Desconstuindo o Ego por Matthieu Ricard (Série Por que eu não consigo ser feliz?)

Por Matthieu Ricard via Tibet House Brasil* (Parte 4)

O ego enganador

Em nossas vidas diárias, vivenciamos o ego por meio de sua vulnerabilidade. Um simples sorriso lhe dá um prazer instantâneo; já uma carranca tem o efeito oposto. O “eu” está sempre “aqui”, pronto para ser machucado ou satisfeito. Em vez de vê-lo como algo indefinido ou múltiplo, nós o tornamos um bastião unitário, central e permanente. Mas vamos considerar o que imaginamos que contribui para a nossa identidade. O nosso corpo? Um conjunto de carne e ossos. A nossa consciência? Um contínua corrente de instantes. A nossa história? A memória do que já passou. O nosso nome? Agregamos todo tipo de conceitos a ele – a nossa herança, a nossa reputação, o nosso status social – mas, em última instância, ele não é nada mais do que um agrupamento de letras. Quando vemos a palavra João, o nosso espírito dá um salto; pensamos: “esse sou eu!”. Mas só temos que separar as letras, J-O-Ã-O, para que percamos todo o interesse. A ideia do “nosso” nome é apenas uma fabricação mental.

É esse profundo senso do “eu” situado no coração do nosso ser que temos que examinar honestamente. Quando exploramos o corpo, a fala e a mente, chegamos a conclusão de que o “eu” não é nada mais do que uma palavra, um rótulo, uma convenção, uma designação. O problema é que esse rótulo se acha o que há de melhor. Para desmascarar a enganação do ego, temos que seguir com a nossa investigação até o fim. Quando suspeitamos que há um ladrão em nossa casa, inspecionamos todos os quartos, todos os cantos, todos os potenciais esconderijos, só para termos certeza de que realmente não há ninguém ali. Somente assim podemos ficar tranquilos. Precisamos de uma investigação introspectiva para descobrirmos o que está se escondendo por trás da ilusão do “eu” que achamos que define o nosso ser.

Uma análise rigorosa nos levará a concluir que o “eu” não está em parte alguma do corpo, nem em alguma entidade difusa que permeie o corpo todo. Nós acreditamos voluntariamente que o “eu” está associado à nossa consciência, mas a consciência é uma corrente elusiva: em termos de experiência vivida, o momento da consciência que passou está morto (apenas seu impacto persiste), o futuro ainda não chegou, e o presente é passageiro. Como poderia existir um “eu” distinguível, suspenso no céu como uma flor, entre uma coisa que não existe mais e outra que ainda nem existe? Não é possível detectá-lo nem no corpo nem na mente; não é nem uma entidade distinta combinada com outra, e nem é algo externo a isso. Nenhuma análise séria ou experiência introspectiva direta pode nos dar uma convicção forte de que possuímos um “eu”. É possível que alguém acredite que é alto, jovem e inteligente; mas nem altura, juventude ou inteligência são o “eu”. O que se conclui então é que o “eu” é apenas um nome que damos a um contínuo, assim como nomeamos o rio Ganges ou o Mississippi. Tal contínuo certamente existe, mas apenas enquanto uma convenção que tem base na interdependência entre a consciência, o corpo e o ambiente. É algo totalmente sem uma existência autônoma.

A Desconstrução do “Eu”

Para termos uma melhor compreensão sobre isso, vamos retomar a nossa análise em mais detalhes. O conceito de uma identidade pessoal tem três aspectos: o “eu”, a “pessoa” e a noção de “si mesmo”. Esses três aspectos não são fundamentalmente diferentes um do outro, mas eles refletem formas diferentes de nos apegarmos a nossa percepção de identidade pessoal.

O “eu” vive no presente; é o “eu” que pensa “eu estou com fome” ou “eu existo”. Trata-se do espaço onde está a consciência, os pensamentos, os julgamentos e a vontade. É a experiência do nosso estado atual.

Como de forma clara resumiu o neuropsiquiatria David Galin, a noção do que é uma “pessoa” já é mais ampla. Trata-se de um contínuo dinâmico que se estende pelo tempo e incorpora vários aspectos da nossa existência corporal, mental e social. Os seus limites são mais fluidos. A pessoa pode se referir ao corpo (a condição física), a pensamentos íntimos (“um sentimento muito pessoal”), ao caráter (“uma boa pessoa”), a relações sociais (“separar a vida pessoal da vida profissional”), ou ao ser humano em geral (“respeito pela pessoa de alguém”). A sua continuidade ao longo do tempo nos permite conectar as representações de nós mesmos do passado com as projeções para o futuro. Ela denota como cada um de nós se diferencia um do outro e reflete as nossas qualidades únicas. A noção da pessoa é válida e saudável desde que a consideremos simplesmente como a conotação da relação em geral entre a consciência, o corpo e o ambiente. Ela se torna inapropriada e prejudicial quando passamos a considerá-la como sendo uma entidade autônoma.

Quanto à noção de “si mesmo”, já vimos que se acredita que ela seja a própria essência do nosso ser. Nós a imaginamos como uma coisa invisível e permanente que nos caracteriza do nascimento à morte. O “si mesmo” não é meramente a soma dos “meus” membros, “meus” órgãos, “minha” pele, “meu” nome e “minha” consciência, mas sim o seu exclusivo dono. Nós nos referimos ao “meu” braço e não de “um alongamento de mim mesmo”. Se cortássemos o nosso braço fora, a nossa noção de “nós mesmos” simplesmente perderia um braço, mas a noção em si continuaria intacta. Uma pessoa sem os membros sente sua integridade física diminuída, mas claramente acredita ter preservado seu senso de “si mesmo”. Se o corpo sofrer cortes transversais, em que ponto o senso de “si mesmo” começaria a sumir? Desde que conservemos o poder do pensamento, temos esse senso de “si mesmo”. Isso nos leva à celebrada frase de Descartes, subjacente a todo o conceito ocidental da noção de “si mesmo”: “Penso, logo existo”. Mas o fato de que pensamos não prova absolutamente nada sobre a existência de um “si mesmo”, porque o “eu” nada mais é do que os presentes conteúdos do nosso fluxo mental, que mudam de momento para momento. Não basta que algo seja percebido ou concebido para que essa coisa exista. Nós claramente estamos vendo uma miragem ou uma ilusão, sem que nenhuma delas tenha qualquer realidade.

A ideia de que a noção de “si mesmo” seja nada mais do que um conceito vai de encontro à intuição da maioria dos pensadores ocidentais. Mais uma vez, Descartes é categórico sobre esse assunto. “Quando considero a minha mente – isto é, eu mesmo, dado que sou meramente algo que pensa – não consigo identificar nenhuma parte em específico, mas me entendo como uma coisa singular e completa”. O neurologista Charles Scott Sherrington acrescenta: “O “si mesmo” é uma unidade… considera-se a si mesmo como um só; os outros o tratam como um só; dirigem-se a ele como um só; pelo nome ao qual responde”. Indiscutivelmente, nós vemos o “si mesmo” de forma instintiva como algo unitário, mas logo que tentamos apontá-lo, temos muita dificuldade para chegar em algo.

As frágeis facetas da identidade

A noção da pessoa inclui a imagem que temos de nós mesmos. A ideia que temos da nossa identidade e do nosso status na vida está profundamente enraizada em nossa mente e influencia as nossas relações com os outros de forma contínua. A mais mínima palavra que ameace a imagem que temos de nós mesmos já é insuportável, embora não tenhamos o menor problema quando ela é usada para qualificar uma outra pessoa em circunstâncias diferentes. Se gritássemos insultos ou elogios do topo de um penhasco e essas palavras ecoassem de volta para nós, isso não nos afetaria. Mas se uma outra pessoa gritasse esses mesmos insultos para nós, ficaríamos profundamente chateados. Se temos uma imagem muito forte de nós mesmos, ficaremos constantemente tentando nos assegurar de que ela seja reconhecida e aceita. Não há nada mais doloroso do que vê-la exposta à dúvida.

Mas qual é o valor dessa identidade? A palavra personalidade vem do latim persona, que significa a máscara de um ator – a máscara através (per) da qual a voz do autor ressoa (sonat). Apesar do ator estar consciente de estar usando uma máscara, nós muitas vezes esquecemos de diferenciar entre o papel que desempenhamos na sociedade e a genuína valorização que temos pelo nosso ser.

Geralmente, temos medo de enfrentar o mundo sem algum ponto de referência e ficamos tomados por vertigem sempre que as máscaras e epítetos caem. Se não sou mais músico, escritor, sofisticado, belo ou forte, o que sou eu? No entanto, ignorar todos os rótulos é a melhor garantia de liberdade e a maneira mais flexível, leve e alegre de nos conduzirmos no mundo. De forma alguma, recusar-se a ser enganado pelo ego impede que cultivemos uma firme determinação de atingir os objetivos que estabelecemos para nós mesmos e de, a cada instante, saborear a riqueza das nossas relações com o mundo e com os outros. O efeito, na verdade, é exatamente o oposto.

Através do muro invisível

Até que ponto essa compreensão da natureza ilusória do ego pode mudar meus relacionamentos com minha família e com o mundo ao meu redor? Será que uma reviravolta dessa magnitude não seria desconcertante? O que a experiência tem demonstrado é que isso só lhe trará coisas boas. Na verdade, quando o ego predomina, a mente é como um pássaro que fica constantemente se chocando contra uma parede de vidro – a crença no ego – que encolhe o nosso mundo e o enclausura dentro de limites restritos. Chocada e perplexa com a parede, a mente não consegue atravessá-la. Mas a parede é invisível porque, na verdade, ela não existe. Trata-se de uma invenção da mente. No entanto, ela funciona como uma parede que segmenta o nosso mundo interno e represa o fluxo do nosso altruísmo e da nossa alegria de viver. O nosso apego ao ego está fundamentalmente ligado ao sofrimento que sentimos e infligimos aos outros. Abandonar essa nossa fixação com a nossa própria imagem particular, dissipando toda a importância que tem o ego, significa ganhar uma incrível liberdade interior. Isso nos permitirá lidar com qualquer um e com qualquer situação com certa tranquilidade natural, além de com benevolência, coragem e serenidade. Sem expectativa de ganhar, nem medo de perder, ficamos livres para dar e receber. Não temos mais a necessidade de pensar, falar e agir de uma forma forçada ou egoísta.

Ao nos apegarmos ao apertado mundo do ego, temos a tendência a nos preocupar exclusivamente com nós mesmos. O mais mínimo revés que temos nos chateia e nos desencoraja. Ficamos obcecados com o nosso sucesso, o nosso fracasso, os nossos anseios e as nossas ansiedades; e, assim, damos à felicidade todas as chances para ela nos iludir. O estreito mundo do “eu” é como um copo d’água em que se joga um punhado de sal – a água se torna intragável. Mas se, por outro lado, rompermos as barreiras do “eu”, tornando a mente um vasto lago, esse mesmo punhado de sal não terá efeito algum sobre seu sabor.

Quando o “eu” para de ser a coisa mais importante do mundo, fica mais fácil focarmos nas preocupações dos outros. Só de imaginar o sofrimento deles aumenta a nossa coragem e a nossa determinação de nos empenhar por eles, em vez de ficarmos paralisados com as nossas próprias aflições emocionais.

Se o ego fosse mesmo a nossa essência mais profunda, seria fácil entender o receio que temos em abandoná-lo. Mas se ele é meramente uma ilusão, ao nos livrarmos dele, não estaremos tirando o coração do nosso ser, mas simplesmente abrindo os nossos olhos.

Portanto, vale a pena dedicar alguns momentos da nossa vida para deixar a mente repousar na calma interior e para compreender, por meio da análise e da experiência direta, o lugar que o ego tem em nossas vidas. Enquanto esse senso da importância do ego tiver controle sobre o nosso ser, nunca teremos uma paz duradoura.

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