Hari OM

Texto de Gloria Arieira* do Vidya Mandir, originalmente publicado no Yoga Journal Brasil

O texto mais conhecido da Tradição Védica é a Bhagavadgita. A Tradição Védica é assim chamada porque tem suporte nos Vedas, mas também é chamada atualmente de Tradição Hindu e, em Sânscrito, é Sanatana Dharma, o conhecimento que vem junto com a humanidade.

Bhagavadgita significa a canção (gita) do Senhor (bhagavad). E a palavra gita é propositadamente colocada no feminino (uma vez que normalmente é uma palavra neutra), pois refere-se à fonte de todo conhecimento, que é Sarasvati. A Bhagavadgita é muito conhecida e apreciada pois nela podemos encontrar a essência dos Vedas numa linguagem mais fácil do que a linguagem dos Vedas. É na Bhagavadgita que encontramos todos os assuntos de Vedanta, o autoconhecimento, e de Yoga, o estilo de vida que privilegia o autoconhecimento.

No capítulo 16 da Gita, Sri Krshna nos fala sobre características mentais diferentes, algumas que conduzem à liberação e outras que aprisionam as pessoas ao samsara.

O objetivo dessa descrição é levar as pessoas a desenvolver as qualidades que conduzem ao autoconhecimento e evitar as outras. Depois, no capítulo 17, Krshna ensina sobre três tipos de pessoas – as que conduzem sua vida com clareza dentro do que é correto, independente de seus desejos; outras que guiam suas vidas a partir do que gostam e querem; outras, ainda, que governam suas vidas por suas aversões e raivas. Todos nós podemos agir dessas três maneiras, em momentos diferentes, mas devemos tentar focar mais nas ações corretas que devem ser feitas por nós, com discriminação e clareza. Mas, mesmo quando, por força da ilusão, agimos inadequadamente, ao perceber o erro ou deslize, há algo que pode ser feito, nos ensina Sri Krshna – as palavras “OM tat sat”, repetidas com a mente em Ishvara, neutralizam o negativo associado à ação. É dito que Hari OM pode ter essa função também, pois nos remete a Ishvara.

Hari vem da raiz verbal hr que quer dizer: carregar, levar embora e é um nome de Ishvara.

Podemos traduzir livremente Hari OM como:

“Ó Ishvara, através da palavra OM, eu o chamo e, através da palavra Hari, eu lhe peço ajuda para levar embora minha ignorância.”

Seja Hara (um nome de Shiva) ou Hari (um nome de Vishnu), as palavras nos remetem a Ishvara, aquele que, através das leis da criação, remove nossos sofrimentos.

Harih – yah harati papani duhkhani duhkhahetum ajnanam ca.

Hari é aquele que leva embora os sofrimentos e também a causa dos sofrimentos que é a ignorância de si mesmo.

E a palavra OM vem da raiz verbal av que quer dizer proteger, abençoar.

OM, que é o nome de Ishvara, é uma fonte de bênção, de proteção.

OM protege eliminando a causa para o sofrimento, que é a ignorância de quem sou eu.

Harih OM é a mesma coisa que Hari OM.

Quando iniciamos ou terminamos cantos védicos, dizemos Harih OM, e, às vezes, dizemos Harih OM sri gurubhyo namah Harih OM. (Harih OM saudações aos mestres Harih OM). Mas, coloquialmente, saudando uns aos outros, como os sadhus e renunciantes fazem em Rishikesh, ou num ashram, é dito: Hari OM. Lembramos, com essa saudação, de Ishvara que elimina todo o indesejável e nos abençoa com o bem maior, aquilo que mais desejamos. Reforçamos também o entendimento de que o que real é OM.

Ishvara está na forma do universo e das leis que o mantém em funcionamento. Como parte da vida de Yoga, Ishvara é lembrado como a ordem psicológica que governa a mente e o intelecto, as emoções e o raciocínio. Apreciando a existência de Ishvara, ou da ordem psicológica, podemos perceber a coerência em nossas emoções. Vemos que tudo está na Ordem, e portanto em ordem, e assim nossas emoções, e a pessoa emocional que somos, são válidas, respeitadas, honradas. Percebemos que não há nada de errado conosco, tampouco podemos culpar outros, tudo que acontece está em ordem, tem uma razão. Esse entendimento faz uma grande diferença em nossa vida!

Então, Hari OM – que você possa apreciar Ishvara, a ordem psicológica, e ser abençoado por sua apreciação.

Om tat sat
Hari om
Gloria Arieira

Texto para o Yoga Journal em Abril de 2014

www.arshavidya.org
www.arshavidya.in
www.dayananda.org
www.swamidayananda.org

Index

*Gloria Arieira é mestra de Vedānta, Sânscrito e Canto de Mantras. É a fundadora e diretora do Vidyā Mandir (RJ). Em janeiro de 1974 foi para a Índia estudar com Swāmi Dayānanda, que tornou-se seu mestre. Com ele estudou até julho de 1978, retornando então ao Brasil. Além de permanecer no Aśram, um local de estudo e vivência com o mestre, em Mumbai, norte da Índia, viajou para vários lugares seguindo Swāmi Dayānanda em cursos, palestras e visitas a lugares sagrados. Desde seu retorno, vem ensinando Vedānta e Sânscrito no Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil e também no Porto, em Portugal. Dedica-se também ao trabalho de tradução para o Português dos textos em Sânscrito. É responsável pela publicação em português dos livros de Swāmi Dayānanda, editados pela Vidyāmandir Editorial.

Deixe uma resposta