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Dia dos Mortos – Por Monja Coen

Dia dos Mortos – Por Monja Coen

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Nos cemitérios as lápides limpas, carpidas as ruas e túmulos em flores. As ruas engarrafadas, as lágrimas derramadas, os bolsos se enchendo de moedinhas por olhar o carro, por trazer água, por carregar as flores da tia. A sensação de missão cumprida daqueles que crêem que os mortos precisam de um dia.

Dia de se lembrar e de homenagear… E os mortos terríveis, de coisas falíveis, responsáveis por crimes contra a humanidade? E os mortos malvados que depredaram cidades, países, jovens, meninos e meninas, cadelas e vacas, éguas e cabras?

Homenagear e lembrar de todos os mortos, que assim se mantenham em paz.

Os que morreram dormindo, os que morreram sonhando, os que morreram quietos, os que morreram gritando, os que morreram crianças, os que de velhice se foram, os dos acidentes de carros, de ônibus, atropelamentos, trens, aviões, navios, submarinos, plataformas, foguetes e todos os acidentes de trabalho e do lar. Os que morreram nas guerras, batalhas, violências das casas, das vilas, dos povos. Os que morreram das pestes, doenças. Os que morreram de repente, os que foram torturados lentamente. Os que morreram exilados, os que exilaram e morreram nos cárceres e masmorras dos regimes totalitários. Os que morreram por matar, estuprar. Os que morreram assassinados, estuprados, maltratados. São todos os mortos, indiscriminadamente aqui homenageados. Bons e maus, boas e más. Que todos descansem em paz.

Há filmes medonhos de levantes de falecidos, de carnes despidos, pingando horror, monstros de terror.

Deixemos os mortos quietos, tranqüilos, que estejam nos mundos já sem desejos e sem apegos. O que fizeram enquanto vivos teve a ver com seu nascimento, educação, saúde, inclusão ou exclusão, violência ou violentação. Teve a ver com carma herdado e carma criado.

Há carma coletivo e carma individual. Não é destino pré determinado, que prende para sempre. Carma quer dizer ação. Não é mal apenas. Pode ser carma muito bom. Por exemplo, o carma de encontrarmos circunstâncias favoráveis e podermos compartilhar alegrias. Outro dia nos reunimos no Pacaembu. Éramos representantes de várias denominações religiosas: Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Assembléia de Deus, Lama Tibetano, Mães de Santo, Pastor Presbiteriano, Xeiques e Rabino, Católicos, Igreja Anglicana, Espíritas, Budistas, PL, Messiânica, Iniciativa das Religiões Unidas e outros mais. Algum carma muito bom nos uniu e permitiu compartilhar o comprometimento de participar voluntariamente e com voluntários do Projeto Fome Zero. Zerando nossas divergências, vamos trabalhar juntos criando uma nova consciência.

A fome nos deu esta oportunidade de criar carma positivo, carma bom. A carência nos deu esta chance de transformar o carma da indiferença no de cuidado. A exclusão, a dor, a injustiça nos fizeram unir não apenas as mãos em oração, mas os corações e as mentes na procura de ações efetivas de transformação.

Um carma positivo pode gerar outros e expandir-se… Carma individual e coletivo. Carma não é apenas destino mau.

E, se por acaso, tivemos herdado de ancestrais, de vidas passadas, de nossos próprios atos e omissões carmas pesados, tristes, sofridos, podemos transformar essa energia também. Não apenas se entregar. Não diga, por favor, “este é meu carma, nada posso fazer”. Pode sim. Você pode, você consegue e você merece.

Somos a vida do universo em constante transformação. Graças a todos os mortos, dos quais hoje nos lembramos, hoje aqui e agora vivemos. Espécie humana não é melhor do que as outras. É diferente. Tem um potencial único de poder destruir ou construir todo o planeta. Será, minha gente, que não chegou a hora de se entregar à nossa missão verdadeira e criar aqui na Terra a harmonia do amor, da sabedoria, da compaixão?

Louvando a vida com nossas vidas, vamos procurar ajudar sem atrapalhar, sem forçar. Encontre grupos, parceiros, funde organizações e se mexa. Há gente precisando de você. Há plantas, peixes, animais precisando de você. Há terras e minerais, águas e cristais todos precisando de você. Por favor, abra seu coração, transcenda toda discriminação e dúvida. Crie carma positivo para você, sua família, seus amados amigos, seus vizinhos, conhecidos e desconhecidos. Espalhe a bondade, sem melar, sem amolar, sem exagerar. O que fazer, quanto fazer, para quem, onde e quando.

Que os seres iluminados e benfazejos nos abençoem a todos nesta caminhada, que não é só nossa, mas de toda a humanidade, em direção à felicidade.

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*Monja Coen Souza é monja zen budista e uma das grandes pensadoras da atualidade e atualmente reside no templo Tenzui Zenji, em São Paulo, onde é presidenta do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista, Zendo Brasil e do ViaZen/VilaZen do Rio Grande do Sul.

Leia aqui uma breve biografia de Monja Coen 

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