Fim de ciclo

Por Cristiana Dias Baptista*

Hoje eu encerrei um ciclo.

Imagino que todos os dias da vida nós iniciamos e encerramos diversos ciclos. Mas eles nunca são tão claros para mim como o que encerrei hoje.

Há pouco mais de 12 meses iniciei um trabalho voluntário, onde a minha participação era acompanhar por duas horas semanais durante um ano duas crianças em fase de acolhimento, e juntos montarmos um álbum com registros sobre a vida de ambas durante essa fase. O objetivo: ajudá-las na formação de suas identidades. Crianças que crescem em ambiente familiar têm em seus pais e parentes o registro vivo e real de como elas são, como se comportavam, o que gostavam ou não gostavam. Crianças afastadas de suas famílias, não.

Quando soube desse projeto, de cara me identifiquei, pois passei minha infância e adolescência mostrando a amigos e parentes o álbum do meu primeiro ano de vida, feito com amor e carinho pela minha mãe. Lembro como virava página após página, incansavelmente, me assegurando de que aqueles eram momentos importantes e que, sem o álbum, eu nada saberia.

Aprendi no treinamento do Fazendo Minha História, que com as crianças em abrigo, separadas temporária ou permanentemente de seus familiares, o álbum serviria para que elas no futuro não tivessem a sensação de que a vida durante aqueles anos não existiu. Aprendi no treinamento e na prática que, por mais trágica que a história de cada um desses pequenos seja, é importante que eles a conheçam. Aprendi também que toda criança bem tratada e bem cuidada é feliz, independentemente de suas tragédias familiares e pessoais. Existe uma força de vida maior na pureza dos pequenos que merece ser registrada.

Por maior que fosse a minha disposição, não vou dizer que o processo foi tão fácil quanto antevi. Meus pequenos eram pequenos, frágeis e cheios de defesas. Se jogar e se abrir para uma estranha que estava ali atenta e cheia de questões não estava nos planos de nenhum dos dois. Ambos, por motivos ainda pouco claros para eles, haviam sido afastados de seus pais e parentes, e confiar e se entregar certamente não estava em seus planos.

Mas desistir não estava nos meus, então lá fui eu. Demorei uns bons três meses apenas para entender o que a minha pequena de recém-feitos três anos dizia. Aqui vou chamá-la de Luz, porque logo aprendi que atrás daquela cara de brava tinha um sorriso tão forte e tão feliz, capaz de iluminar o mundo. Luz não queria desenhar, não queria ouvir uma história, não queria falar, queria apenas ver o quanto conseguia me dominar. E lá fui eu tentar colocar limites em uma criança que tudo o que eu queria fazer era beijar e mimar! Mas eu sabia que tinha que ter foco. O álbum era o objetivo. Além do que, logo percebi que na Casa, as crianças, principalmente aquelas com sorriso gostoso, já recebiam muito amor.

Meu outro pequeno, que aqui vou chamar de Raio, com pouco mais de oito anos tinha uma energia, uma rapidez de pensamento e uma vocação para zombador que cansaria o mais paciente dos mortais. E eu não sou famosa pela minha paciência! Antes de cada encontro eu pensava: “Esteja bonzinho! Esteja bonzinho”. Às vezes meus pensamentos funcionavam. Muitas vezes não. E daí chega a Tia Cris, cheia de perguntas… e Raio, só querendo aprontar!

Com Luz querendo picotar e rabiscar todo o álbum e Raio não querendo colaborar, me restou montar os álbuns na minha casa. Fiquei obcecada e logo descobri que meus dons criativos também eram limitados. Vixe! Mais uma dificuldade. Mas graças a Deus, assim como sou impaciente, sou persistente.  Os álbuns começaram a tomar forma e meus dois pequenos começaram a se identificar com aquele processo e a entender que eu estava lá, todas as semanas, com um propósito legal. A minha presença constante (e os caramelos secretos que passei a levar) também os fez confiar. E logo criamos um vínculo!

Um vínculo que realmente não tem preço. De tia, virei tia Cris! Criamos momentos que vou guardar para a vida. Luz deitada em meu ombro ouvindo uma história, agarrada a minha mão com a chuva forte, alcançando a torneira da pia pela primeira vez, falando frases inteiras, gargalhando com alguma palhaçada. Raio também deitado em meu ombro para ouvir uma história, me contando sobre a sua namorada secreta na escola, trazendo um desenho para colocar no seu álbum, me pregando alguma de suas peças. E quantas peças foram!

E não foi apenas com Luz e Raio que os vínculos surgiram. De uma forma ou de outra, consegui criar uma conexão com praticamente todas as 20 crianças que viveram e vivem na Casa. Luz tem 7 irmãos e Raio tem 6, e todos, além de queridos e especiais, em algum momento colaboraram com o álbum.

Hoje encerramos este ciclo. Em nenhum momento desses dozes meses parei para pensar como seria esse final. Na verdade, não quis pensar.

Acho que tivemos sorte.

Em cinco dias Luz e seus irmãos voltarão para a casa do pai e da avó. Hoje reestruturados e preparados para acolhê-los. O processo de reestruturação e preparação da família demorou exatos 12 meses, o mesmo tempo em que acompanhei Luz.

E hoje, durante nosso último encontro, a avó, tia e primos de Raio apareceram na Casa para a primeira visita depois de mais de um ano distantes. É o início de um longo processo, mas uma luz de esperança na vida de Raio e seus irmãos. Poder presenciar a alegria na cara de cada uma das crianças foi uma benção. E ver Raio arrancando o álbum das minhas mãos para mostrar a avó, a recompensa que eu nunca imaginei que teria.

É dificílimo fechar este ciclo, impossível conter as lágrimas, mas saber que a missão foi cumprida certamente ajuda.

Cristiana*Cristiana é economista e jornalista, trabalha como planejadora financeira pessoal e é sócia do Nowmastê. Nas horas vagas seu maior prazer é viajar e contar histórias.

6 Comentários

  1. Quem te conhece sabe da sua jornada com estas crianças, do seu carinho com todas as crianças que vc conhece e da sua boa vontade em ajudar… Tenho um orgulho imenso de vc <3

  2. Cris, você transbordou em emoção no seu depoimento.
    Estou ainda na fase dos “3 meses” iniciais e sua experiência coube, inteira, em mim.
    Desejos de realizar essa etapa junto a esses pequenos cidadãos que se tornarão adultos.
    Tivemos pouco contato mas aprendi muito com você.
    Todos do abrigo, em especial, as suas duas estrelas, terão você eternamente em seus corações.
    Beijos e viva novas grandes emoções em sua vida.
    Isa

  3. Cristiana Baptista diz:

    Que lindo Isa! Obrigada! Boa sorte com suas pequenas! Tenho certeza que no final vc vai estar assim, com o coração apertado mas cheio! ;-)

  4. Barbar Ivo Trez Rios diz:

    Lindo relato. Parabéns pelo trabalho, carinho e dedicação.

  5. Maravilhoso, Cris!

  6. Lindo! Lindo! Lindo!

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