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Escolhas e consequências

Escolhas e consequências

Nowmastê

Por Yuri Vilarinho*

Photo credit: Savage Pop via Visualhunt / CC BY-ND

Grande parte do drama humano sempre girou em torno – de uma forma ou de outra -, do problema de assumir escolhas. Muito longe, portanto, de ser uma questão própria do contemporâneo, o debate sobre o arbítrio (ou da liberdade) sempre esteve em foco, fonte de intensas discussões filosóficas e religiosas (mais recentemente, científicas), há séculos. Hoje, com os contornos próprios de nosso tempo, o problema ainda se impõe como um dos principais.

É preciso reconhecer de antemão que, seja qual for a escolha, ela sempre envolverá ganhos e perdas. Não é incomum, principalmente em situações de intensa carga emocional, que a escolha em direção à conquista de algo muito bom envolva, também, perdas muito dolorosas e sofrimento emocional.

Pesquisadores já mostraram que a maior parte do processo de escolha e tomada de decisão tem como principal motor nossa vida emocional. Não é fugindo das emoções, portanto, que se desenvolve melhor tal habilidade de se fazer decisões. Ao contrário: é fundamental que se tenha melhor convivência e sabedoria com elas, de modo a utilizá-las em favor do processo.

Escolher é seguir em direção ao desconhecido. Envolve, sempre, em maior ou menor grau, algum nível de risco. Como não sentir medo diante disto? Difícil, ou mesmo impossível. É aqui, portanto, no quesito “dificuldade em lidar com a emoção do medo”, que se instala o principal mecanismo da não mudança, da autossabotagem e da perpetuação do ciclo de problemas relacionados à dificuldade na tomada de decisão.

Casais, por exemplo, chegam ao consultório, insatisfeitos com suas vidas reais. No entanto, na medida em que dizem “Queremos terminar o relacionamento”, logo focam naquilo que estão perdendo, em memórias, patrimônio, família, desligando-se emocionalmente daquilo que teriam a ganhar caso abrissem mão do relacionamento concretamente infeliz.
Abrir mão não significa, no entanto, fracassar. Pode-se deixar algo para trás com dignidade. Como ter filhos sem levar em conta tudo o que perderemos ao tê-los? Se ainda sente dificuldades em lidar com o que vai perder, é preciso lidar anteriormente com tais coisas, antes de decidir se tornar mãe ou pai.

Em certas situações, como a crise que vemos hoje no contexto brasileiro, não está em questão a possibilidade de escolha entre algo “bom” em detrimento de algo “ruim”. O que se coloca, neste caso, é a escolha entre o que é “menos pior”. Quando abrimos mão do poder de escolher, abrimos mão de nossa própria potência. Abrindo mão da escolha, neste caso, porque o que escolhemos fere com expectativas até então idealizadas, caímos necessariamente em imobilidade, em não ação e, comumente, na impotência.

Este é o caminho reto em direção à desesperança e à depressão. Por outro lado, escolher traz consigo, de um modo ou de outro, um senso maior de autonomia e controle do próprio destino, e talvez seja este um dos remédios mais importantes a serem tomados em momentos como o que vivenciamos atualmente.

*Yuri Vilarinho é psicólogo, nanocientista e Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (UERJ) e idealizador do Núcleo de Psicologia Psicossomática, em Niterói, onde realiza atendimentos.
www.clinicapsic.com.br

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