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Entrevista da Monja Coen para o Autoajude-se

Entrevista da Monja Coen para o Autoajude-se

Nowmastê

Em seu livro “Sempre Zen” você diz que o segredo da vida é estar aberto ao momento e a todas as possibilidades. É possível estar conectado o tempo todo no Agora?

É impossível não estarmos no Agora. Entretanto nossa mente  simula um antes e um depois e acreditamos nessa ilusão. Assim, quando acreditamos na ilusão da mente ficamos deludidos. Cremos no falso. E com isso sofremos. Entretanto, ao não apercebermos, reentramos no instante presente. Chamo a isso de Presença Absoluta.

Para o filósofo francês André Comte-Sponville a felicidade é algo inalcançável, pois desejamos tanto algo e quando conseguimos paramos de desejar. Você acha que a felicidade é algo surreal? Seria algo inalcançável? 

Depende do que chamamos de felicidade. A palavra tem a mesma origem de fértil, de frutífero. No Budismo falamos em alcançar um estado de completude, de tranquilidade, de Nirvana. Esse estado independe do que alcançamos ou não alcançamos. É transcender o mundo dos apegos. Perceber que desejamos algo, que obtemos e então passamos a desejar algo mais se refere ao que em Psicologia se chama de “eu ideal” – que está sempre se reformulando. Isso é bom. Não ficamos estagnadas, estagnados. Esse processo em si pode ser de grande contentamento e felicidade. 

Como você vê a psicologia e a psiquiatria como auxilio da dor humana?

Psicologia e Psiquiatria são parte da ciência contemporânea. Que bom que existem. Que bom que nós seres humanos somos capazes de compreender um pouco melhor nossa própria mente e a assim obter libertação. Muito da Psicologia e da Psiquiatria atuais têm encontrado afinidades com ensinamentos de Buda e práticas meditativas como auxiliares de curas ou prevenções de doenças, tanto físicas como emocionais. Antigamente religiosos, oráculos, curadores, usavam da sabedoria superior para auxiliar seres humanos a lidar melhor com suas dores e curar os males do mundo. Acredito na Ciência. Acredito nas descobertas e nas parcerias entre Ciência e Religião.

Se todo o sofrimento nasce do desejo. Como não desejar numa sociedade tão consumista como a nossa, onde ser e ter quase se equivalem em termos?

Desejo é uma coisa. Apego é outra. O sofrimento surge do apego e não do desejo natural e simples em si mesmo. Posso perceber meus desejos, por qualquer coisa ou pessoa. Posso desejar ter um templo, por exemplo. Posso desejar me alimentar melhor. Posso desejar alcançar a iluminação suprema. Posso desejar consumir de forma responsável. Apego é como se passasse melado, cola na mão. Ficamos grudados, limitados, causamos sofrimento e sofremos. Livrar-se dos apegos é estar satisfeito com a realidade tal qual é. Mas isso também não implica em não termos sonhos, objetivos, planos, ambições benéficas. O ponto principal do consumo é que seja responsável. Que avaliemos a quem estamos beneficiando, ou não, com nossas escolhas.

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Buda dizia que “A vida dos seres humanos é como o processo de tecedura, termina o trabalho com delicados fios, tecidos do inicio ao fim.”É possível encontrar paz e leveza mesmo em situações de extrema dor?

Esta tessitura é sutil e está interligada a tudo e todos. Vemos hoje no Japão, com a catástrofe do terremoto, do tsunami e da possível contaminação nuclear uma situação de grande dor e tristeza. Ao mesmo tempo notamos como as pessoas se unem, se cuidam, cozinhando, limpando, carregando baldes, fazendo escalda-pés para os idosos. O trabalho de reconstrução e a ajuda que podemos fazer juntos. Trabalho de Bodisatva. Do não eu. O eu não fica em primeiro lugar. Percebemos o todo. Nossa dor e sofrimento não são únicos. Saímos do casulo imaginário de um eu separado e passamos a cuidar do todo, da vida. Ao cuidar da vida cuidamos de nós mesmas. Até no sofrimento, na extrema dor podemos encontrar paz e leveza. Apreciar a experiência única da vida humana, com todas suas nuances e sorrir ao novo amanhecer.

Eckhart Tolle em seu recente livro “Um novo mundo – despertar de uma nova consciência” explica que a humanidade está vivendo um momento único, o despertar para uma nova consciência. Você sente essa transformação?

Acredito que todos sentimos. Acredito também no DNA humano. Este DNA quer continuar vivo. Para sobreviver se fazem necessárias mudanças de consciência. A percepção do eu maior. De que somos a vida da Terra. Somos a vida da superfície da Terra. A nossa sobrevivência, como espécie, depende de nos cuidarmos mutuamente. Tanto entre seres humanos como entre seres humanos e todas as outras formas de vida, que são nossa própria vida. Esta mudança de um povo apenas, o povo da Terra, está ocorrendo. Além de fronteiras, de etnias, de culturas – necessárias e belíssimas na sua diversidade – também nos percebemos interligados e interconectados a tudo e todos. Assim cuidamos da vida com ternura e respeito. Esta a mudança de consciência mais importante: somos a vida da Terra. Não há nada por que matar ou morrer. Mas há o viver para o bem de todos os seres.

Como viver sempre Zen no mundo atual?

Estando presente no mundo. Este mundo é bom. Este mundo é lindo. Como dizia Buda “minha Terra Pura jamais será destruída”. Podemos fazer de cada instante a sacralidade da vida. Depende de cada um, de cada uma de nós. Respiração consciente. Foco, atenção. Concentração e Zen – meditação. Além do eu e do não eu. Samadhi profundo. Identificação com o todo. Ação local que beneficia. Testemunhar e agir amorosamente. Sem apegos e sem aversões. Intersendo.

O sociólogo Eduardo Giannetti diz que sem o auto-engano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Vivemos o tempo todo na tentativa de enganar a morte? Vivemos nesse auto-engano?

Não me parece que queiramos enganar a morte. A morte é necessária e bem vinda. Precisamos perceber que vida-morte é de suprema importância. Temos de compreender, penetrar neste processo incessante de viver-morrer. É claro que não caímos na inação pensando “já que todos vamos morrer não faço nada”. Pelo contrário, temos de nos lembrar que vamos morrer sim, mas também que a vida é eterna. A vida, em suas múltiplas faces, continuará a se manifestar. Outro aspecto importante é da interligação entre tudo – passado, futuro, presente. E as relações entre o que falamos, pensamos e fazemos, que altera a tessitura da vida. Assim, sentindo-nos co-responsáveis pela realidade que vivemos, como fazer destes breves instantes uma tessitura de beleza e de ternura inigualáveis?

Sabemos que a vida é dinâmica. Como lidar com essas mudanças? Ao mudar, mudamos tudo ou é a mudança que nos muda?

Mudamos e somos mudados. Transformamos e somos transformadas. Nada fixo, nada permanente. Mestre Dogen Zenji Sama (fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão, século XIII) escreve: “Algumas vezes a flor do Darma nos gira (transforma). Outras vezes nós giramos a flor do Darma. E há momentos que a flor do Darma gira a flor do Darma. “Há momentos em que a mudança muda a mudança. Mágico, belíssimo é entrar na correnteza e fluir com o fluir da vida.

O que você acha de livros de Autoajuda? O que achou do blog Autoajude-se?

Auto, ajuda. Ajudar a si mesmo, a si mesma. Se não quisermos nos ajudar, como fazê-lo? Vivemos nesta teia de inter-relacionamentos. Somos a tessitura. Precisamos tomar responsabilidade por nossas vidas e procurar ensinamentos, práticas que nos permitam nos conhecer em profundidade para podermos fazer escolhas adequadas. Seu blog Autoajude-se é muito bom e inspirador.
Espero que inúmeras pessoas possam compreender e penetrar a essência do ser e assim encontrar o Caminho Iluminado.

Parabéns e obrigada por me incluir

Mãos em prece
Monja Coen

coensensei

Essa entrevista é uma reblogagem do site da Monja Coen. Foi concedida ao Blog Autoajude-se de Felipe Brandão (Não achamos o link do Blog para colocar aqui, se você conhece, nos fale. ;-))

 

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