E esse tal de McMindfulness?

Você medita ou pratica o Mindfulness para quê? Se entrou nesse caminho pela espiritualidade e autoconhecimento, talvez não tenha percebido que a prática, ou melhor, como a prática vem sendo apresentada e utilizada, traz alguns aspectos polêmicos. E, mesmo que você seja da opinião de que o mundo – polarizado do jeito que está – vai ter sempre crítico para tudo, não custa nada entender direitinho “qual” é o Mindfulness ou a meditação que você quer praticar e espalhar por aí.

Foi publicado recentemente o livro McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality (McMindfulness – Como o Mindfulness se Tornou a Nova Espiritualidade dos Capitalista) do professor americano Ron Purser. Ron tem um currículo gigante e, entre outras coisas é professor budista ordenado, colaborador do jornal HuffPost e apresentador de um podcast chamado The Mindful Cranks. Em 2013, Ron escreveu o artigo Beyond the McMindfulness dando notoriedade a expressão, que é um crítica à maneira massificada e sem significado moral com que o movimento do Mindfulness tem difundido a prática. O livro publicado em julho passado vai mais a fundo no assunto, fazendo também uma crítica política e social que merece atenção:

“O estresse é a crença atual de que as tensões da vida contemporânea são principalmente problemas de estilo de vida individuais que devem ser resolvidos através do gerenciamento do estresse, em oposição à crença de que essas tensões estão ligadas à forças sociais e precisam ser resolvidas principalmente através de meios sociais e políticos.

Ao ingerir sem crítica as premissas culturais do estresse, o movimento do “mindfulness” tem se promovido como um remédio científico. Mas o foco permanece no indivíduo que espera que a chamada “doença do pensamento” da civilização moderna se cure. Nos dizem que praticando “mindfulness”, podemos habilmente transformar nosso “modo de fazer” frenético em um “modo de ser” mais harmonioso, aprendendo a desligar e apenas deixar fluir em situações estressantes.

O “mindfulness” é a nova imunização, uma vacina mental que supostamente pode nos ajudar a prosperar em meio ao estresse da vida moderna. Cabe a nós nos tornarmos o que Tim Newton chamou de “indivíduos resistentes ao estresse”. O “mindfulness” é constantemente comercializado como uma forma de aumentar nossa produtividade, uma técnica útil para desenvolver a aptidão mental necessária para nos tornarmos trabalhadores mais produtivos e eficazes. Não é coincidência que o lema do aplicativo de meditação mais bem-sucedido, Headspace, seja “a academia para a mente”.

A máxima desse movimento é “viver o presente”. Para os devotos, a mudança social e política depende da fantasia de convencer as massas distraídas de seguir este conselho e levar uma vida “consciente”. O fetiche do presente promovido pelo “mindfulness” é uma prática que cultiva a amnésia social, promovendo o esquecimento coletivo da memória histórica e, ao mesmo tempo, efetivamente excluindo a imaginação utópica.” (Trecho do livro extraido do site Open Democracy)

Agora, antes que você fique chateado, achando que ao meditar e procurar uma vida mais presente e consciente você está simplesmente caindo em mais uma armadilha do capitalismo, o livro também oferece saídas:

“Mas nada disso significa que o “mindfulness” deve ser banido, ou que aqueles que a consideram útil estão iludidos. Existem formas emergentes de “mindfulness” social e cívica que evitam essa armadilha. Esses métodos estão se libertando de um enfoque biomédico da patologia individual, integrando o ativismo de justiça social com a ideia contemplativa, cultivando o pensamento crítico em vez do desengajamento sem julgamento.

Inovadores no campo estão reescrevendo currículos sobre “mindfulness” empregando pedagogias críticas não opressivas. Por exemplo, Beth Berila desenvolveu métodos de praticar “mindfulness” que ajudam os profissionais a descobrir como internalizaram a opressão, bem como formas de desmantelar e desaprender o privilégio. Mushim Patricia Ikeda, junto com os professores do East Bay Meditation Center, desenvolveu vários programas que conectam as preocupações sobre a justiça social com os ensinamentos budistas sobre a interdependência para promover a solidariedade e o ativismo engajado. E a Mindfulness and Social Change Center no Reino Unido está experimentando práticas de “mindfulness” que abordam questões sociais, políticas e ambientais.

Quando reconhecemos que a insatisfação, a ansiedade e o estresse não são apenas culpa nossa, mas estão ligados a causas estruturais, o “mindfulness” se torna combustível para inflamar a resistência.” (Trecho do livro extraido do site Open Democracy)

Pedi a opinião sobre essa polêmica aos praticantes Budistas Miguel Berredo coordenador do Projeto Meditação para Todos (Museu Imperial – Petrópolis) e ao psiquiatra J. Ovidio Waldemar:

“Mindfulness foi cooptado pela sociedade do mercado, das promessas de sucesso rápido, da salvação, dos milagres. Como tem um objetivo, o resultado será limitado a própria motivação, se há busca, há expectativa por um resultado. Como a prática ou qualquer técnica que é ensinada depende de quem a pratica, ninguém vai poder reclamar por propaganda enganosa. Onde houver busca haverá um certo sofrimento, uma angústia, por não reconhecermos quem somos, nossa natureza livre, não construída. O negócio é não ficarmos confortáveis, é irmos além das visões limitadas sobre nós mesmos. Fabricamos nossas carências, que geram o sucesso de mindfulness. Mas se alguém começar por mindfulness e sair da busca por algo e se aprofundar no caminho da meditação, terá valido a pena. Por trás de tudo tem uma intenção, que cada um examine suas intenções. Estou fazendo isso por desejos do ego, orgulho, para ser reconhecido, para obter alguma vantagem ou porque quero ser mais livre de mim mesmo, das minhas projeções, para ser uma pessoa mais amorosa de coração aberto, e sair dos meus hábitos de ficar julgando tudo o temo todo?” Miguel Berredo, Budismo Petrópolis.

Click aqui para ler o texto do J. Ovidio Waldemar.

 

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