É possível ser livre?

Por Lilly Hastings*

Você tem consciência das forças que determinam suas decisões fundamentais de vida? O que controla você?

Uma das armadilhas de nossos condicionamentos é fazer-nos acreditar que somos livres. Acreditamos na ilusão de que temos liberdade porque podemos nos deslocar de um lado para o outro, escolher nosso trabalho ou o estilo de roupas que usamos.

Num determinado nível, isso é verdadeiro. Porém, tudo isso é feito através de um ponto de vista estreito e não significa que somos livres de verdade. A real liberdade é muito mais do que apenas “fazer-o-que-você-quiser-da-forma-como-bem-lhe-entender”.

Para alcançá-la e vivê-la, precisamos resgatá-la. Como? Com um método que, ao mesmo tempo, ajude-nos à des–cobrir, respeitar e valorizar nossa natureza essencial e também d e s c o n s t r u i r nossos condicionamentos.

Que método é esse? Como podemos descobrir o que em nós corresponde á nossa essência e merece escuta e preservação? E o que em nós corresponde aos condicionamentos limitantes que nos reduzem enquanto seres humanos em nosso mais alto grau de existência e presença? Como separar o joio do trigo?

Como achar um método de transformação, alquimia e desenvolvimento que irá de fato conduzir-nos para o melhor em nós e eliminar a ilusão que nos cega? E como posso perceber se minha prática, que não é ginástica nem relaxamento, mas um autêntico e poderoso método iniciático – com o objetivo de conduzir-me além da minha ilusória e limitada personalidade – está realmente levando-me para meu ser essencial e livre dos condicionamentos adquiridos?

Não vou revelar nada novo, mas espero que possa colocar de uma forma mais clara o que já foi dito tantas vezes, pois foi o que precisei fazer para eu mesma poder compreender direito esses significados.

Ponto 1: para tomar consciência das forças que governam e limitan sua vida você precisa conhecer seus condicionamentos. Para conhecer seus condicionamentos, ative o observador interno: aquela parte de você que simplesmente fotografa cada manifestação sua. Não faça julgamentos e nem análises. Conheça seus próprios padrões mecânicos e reconheça a tenacidade com que certas preocupações recorrem á sua mente.

Para conseguir fazer o OBSERVADOR INTERNO trabalhar atento e alerta, é necessário que você d-e-s-a-c-e-l-e-r-e os pensamentos, velozes e voláteis, para que VOCÊ, ENQUANTO OBSERVADOR possa acompanhá-los desde a sua formação até a conclusão de cada um deles.

Para isso, sua prática de Yoga é uma ferramenta poderosa, pois pode ser usada desde os primeiros passos nessa jornada de auto-investigação até o objetivo último e mais nobre de um Ser Humano: a libertação.

Realizar esta observação é um trabalho e tanto. Mais completo ainda é observar também as emoções e os sentimentos, desde suas raízes até seu desaparecimento ou transmutação em outros sentimentos e emoções. Com esta observação, você irá perceber onde está sendo cegamente coagido pela sua limitada personalidade (composição de medos, desejos e aversões) e trabalhar para a sua libertação.

É preciso primeiro reconhecer aquilo que é mecânico, artificial e tendencioso e depois trabalhar para compreender e transcender estas características. A sua prática (ou o método escolhido por você para sua evolução) deve levá-lo a conhecer a sua natureza mais profunda e proporcionar momentos maravilhosos, porém, para que esse maravilhamento seja cada vez mais amplo, você deve ficar também mais consciente dos seus padrões mecânicos reativos e escuros. Afinal, como podemos ser curados de uma personalidade estreita e artificial e nos tornar-nos nossa natureza essencial se não conhecemos e admitimos nosso mal?

Reflita sobre essas questões por algum tempo. Observe-se. Comece a investigar seu traço ou fraqueza principal, em torno da qual giram os aspectos ilusórios da personalidade.

Algumas características você já sabe que tem. Ninguém é completamente ignorante sobre seu jeitão de ser… Alguns comentários sobre sua forma de se comportar e agir, vindos de pessoas diferentes, repetidas vezes, devem fazer você prestar atenção… Certas características os outros vêem melhor que nós mesmos.

Qual é sua preocupação mais recorrente? O que normalmente passa em sua cabeça quando se prepara para ir a uma festa? E quando chega numa reunião profissional? Além do desejo mais superficial de se divertir ou ter sucesso em seus objetivos profissionais, o que é que você precisa, de fato, sempre dar conta?

O que move sua postura, seu tom de voz, sua forma de se apresentar, seus gestos etc…? Qual é a impressão que você quer passar?

E a que você, de fato, passa, você conhece?
Como os outros definiriam você?
Você se reconhece em pelo menos algumas destas definições?

Reconhecer a fraqueza principal fica mais fácil quando sabemos que todos temos fraquezas, que faz parte da condição de ser humano e que, na verdade, ninguém é as suas fraquezas. Elas nos fazem agir de um jeito específico certas vezes (quando estamos distante de nossa essência), mas não somos não as emoções e nem os pensamentos destas fraquezas.

Imagine que você está bem de saúde, alegre, cheio de energia e disposição e sai com seu carro, que está lá meio velhinho e quebrando. De repente, ele engasga e para. Você pode ver a situação de fora, fazer o necessário para consertá-lo e pronto. Você não é o seu carro. Não vai se igualar a ele.

Da mesma forma, é a sua personalidade que vez ou outra enguiça, fica estreita e pequena… E não você. E se você se lembrar disso na próxima ves que ela falhar? Acho que poderá mais facilmente rir das suas bobagens e limitações. E mesmo que fale ‘ainda não consegui superar essa loucura!’, só por admiti-las já estará agindo de uma forma mais coerente com quem deseja evoluir. Admitir com bom humor, consciente de que você tem certas tendências e investigar a razão oculta por trás de suas manias pode ser bem interessante.

Mas atenção: nem sempre conseguimos ter esse bom humor todo quando nossa fraqueza é apontada pelos outros. ! Por isso experimente você mesmo captar essas tendências e, no seu silêncio e quietude, observar os ajustes sutis que sua mente faz para atender suas neuroses e achar exatamente os alimentos que nutrem a mesma visão estreita, já que são sempre os mesmos plugs nas mesmas tomadas, tudo é tão mecânico… Rs.

Assim, você pode começar a se desmecanizar, da mesma forma que faz quando percebe seu quadril se desalinhar ao elevar uma das pernas para entrar em Utthita Hasta Padangusthásana (postura em pé com uma das mãos segurando uma perna elevada e mantendo os joelhos estendidos) e, com consciência, desce a virilha externa, cria espaço na cintura, abre o peito e dá ação nas pernas para fazer uma postura bem alinhada e conectada com princípios superiores.

Prática de Yoga, conseqüente desaceleração dos pensamentos, mais qualidade na respiração e uma apurada capacidade de se observar fará você sacar muitas coisas sobre você mesmo e seu jeito de ser.

Com esses dados, cave elementos ou situações de vida que estão passando longe de suas percepções…Desfoque um pouco o olhar e abra a lente, veja quantas coisas existem na vida, nutra-se de novas impressões e situações… Que tal considerar outras soluções? Experimente a aventura dessa blind date com um outro lado de você mesmo e veja o que vai acontecer!

“Nossa tarefa é tornar-nos o que somos”
– Rabindranath Tagore –

Lilly Hastings – Inspirando Transformações

*Lilly é uma criadora de mapas e experiências para despertar a consciência e inspirar transformações. Seu trabalho é uma fusão criativa de suas formações em Psicologia, Iyengar Yoga, Coaching e mergulhos em diversas linhas de estudo espiritual. É facilitadora de variadas experiências, entre elas os Retiros SELF e atendimentos particulares em ‘Alinhamento de Vida’ em São Paulo.


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