Esse tal de flow

Por Lila Guimarães, do site Cena Crua

Pense numa cidade grande e nas suas inúmeras ruas. Nas pessoas, bikes e carros que passam por ela como células de um imenso organismo vivo e imprevisível. A qualquer momento tudo pode acontecer. Uma pane ou um acidente, mas quase sempre tudo anda como uma dança coreografada em uma estranha e secreta harmonia.

Quando estamos no avião e podemos ver esse movimento de cima, pelas luzes dos carros à noite, parece que a vida real é inteira programada, uma obra de ficção ou um vídeo game. Mas quem é que escreve o roteiro? Alguém está no controle? Cada um tem a sua resposta e a sua incógnita. Essa é a graça!

Se muitas vezes nem pensamos nisso, é porque andamos ocupados demais em ir de um canto para o outro, numa pulsação coletiva que nos torna parte inseparável do todo. Assim estão unidas todas as pessoas, e também todas as cidades, países e o mundo. A lógica do flow considera que a vida acontece num único oceano.

Minimamente, tudo a partir desse pensamento se torna fluido. Tudo. Ação, pensamento e energia (ou aquilo que está entre o sentir/pensar e o agir). Tudo faz sentido, ganha corpo, de certa forma, e tem suas consequências.

“A coisa mais macia da terra vence a mais dura. O que não existe penetra até
mesmo o que não tem frestas”, do filósofo chinês Lao-Tzu.

Não é uma brincadeira para fracos, nem um jogo que nos aprisiona. Olhemos para o lado positivo: talvez exista uma forma mais orgânica e leve de viver. Decoramos regras e fórmulas matemáticas, mas desconsideramos as leis invisíveis que regem a vida. Elas não nos garantem nada, a não ser aquela sensação de que não estamos sozinhos e de que nada é em vão ou apenas por acaso.

Para virar essa chave mágica e ir contra o ceticismo é preciso discrição. Muitas vezes, observar e ser gentil com o tempo das coisas, como o movimento do mar. Viver nossos desejos sem impor. Pingar numa folha de papel apenas uma gota e ver o quanto ela molha.

Às vezes não é preciso lutar, nem quebrar demais a cabeça. Em um segundo a mais de confiança no encaixe das peças, no tal do flow, e tudo se configura favoravelmente. Tudo se resolve. Mas é preciso respirar, realmente. Pegar carona em insights e impulsos que a vida nos dá de presente. Por isso, o silêncio e a cabeça tranquila. Só assim é possível ouvir.

No Tao-Te King, O Livro do Sentido e da Vida, de Lao-Tzu, existe uma passagem que fala sobre a força da suavidade e o quanto ela é uma arma poderosa. Talvez a maior de todas. Uma das formas da sabedoria, da autonomia que nos direciona para a situação mais adequada ou ideal, na hora certa.

“No mundo inteiro não há nada mais suave do que a água. No entanto, para
atacar o que é duro nada se iguala a ela. Nada pode mudar isso. A fraqueza
vence a força, a suavidade vence a dureza: todos na Terra o sabem, mas
ninguém é capaz de agir assim”, Lao-Tzu.

 

*Carioca radicada em São Paulo, Lila Guimarães é atriz, jornalista e editora em veículos que falam sobre comportamento, beleza, moda e viagens. Adora tudo que é temperado com arte, natureza e bem-estar. Cultiva as amizades como se o mundo fosse uma grande família e está sempre conectada a práticas e filosofias espirituais na busca por uma vida solar. Em seu blog, o carismático Cena Crua, ela compartilha os assuntos que mais gosta, desde projetos e iniciativas inovadoras até receitas saudáveis e ensaios reflexivos. Sua maior alegria é inspirar liberdade e autoestima, descobrindo o lado ótimo de tudo.

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Um Comentário

  1. Lila,

    Gostei do seu post.

    “Por isso, o silêncio e a cabeça tranquila. Só assim é possível ouvir.”
    Infelizmente vivemos em uma sociedade que nos condiciona a seguir exatamente em caminho oposto a isso. Ainda bem que há posts e livros que nos tornam conscientes de que a realidade que vivemos não é exatamente a mais adequada para nós, principalmente em relação aos excessos em nossa vida.

    Acredito ser cada vez mais urgente que nossas ações sejam mais semelhantes a da água e não de querermos vencer tudo à força – pois isso tem levado a humanidade por caminhos bem tortuosos.

    Abraços,

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