“Gurus” e Gurus

Por Jorge Carrano* do Dharma Bhūmi

A palavra “guru” aparece cada vez mais na mídia. Não apenas gurus da espiritualidade, mas gurus em áreas tão diversas quanto o marketing, bolsa de valores, direito, ciência, coaching, pedagogia entre tantas outras. Nesse contexto, o guru aparece como um “mago”, possuidor de poderes extraordinários, com uma visão muito à frente dos outros. Mas não é contexto original da palavra.

Então o que é, afinal, um guru?  Podemos olhar para a palavra sob três diferentes prismas.

No primeiro, o guru quer dizer simplesmente “professor”. Segundo a tradição indiana, os primeiros anos da criança eram passados na casa de um guru. Nesta etapa, que é chamada de brahmacārya, a criança começa a ter contato com a tradição védica, estudar as escrituras (Vedas), o sânscrito e outras disciplinas.

O segundo significado é o do termo em sânscrito. Guru quer dizer “aquele que remove” (ru) “a escuridão” (gu). Num sentido (bem) mais amplo, qualquer pessoa que atue na remoção da ignorância seria, ao menos naquele momento, um guru. Um exemplo bem cotidiano: imagine um avô que ganha um celular novo, e não consegue operar algumas das funções do aparelho. Ele pode recorrer ao seu neto de oito anos para ajudá-lo. Para a criança dessa idade, é fácil mexer nos aparelhos modernos. Então o neto, nesse contexto, está atuando como um guru para o avô.

Mas o guru vai além do professor, pois um guru é principalmente aquele que remove a ignorância de quem busca o autoconhecimento. Aquele que busca conhecer sua própria e verdadeira natureza. E esse conhecimento não pode ser obtido sozinho. É preciso que essa ignorância (a escuridão) seja removida, a partir da luz do conhecimento. E esse é o papel mais importante do guru.

Infelizmente, o guru tornou-se também “uma profissão”.  Pastores, padres, monges, professores de Yoga e meditação, pessoas ligadas à espiritualidade em geral e às práticas ritualísticas muitas vezes se autoproclamam seres “iluminados” e ávidos pelo papel de guru das massas. E são tantos, que é difícil acompanhá-los até mesmo pelas redes sociais. Em boa parte usam discursos cheios de clichês e palavras fáceis em busca de aumentar seus “seguidores”, que compram avidamente produtos com a “marca” do guru, lotam retiros e eventos e fazem generosas doações para instituições nem sempre legítimas. São vários os casos de falsos gurus cujas ações são criminosas – fraude, assédio moral e sexual, sonegação de impostos, entre outras.

Lamentavelmente, vivemos uma época em que as pessoas têm a necessidade de que alguém lhes diga o que deve ser feito com suas vidas.  É mais fácil fazer o que um “guru” diz do que enfrentar seus próprios problemas e dificuldades.

Na dúvida se deve ou não seguir um guru, é melhor seguir o seu coração.  Ele nunca se engana – ao contrário do que acontece com o cérebro. Em nosso coração reside um “guru” realmente confiável, que não apenas deseja nossa felicidade, mas é a própria manifestação dessa felicidade.

*Jorge Carrano é idealizador e coordenador do espaço de Yoga e Meditação Dharma Bhūmi, em Niterói. Publicitário e praticante de Yoga desde 1993, fez sua primeira formação no Studio Saraswati de Yoga e Vedānta. Formado também pelo IEPY (Instituto de Estudos e Pesquisas em Yoga – SP) e certificado pela Escola de Kaivalyadhama (Índia). Ministra cursos, palestras e atua como facilitador de grupos de estudo.

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