Il Giardino Delle Belle – Beleza e permacultura na Sicília

* Por Fernanda Nicz

Nos seis meses do projeto Minideias, passei, em setembro último, pela Sicília, na Itália, onde vivi minha segunda experiência Wwoof na fazenda agrícola Il Giardino delle Belle, entre Ragusa (belíssima!) e Gela. Em duas semanas de muito calor (devido à posição geográfica), aprofundei meus conhecimentos sobre permacultura e conheci pessoas incríveis.

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O Giardino existe há seis anos, mas no segundo ano de existência um incêndio destruiu quase tudo e o napolitano Mário Carbone (44 anos), à frente do projeto, teve que recomeçar praticamente do zero. Antes do Giardino, Mário trabalhava como fotógrafo publicitário e por um longo tempo foi feliz assim. Porém, na época da transição da fotografia analógica para a digital, o italiano viu mudar clientela e tipo de trabalho. Não teve jeito; a mudança de vida acompanhou a mudança na área de trabalho. Cansado, sem muita perspectiva e pouca paixão para seguir atuando, resolveu passar um tempo num terreno da família – perto de onde está hoje o Giardino. Foi um processo, era “como se eu estivesse iniciando uma nova vida, a segunda parte da minha vida. O fotógrafo publicitário foi perdendo espaço para um novo Mário nesta nova realidade que se apresentava”.

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“A vida é movimento e transformação e quando somos capazes de nos mover e transformar junto com o movimento da vida, isto é sabedoria. É fluir em harmonia.”

Monja Coen

Mário foi atrás de conhecimento. Fez diversos cursos. Aproximou-se da permacultura. A Sicília conta com mais de 150 projetos – um diferente do outro e tem uma rede de permacultura que se ajuda e orienta mutuamente.

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E há três anos, Mário conheceu a Wwoof. “É riquíssimo, é vida. Cada pessoa que vem aqui aprende, mas também ensina, deixa algo. Por aqui, passam pessoas de todo o mundo que trazem e me apresentam um pouco de seu país, sua cultura, suas crenças”.

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Eu no Giardino – Quando estive no Giardino, estavam por lá também como voluntários, três italianos, uma holandesa e uma menina da ilha de Bermudas. De fato, o Giardino é belo. A rotina engloba umas horas de trabalho pela manhã e outras no fim da tarde quando já não está absurdamente quente. As atividades envolvem jardinagem, construção e alimentação. O banheiro é seco e toma-se banho olhando o céu. A cozinha é em um trailer aberto e, no fim da tarde, enquanto se prepara o jantar, é possível assistir ao espetáculo do pôr do sol. Hoje, o Giardino é autossuficiente do ponto de vista da eletricidade e há previsão de construção de um forno solar.

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Em dois fins de semana que estive por lá, fomos até o mar, numa cidade vizinha. Em outros momentos conversei e aprendi muito com o pessoal que estava no Giardino. A holandesa Anita Ferrèe (54 anos…sim, felizmente Wwoof não é só para jovens! Eu fiz agora, com 38 anos) me contou que, por 17 anos trabalhou com serviço social. Morou na França, estudou francês, morou em Roma. Fez dança contemporânea e teatro de improviso, que gosta muito porque “te coloca no aqui e agora, você está completamente presente, deve agir e reagir sem pensar, de acordo com o momento”.

Anita, que trabalhou também com agricultura biológica, resolveu fazer Wwoof porque gosta de trabalhar com a terra e adora descobrir outras formas de se viver. Antes do Giardino esteve em duas fazendas. Gostou demais da experiência e pretende repetir.

“Gosto da combinação oferecida pelo Wwoof; trabalhar num lugar que mistura, entre outras coisas, criatividade, crescimento pessoal, jardinagem e agricultura biológica”.

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Permacultura – Muito presente e utilizada por Mário no Giardino, a permacultura  enfatiza a aplicação criativa dos princípios básicos da natureza, integrando plantas, animais, construções e pessoas em um ambiente produtivo, com estética e harmonia.

Desenvolvida no começo dos anos 70 pelos australianos Bill Mollison e David Holgren, é uma metodologia agrícola baseada no respeito a todas as formas de vida, nos processos naturais e na sabedoria das culturas nativas. Atualmente, a expansão da permacultura tem permitido a restauração do equilíbrio da paisagem agrícola e urbana.

A permacultura é uma filosofia de trabalhar com, e não contra a natureza; de observação prolongada e pensativa em vez de trabalho prolongado e impensado, e de olhar para plantas e animais em todas as suas funções, em vez de tratar qualquer área como um sistema único produto.

Biodiversidade – Aprendi, caminhando pelo Giardino e conversando com o Mário que biodiversidade, em se tratando de permacultura, é fundamental. Deve-se colocar juntas, por exemplo, plantas que ajudam umas às outras, de acordo com a altura. Há as plantas que nutrem o terreno, há plantas espontâneas – nascem sem ser cultivadas -, plantas de frutos, plantas que produzem energia e plantas que precisam de energia e plantas perenes. Estas últimas têm ciclo de vida longo que lhes permite viver por mais de dois anos, ou seja, mais de dois ciclos sazonais. Suas folhas não caem.

Exemplos: hibisco, ou papoula.

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Mário explica “a permacultura não te diz exatamente o que deve ser feito, ela te dá um método de trabalho, respeitando alguns princípios éticos, trabalhando sempre  com o que a natureza da região oferece. “É um modelo de projeção de ambiente que varia de acordo com o tipo de terreno, região, clima. É imitar a natureza, fazer com que, num local, num futuro próximo, não se precise mais da intervenção humana”.

 Os três pilares da permacultura:

– Cuidado com a terra para que todos os sistemas de vida continuem e se multipliquem. Sem uma terra saudável, os seres humanos não podem exercer suas qualidades.

– Cuidado com as pessoas para que acessem os recursos necessários para sua existência.

– Repartir os excedentes. Ecossistemas saudáveis utilizam a saída de cada elemento para nutrir os outros. Os seres humanos podem fazer o mesmo.

Dificuldades – Quando perguntei sobre as dificuldades, Mário apontou duas: a parte geológica, o tipo de terreno, clima muito árido – neste caso, a permacultura ajuda; coloca um sistema junto, fornece elementos. Outra dificuldade é o ambiente social, “este modo de vida é muito diverso da maioria das pessoas, da sociedade…mas ao mesmo tempo, chegam pessoas interessantes, com suas energias, suas histórias…então não vivo sozinho e hoje, quando saio do Giardino por um tempo, sinto uma enorme falta, é como se este lugar sempre tivesse sido minha casa”.

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Wwoof – Semelhante a um programa de intercâmbio, o Wwoof coloca em contato voluntários e proprietários de fazendas agrícolas de todo o mundo. Os donos da fazenda oferecem comida e alojamento e os voluntários trabalham por um período e tem a oportunidade de conhecer estilos de vida mais simples, sustentáveis e em meio à natureza. Para ver informações detalhadas de cada fazenda é necessário se cadastrar no site do país escolhido e pagar determinado valor para ter acesso por dois anos.

Quer saber como foi o roteiro de viagem de Fernanda? Veja aqui. 

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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