Emoções, corpo e relações mais saudáveis

Por Yuri Vilarinho*

Photo credit: Matt Dinkins via Visualhunt.com / CC BY-SA

Em tempos de vida virtual, redes sociais e da disseminação do uso de drogas psiquiátricas, faz-se necessária uma reflexão sobre o tema das emoções. Seja pela tecnologia ou pelos “moduladores neuroquímicos”, temos visto um efeito perigoso sobre a vida humana, onde nos afastamos cada vez mais de parte de nossa vida emocional.

Em um passado relativamente recente, era comum que a expressão das emoções fosse restrita às mulheres e os homens fossem reprimidos neste aspecto (“boys don’t cry”). Hoje, nosso caldo cultural mudou. Com o desenvolvimento das redes sociais, temos uma nova roupagem sendo manifestada. Não seria exagero afirmar: a expressão do espectro emocional foi restrita apenas as chamadas “emoções boas”. “Estou feliz”, “bem”, fotos e publicações de “alegria”, “viagens perfeitas”. Emoções “boas”. Isto é para todos, entrando neste rol adolescentes, adultos e crianças (!). Todos se enquadram na monotonia emocional vivida através dos smartphones.

Emoções são o que são, não há boas ou más. É possível dizer que nosso repertório emocional foi sendo moldado, junto à evolução biológica, de forma a nos proporcionar uma regulação individual e uma contextual, de grupo. Somos o que somos enquanto espécie porque nos regulamos, durante milhares de anos, através das emoções no bando. Assim, pode se pensar que, se algo ia mal nesta esfera emocional, o bando poderia ser colocado também em risco, uma vez que o aspecto relacional poderia se tornar conflituoso.

Pesquisadores da Universidade de Berkeley, California, e da Universidade de Toronto mostraram, em estudo recente, que pessoas que costumam suprimir suas emoções com base em pré-julgamentos, considerando, por exemplo, tristeza, raiva ou ressentimento como algo ruim, passaram a ter maior nível de estresse após vários meses de acompanhamento. Desenvolveram maior esgotamento. Ou seja, foi mostrado que é benéfica a aceitação de uma emoção, seja qual for ela. Pessoas com melhor convivência com sua parte “obscura” possuem melhor qualidade de vida.

Como uma pessoa acostumada a suprimir a raiva (considerada tabu ainda em muitas culturas) poderia dizer “Pare” a uma certa ação invasiva? Ou como poderia resgatar uma relação rompida ou defender um determinado ponto de vista sem um certo tom de assertividade?

O que seria de nós, enquanto indivíduos e espécie, se não fosse o medo? Estaríamos em risco, morreríamos rápido, nos acidentaríamos. Certa vez, li um conto onde um rei pedia a uma fada que eliminasse a emoção do medo de seu reino. Algum tempo depois, passeando por suas terras, se apavorou com o que viu: pessoas decepadas, doentes, maltratadas. Todas haviam se livrado do medo e, portanto, perderam sua capacidade auto protetiva.

Como faríamos para abrir mão de alguém, de uma relação, de um projeto, ou qualquer outra coisa, se não houvesse uma emoção maravilhosa e destinada a nos ajudar neste processo? Não conseguimos abrir mão das coisas se não conseguimos ficar tristes, e se não nos permitimos vivenciar esta emoção, é comum que fiquemos presos no luto.

Emoções são vividas no corpo e é nele que devemos estar para transformá-las em ação (emoção, do latim, ex movere, mover para fora). Emoções são expressões, movimentos corporais vivenciados, em geral, nas relações, de forma que bloqueios nesta esfera trarão, necessariamente, dificuldades no contato e na conexão com os outros.

Em tempos onde se tem uma pílula para cada problema ou sensação desagradável, é preciso repensar, com urgência, sobre o que devemos fazer para lidar melhor com nossa vida emocional. Não fazer isto trará – e já está trazendo – sérias consequências para todos nós, enquanto indivíduos e enquanto membros de um bando que precisa reaprender a viver em comunidade.

*Yuri Vilarinho é psicólogo, nanocientista e Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (UERJ) e idealizador do Núcleo de Psicologia Psicossomática, em Niterói, onde realiza atendimentos.
www.clinicapsic.com.br

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