Lendo agora
Dia do trabalho – por Monja Coen

Dia do trabalho – por Monja Coen

Avatar

dia-do-trabalho
Photo credit: FUMIGRAPHIK-Photographist via Visual hunt / CC BY-NC-ND

No Dia do Trabalho eu me retiro.
Retirar é meu trabalho.
Meditar e silenciar para poder ouvir.
Não ouvir apenas os gritos das manifestações.
Ouvir os sons e os silêncios do mundo.
Ouvir para entender.
A base do diálogo, não da discussão.

Há um ser iluminado no budismo que vê os lamentos do mundo. Não ouve, vê.
Podemos ver os lamentos e atender às verdadeiras necessidades?
Sabemos quais as nossas verdadeiras necessidades?
Será que devemos confiar em nossas percepções?
Até mesmo as percepções podem nos enganar.
A mente alerta, a mente desperta, vê em profundidade, analisa, questiona a si mesma.

“Estudar o Caminho de Buda é estudar o Eu. Estudar o Eu é transcender o eu. Transcender o eu é ser iluminada por tudo que existe. Nenhum traço de iluminação permanece” (Mestre Dogen, século XIII Japão)

Estudar o Eu no qual todos e todas estão incluídos.
Estudar, apreender, conhecer, reconhecer a realidade com sua múltiplas faces. Todas a minha face.

Ver os lamentos do mundo, sem se lamentar.
Manifestar-se sem ferir e sem ser ferida.
Agir no mundo e não apenas reagir, sem pensar.
Adequação. Discernimento correto.
Compreender o que somos, quem somos – tanto como pessoas como quanto sociedades.
Intersomos. Uma nova palavra para uma nova era.

Transcender o mundo, sendo o mundo.
Somos a vida da Terra. Não viemos de fora e não iremos para fora.
Estamos interligados, interconectadas a tudo e a todos. Cada partícula contem o todo. Não somos parte do todo. Cada um, cada uma de nós é o todo manifesto.

Apreciemos.

Uma rede infinita de raios luminosos se intercruzam, se interpenetram, numa trama ensurdecedora mente brilhante. Em cada intersecção há uma joia refletindo todas as direções – esta é uma descrição de textos clássicos budistas sobre o que hoje chamamos de multi ou pluriverso. Já não é mais Universo. Isso somos nós.

Acordar, despertar para a transitoriedade, a impermanência e a interdependência é o Caminho Iluminado.

No Dia do Trabalho, eu me retiro.
Para ouvir as vozes internas, que também são externas.
Procuro entender as manifestações do ser e do não ser.

No silêncio da mente há paz, tranquilidade.
Não a paz dos tolos, que se calam por não saber. Procuro a paz dos sábios e das sábias.
Que atuam com dignidade e respeito à vida construindo a ética desta era informatizada.

Cadeirante por algumas semanas, percebo o mundo sob outro prisma.
As pessoas tem cinturas e pernas. Crianças tem faces.
No aeroporto a empresa de aviação me empresta uma cadeira de rodas e a jovem me coloca num corredor de espera. Lá estamos nós, cadeirantes, deficientes, idosos e idosas. Aguardamos, sem nossos cartões de embarque, para que alguém nos leve ao avião. É um sistema interessante. No primeiro voo, quase o perdi. A jovem foi levar outra cadeirante e não voltou. Levou com ela meu cartão de embarque. Chamaram meu voo. Fui a última a entrar, porque tive a capacidade de mover as rodas da cadeira e ir ao balcão avisar que precisava embarcar. Poderia ter ficado esquecida ali, naquele corredor. Presa ao meu pé quebrado e a uma estrutura que desconhece como melhor atender a pessoa com deficiência.

Estamos todos aprendendo.
Aprendendo a nos reconhecer semelhantes, mas não iguais.
E quando entendermos que o absoluto e o relativo funcionam como uma caixa e a sua tampa, poderemos, talvez, terminar com as guerras e as feras. Terminar com a fome e a miséria. Terminar com os abusos contra a Mãe Terra.

Sem quotas, sem manifestações, sem gritos e sem empurrões – respeitando a vida em sua pluralidade – celebremos cada instante de trabalho neste ofício sagrado em que estamos todos e todas metidos.
Esse dia há de chegar. Trabalhemos, pois.

Dia do Trabalho e eu me retiro ao silêncio e à meditação – oferecendo os méritos a todos os seres.

Mãos em prece

monjacoen

*Monja Coen Souza é monja zen budista e uma das grandes pensadoras da atualidade e atualmente reside no templo Tenzui Zenji, em São Paulo, onde é presidenta do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista, Zendo Brasil e do ViaZen/VilaZen do Rio Grande do Sul.

Leia aqui uma breve biografia de Monja Coen

Vá para cima