Existem duas sílabas na palavra guru. “Gu” significa escuridão ou ignorância, e “Ru” significa aquele que a remove. Portanto, um guru é aquele que remove a escuridão da ignorância ao ensinar o Śāstras. O ensinamento é o Śāstra e o professor também é o Śāstra.

O que isto significa? O ensinamento se torna vivo quando ele é dado na forma correta. Do contrário, tudo o que se tem são palavras sem significado. Mesmo que o ensinamento seja um pramāṇa, há uma metodologia empregada para que as palavras ganhem significado. Um professor, ou um guru, é aquele capaz de revelar o significado das palavras. As palavras já estão lá e o significado também está lá. Elas apenas precisam ser reveladas para a sua compreensão.

Quem é o primeiro Guru nesta linhagem que fazemos parte?

Podemos responder esta questão com outra: quem é o primeiro pai? Quando você me disser quem é o primeiro pai, eu lhe direi quem é o primeiro guru. Em ambos os casos é a mesma coisa. Portanto, se você diz que o Criador é o primeiro pai, ele também deve ter um pai. O que significa que ele não pode ser o Criador. Portanto, não há pai para aquele que chamamos de Criador.

Alguém disse que o primeiro pai era um macaco. O que é uma conclusão presumida. No entanto, você se dará conta que este macaco tinha um pai, que tinha um pai, que tinha um pai, até que você finalmente desista. Porque você entra numa regressão infinita, é melhor desistir. Ou você pode concluir que o primeiro pai era aquele que não era filho. Ele era apenas pai, o qual chamamos de Criador.

Se assumirmos que o primeiro pai é o Criador, então, o primeiro guru não será diferente deste Criador. E, a partir deste Criador, há uma linhagem professor-estudante chamada de guru-śiṣya-paramparā. O Paramparā é invocado no seguinte verso:

Sadaśivasamarambham śankaracaryamadhyamam|asmadacaryaparyantam vande guruparamparam||

Eu saúdo a linhagem de mestres que começa com Śiva, tem Śankara no meio e vai até meu mestre.

Portanto, quando você saúda o professor, suas saudações vão até o Criador, onde a linhagem começou. Para apontar o meio desta linhagem, Śankaracārya é mencionado, o que significa que ele está ali, em algum ponto, unindo o Criador ao presente professor. Se usamos a palavra meio, isto também significa que há um fim. Se o início é representado por Śiva, significando o Criador, aquele que é plenitude, conhecimento. E o meio é Śankaracārya. Quem está no fim? Meu professor.

Estando aqui hoje, verifico que não houve quebra na linhagem entre o primeiro pai e eu. Similarmente, se o conhecimento está chegando até a mim agora, eu sei que ele se manteve vivo através da tradição professor-aluno.

Como escolher um professor

Escolher um professor também pode ser um problema. Muitas coisas são ditas por muitos. Todos se dizem donos da verdade.

Se alguém lhe diz que você tem um problema, então esta pessoa pode manipulá-lo. No entanto, se alguma pessoa lhe diz que este problema que você parece ter é um engano, então esta pessoa é objetiva. E, se o problema for real, ninguém será capaz de resolvê-lo.

Se a situação é real, como pode ser transformada? Se eu realmente sou uma pessoa limitada e inadequada, não haverá forma de resolver este problema. Com ou sem ajuda, o limitado é sempre limitado. Mas, aqui, não há necessidade de se dizer: “se sou uma fração do Todo, sempre serei esta fração.” Se eu sou o Todo, a conclusão de que sou uma fração é um engano, e a maneira de sair desta visão é me enxergar de maneira clara. Então, aquele que diz que o problema é um engano e que este engano é universal, não apenas um engano pessoal, este, pode ser um guru.

Para que eu me reconheça como o Todo e que, portanto, me aceite, é dito: “Que você encontre um professor” (Mundaka Upaniṣad – 1.2.12). Que tipo de professor? Os Vedas dizem que o professor é aquele que domina o que ensina e que está enraízado neste conhecimento. Mas como saber se este professor domina o conhecimento ou não? Se eu quiser estudar matemática avançada, eu preciso apenas procurar por alguém que tenha estudado matemática avançada. Eu posso presumir que esta pessoa conhece o assunto e, então, decidir estudar com esta pessoa à menos que ela prove o contrário.

No entanto, quando procuro um guru, há um problema, pois sendo o conhecimento sútil ou espiritual, como saber se esta pessoa se expôs ao conhecimento e à disciplina da tradição? A menos que você já tenha um conhecimento sobre si mesmo.

Deveríamos ter um mínimo de informação para sabermos se aquele professor tem conhecimento ou apenas finge ter. A pessoa também pode estar iludida, não fingindo saber, mas pensando saber. Tais pessoas não sabem que não sabem.

Um professor, na verdade, é uma pessoa comum, como você. Com um pouco mais de bagagem, de experiência, para pode transmitir o ensinamento.

Uma boa forma de se verificar se este ensinamento é bem transmitindo e faz sentido, é quando ele não contradiz a lógica da mente. É quando aquilo que é ensinado pode ser, realmente, aplicado na vida cotidiana.

Yoga não é um assunto sobrenatural e jamais deve ser ensinado com frases complexas ou de efeito. Quando nos deparamos com coisas que parecem lindas poeticamente, mas não fazem sentido algum. Não é um bom sinal.

Um bom professor, sempre ensina de forma simples, clara e que toca o coração dos seus alunos. Ajudando-os a enxergar aquilo que deve ser visto.

*É o coordenador do Yogabhumi. Instrutor de Yoga licenciado pela Aliança do Yoga do Brasil. Passou seis temporadas de estudos na India com Swamī Dayānanda Saraswatī Tem como referência os professores, Pedro Kupfer com quem fez formação em 2005. E Gloria Arieira, com quem estuda desde 2007.

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