Disciplina e superação não rimam com sofrimento

Por Lilly Hastings*

Não sei se acontece com você. Comigo já aconteceu algumas vezes. Cena: sala de aula de Yoga nível III, cheia de yogis e yoginis se preparando para começar a prática. A aula começa difícil, puxada, ações internas, informações e mais informações, alinhamento que pega exatamente aquela sua grande resistência… Num determinado momento, percebo-me pensando como se tivesse começado a fazer Yoga naquele dia: “Ai ai. O que faz tanta gente em sã consciência escolher vir para uma sala cheia de cordas e outros materiais passar uma hora e meia em posturas tão difíceis e exigentes..?”

“O que faz tanta gente passar o pouco do tempo disponível que têm em situações que exigem tanto esforço e empenho e superação ao invés de simplesmente se largarem numa cama gostosa vendo um filminho com uma boa guloseima na mão?”

Continuo na aula. Em certos momentos mergulho totalmente na prática, pois o momento exige presença e atenção e o corpo está ali sentindo em todos os poros os ajustes e alinhamentos. A respiração precisa ser consciente e bem feita. Não dá para divagar. Mas num intervalo entre um ásana e outro, penso: Não há como se superar se não enfrentarmos as resistências”.

Por essas resistências entenda-se a própria força da gravidade e todo o resto poderia ser entendido como ramificações dela.

Praticar ásanas é entrar em contato mais direto com essa força e desenvolver-se significa enfrentá-la e fazer uma limonada do limão: se não podemos evitá-la, então vamos entender como podemos viver bem apesar dela ou, melhor ainda, usá-la para nosso crescimento. Vamos desenvolver músculos fortes para que ela não nos pese em demasia; vamos descobrir uma força ascendente oposta à gravidade e deixá-la habitar nosso organismo e levar nosso corpo e nossa vida para cima!

Penso se nosso sucesso é diretamente proporcional á nossa capacidade de suportar situações não prazerosas (porque definitivamente manter uma postura forte de Yoga, por exemplo não exatamente é uma situação prazerosa, embora eu sempre tenha sido uma grande admiradora e entusiasta de práticas intensas…). Se não fosse essa capacidade, eu não teria feito muitas das posturas de Yoga que aprendi ao longo da vida e não teria ganho a energia, a presença no corpo e a aura de felicidade ao término da prática que tantas vezes acessei… Nessas horas sinto-me quase um trator, capaz de enfrentar qualquer coisa, simplesmente porque não recuei do sofrimento passageiro que me atravessava quando ia em direção de um crescimento.

Quando não tememos o sofrimento ou o desprazer, sabendo que são partes do processo na direção daquilo que desejamos, tudo fica menor e a própria sensação desagradável tem bem menos impacto negativo, a ponto de fazer com que, claro, no dia seguinte, a gente esteja lá de novo, prontos para mais e mais posturas ou outros desafios… E, felizes da vida!

Essa pergunta foi influenciada por aquela famosa frase que diz que nenhuma porta se abre sozinha a não ser a porta dos abismos. A Terra não é um planeta onde tudo flui as mil maravilhas… Segundo G. I. Gurdjieff, antigo mestre da Europa oriental que difundiu seu trabalho a partir de 1913, neste planeta enfrentamos 48 conjuntos de leis (no nível do Sol são apenas 12, quatro vezes menos que aqui na Terra), o que explica a grande densidade energética do local e faz com que seja exigido de nós grande empenho e atenção se quisermos realmente evoluir na direção de nossa natureza solar que fica “para cima e ao mesmo tempo para dentro de nós”.

Não penso que nosso sucesso seja diretamente ligado com a nossa capacidade de suportar situações não prazerosas. O sucesso está ligado a nossa persistência, disciplina, competência, momentos auspiciosos, visão e/ou criação de oportunidades, entre muitos outros detalhes. Se fosse algo simples de ser alcançado, teríamos uma fórmula bem concisa (vide os manuais de dicas para o sucesso em diversas áreas) e muitos de nós seriam bem sucedidos em vários setores de suas vidas, o que não se confirma na prática. O que percebo de mais significativo quanto ao sucesso é que o temos em diferentes momentos, porém não percebemos.

Por exemplo, posso ter “pequenos sucessos” durante o meu dia e não perceber ou dar o devido valor, pois estou sempre desejando um sucesso maior. Por enquanto, procuro observar mais e experimentar mais meus “sucessinhos” e talvez assim um dia possa experienciar um grande sucesso, que será um simbólico acúmulo de diversos pequenos sucessos.

“Acho que o sucesso não está diretamente ligado com estas situações não prazerosas, mas quanto mais consciência, atenção e calma, pode-se minimizar os efeitos destas situações.”

O conceito de ‘sucesso’ não necessariamente evoca a mesma sensação em cada pessoa. Dependendo do que ele significa para você, ele pode ou não ser um bem desejável, tudo depende do ponto de vista. Para mim o resultado desta capacidade pode ser sentido na sensação de felicidade, na equanimidade do dia a dia. Quando conseguimos passar por uma situação chata ou dolorida sem perdermos a cabeça ou nos sentirmos infelizes ou incapazes e temos domínio sobre nós mesmos, teremos mais chances de viver em paz e com o coração tranquilo, pois os altos e baixos fazem parte da vida.

Quando a gente sabe o que quer e tem determinação para 
concluir, conseguimos enfrentar qualquer desafio,
 empecilho ou transtorno. E quando amamos o que fazemos, a
 dor da realização acaba sendo bem mais fácil de aguentar. Somos como o carvalho que, para sobreviver aos ventos, cria raízes bem profundas. As situações não prazeirosas nos fazem mais fortes, mais humildes e, principalmente, nos ajudam a aprofundar nossas raízes.

Agradeço sempre, mesmo quando tudo parece estragado, ruim, insuportável, pois sei que isso é o que me faz ir em frente e descobrir que sou muito mais forte do que imagino.

Enfim, o que posso dizer é que disciplina, dedicação, persistência etc. são qualidades ligadas ao que Freud chamou de ‘princípio da realidade’, diretamente oposto ao princípio do prazer. Suportar situações não prazeirosas de forma inteligente é o que penso ser interessante, já que um certo desprazer na vida é inevitável. Então, ‘sofra’ para crescer, para ficar mais saudável, para atingir as suas metas e para ir em direção daquilo que em alguns momentos irá sim lhe proporcionar as sensações mais maravilhosos que um ser humano pode viver.

Não desperdice sua vida sofrendo em vão…! Se tiver que sofrer, sofra por aquilo que você profundamente almeja… E o seu suor terá uma qualidade bem diferente do que aquele que só reclama por suar…

Lilly Hastings – Inspirando Transformações
*Lilly é uma criadora de mapas e experiências para despertar a consciência e inspirar transformações. Seu trabalho é uma fusão criativa de suas formações em Psicologia, Iyengar Yoga, Coaching e mergulhos em diversas linhas de estudo espiritual. É facilitadora de variadas experiências, entre elas os Retiros SELF e atendimentos particulares em ‘Alinhamento de Vida’ em São Paulo.
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Um Comentário

  1. Gratidão pelo texto Lilly. Hoje foi um dia que madruguei para correr 7 Km. Seu texto fez todo o sentido para o meu dia!

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