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Mãos à Horta! Conheça a horta coletiva onde contar piada também é tarefa

Mãos à Horta! Conheça a horta coletiva onde contar piada também é tarefa

Nowmastê

Por Deborah Freire

Acabamos de tomar uma sopa de lentilhas e urtigas selvagens com manjericão e brócolis roxo. O sabor eu não ouso transcrever sob pena de fazer injustiça aos gastrônomos, à sopa ou a ambos. Todos os ingredientes foram plantados e colhidos na horta comunitária aqui da vizinhança por pessoas de idade, classe social e formação das mais diversas, que se juntam duas vezes por semana pra sujar as mãos de terra.

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Antes de conhecer o lugar, eu mal me lembrava que frutas, legumes e verduras obedecem a um ciclo anual de crescimento. É essa “falha da natureza” que os supermercados consertam transportando berinjela, banana e cebolinha por distâncias a que elas resistem graças a um milagre biotecnológico, com um sabor muito inferior ao da produção orgânica local.

Na horta aprende-se a ter paciência. O vínculo com a terra me ensina o ritmo da vida real e aos poucos torna nítida a frustração produzida pelo instantâneo: o desejo satisfeito imediata e consecutivamente, a insaciedade acumulada, o querer estar sempre em algum outro lugar. E sair correndo quando não consigo me lembrar o que estava procurando quando toda essa loucura tecnológica começou a ficar acessível demais para mim.

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Trabalhando na horta Riverside Community Garden, em Cardiff, país de Gales, aprendi a ser ineficiente com alegria. A ter humildade ao ouvir e seguir instruções tão simples que só um engano, como carpir um leito inteiro de brotos de cenoura, poderia gravar na minha memória sobrecarregada. Na horta aprendo a aceitar minhas falhas sem que ninguém as condene, a aceitar estações do ano, frio e chuva, as variações de humor, a tagarelice e o silêncio das pessoas ao lado de quem trabalho por puro amor a essa fonte inesgotável de alimento e energia.

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Sujo as mãos de terra e sei que está tudo bem. Que a assepsia veiculada na publicidade serve não só para vender amaciante de roupa, mas sobretudo para acenar com uma falsa sensação de segurança contra microorganismos invisíveis e outros medos igualmente imaginários e lucrativos. Sujo as mãos de terra e o medo passa.

A horta é comunitária, de livre acesso a ex-presidiários, pessoas com problemas mentais, donas-de-casa com crianças, desempregados, estudantes e profissionais de diferentes áreas, que como eu, haviam perdido a conexão com o essencial. Ela não tem dono nem hierarquia. A produção não é dividida proporcionalmente ou por critério de merecimento, mas sempre há suficiente para todos e cada um trabalha o quanto pode ou quer. Parece loucura um sistema quase anárquico, coordenado por somente um técnico assalariado, funcionar sem regulamento claro ou controle rígido.

No início, quando percebi que na horta ninguém controla frequência, produtividade ou comportamento dos voluntários, quase tive uma síncope. No meu impulso controlador precisei me esforçar para não tomar satisfação ao ver pessoas que não tinham feito nada além de tomar chá e papear a tarde inteira, ir para casa de sacola cheia. Foi quando me mostraram a lousa onde, entre as tarefas sugeridas estão, tomar chá e contar piada. Nada mais legítimo. Uns trabalham, outros falam enquanto trabalham e alguns talvez só consigam concentrar-se em uma coisa de cada vez.

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Além de exercício físico e terapia para excessos, virtuais ou não, a horta é ponto de encontro e trocas para qualquer um disposto a abandonar sua zona de conforto. Interações sociais numa horta comunitária são regidas por um acordo tácito de viabilidade em si mesmas. Ninguém me contou isso. A única prova da eficácia do acordo é o fato de haver hortas comunitárias espalhadas pelo mundo todo e no Reino Unido, desde pelo menos a primeira metade do século passado. Elas não são o último grito em matéria de estilo de vida alternativo.

Para começar uma, como aconteceu em Cardiff,  junta-se um grupo de vizinhos com manual de permacultura, (achei este aqui em 10 segundos) ocupa-se um espaço público aberto onde haja chão de terra, e com algumas ferramentas básicas, sementes ou mudas de culturas mais resistente, basta arregaçar as mangas e estar disposto a persistir.

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Até eu conhecer uma horta comunitária, o termo tinha um sentido poético demais para ser concreto. Hoje, sei que a força e a alegria de pessoas que trabalham juntas em comunhão com a terra vêm do sentimento de comunidade. Uma comunidade acontece quando pessoas interagem para além das ocasiões sociais e estabelecem vínculos entre si e com o espaço que habitam – possivelmente tão aleatório quanto lhes impõe o mercado imobiliário de qualquer metrópole. Quando elas se cansam do isolamento construído com as conveniências da modernidade, surge motivação para unir-se em torno de algo além da contínua satisfação das próprias vontades.

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Não se estabelece uma comunidade por decreto e também não se pode proibi-la. Áreas públicas, como parques e praças devem ser usadas em prol da “comunidade” exatamente para que ela germine e transforme-se, de letra da lei, em espaço para florescer e vingar; para produzir alimentos livres de agrotóxicos, mais saborosos e frescos, e que essa comida seja farta e compartilhada nas celebrações e festas de bairro.

Como era antigamente :0)

 

* Deborah Freire

Portuguese Translator and Intellectual Property Specialist

67A Whitchurch Road – CF14 3JP – Cardiff – Wales – UK

 

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