De coração exposto

Por Carlos Walker*

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Na esquecida Nicarágua, à noroeste da capital, nasceu um menino com o coração fora do peito. No mundo, ainda são poucos os casos. A deformação é denominada ectopia cardíaca e o rebento se debate entre a vida e a morte. Que sinal este menino de coração exposto vem nos revelar? E, se cada vez nascerem mais pessoas com o coração deslocado e expulso de seu cálido centro e rubra caverna? Ou, até quando seres humanos nascerão ainda com este órgão-tambor que acompanha a música incandescente da vida?

Focamos três pontos energéticos essenciais no mapa vertical e anatômico do ser humano: o cérebro, o coração e o sexo. E entre os dois polos opostos está o coração. No centro, ele recebe o privilégio de ser-estar no trono do plexo; de lá, concentra, intermedia e irradia a sua força colossal e a dos outros dois para o Eu, os seres e a Natureza e o Cósmico.

Nas tradicionais doutrinas, o coração é a verdadeira morada da Inteligência e o cérebro apenas um de seus canais de efetivação. Na simbologia planetária alquímica, o cérebro associa-se à lua e o coração está associado ao sol. Não precisamos dizer mais nada. O Coração é “a imagem do Sol no Homem, assim como o Ouro é a imagem do Sol na Terra”.

Segundo a sabedoria do Sufismo (parte bela e mística do Islã), Deus, ao criar o Mundo  ofereceu todas as maravilhas da Criação para o seu amado infante. Deus em êxtase disse: “Filho, todas as coisas do Céu e da Terra serão suas. Menos uma. O seu coração. O seu coração, a mim pertence…”

O coração é o Amor em forma de compaixão transcendente. Em muitos emblemas este amor é representado como centro de iluminação e vem, muitas vezes, contornado por chamas e uma coroa.  Nos aspectos iluminados da Idade Média, inseridos na iconografia cristã encontramos os corações flamejantes de Cristo, da Virgem Maria e dos grandes santos apaixonados.

Nos tratados egípcios de embalsamento, o coração é a única víscera deixada (juntamente com o escaravelho), no interior da múmia. Quando chega o Juízo Final o coração é pesado. Também, na eterna Índia, o coração é ponto de contato direto com Brahma, o Absoluto. E na antiga Grécia era o Ente, que plasmava o pensamento, a ação e o sentimento em direção ao Espírito!

Quantas vezes me vejo ao mesmo tempo em que assisto cintilar nos olhos dos homens, o Amor Arterial  e o Ódio Venoso  entrando e saindo no bojo de cada coração? Em que rua ou relva iremos achar ainda palpitando o sagrado coração deste menino, que é símbolo do futuro que se abre para quem ainda está por vir ou do futuro transformado em eterna juventude, no caminho dos já maduros e anciãos?

No catolicismo, a simbólica do menino nos remete aos Anjos: sempre em posição de salto como num jogo de vôlei aéreo. Mesmo na analítica e atual psicologia, o Menino é o filho da alma: o momento misterioso e mágico em que os limites do consciente e inconsciente se tocam e o Universo abismado o contempla!

Na leitura dos sonhos, quando esse menino surge evidenciam indícios de uma grande metamorfose espiritual sinalizando bons auspícios.

Também paginado nas leituras dos contos infantis e nas lendas longínquas aparece o Menino-Herói, aquele que  livra o mundo dos monstros. Dentro das regências alquímicas, ele vem coroado num vestuário de magnífica realeza, significado da Pedra Filosofal: a conquista suprema do Deus-já-em-Nós. E hoje, quem sabe talvez aqui por perto, de óculos e lúdico sorriso possamos avistar algum Harry Porter, esse moderno menino místico de jeans, que resolve enigmas e acende a esperança no coração humano. Coração, por sinal, que só quer no fundo morar feliz. De preferência, claro, dentro do peito.

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*Carlos Walker, IO Escola de Astrologia. Tel: 11- 97129-9876  – [email protected]

24 Comentários

  1. Andreia Santos diz:

    Cientificamente,o coração é um órgão muscular oco, envolto por um saco cheio de líquido chamado pericárdio, localizado no interior da cavidade torácica.Parece-me que algumas pessoas possui dentro do peito um órgão literalmente “oco” ou “fora do peito”.Faltam sentimentos como compaixão e amor!!!
    Uns devido as marcas profundas deixadas pela trajetória de vida,outros pela “bagagem espiritual”…enfim,sempre surgem argumentos para explicar que o “coração fora do peito” é uma forma de defesa ou para justificar as atrocidades que vivenciamos no nosso dia a dia!
    Não há mais tempo,estamos em fase final de mudarmos a direção dos nossos pensamentos e aquecer esse órgão que intermedia e irradia forças…Pensemos!
    Parabéns pelo brilhante texto Walker!

  2. Ah coração, como o seu tum tum nos enche de vida e de amor! Que você fique sempre guardadinho dentro do peito, irradiando luz, esperança e magia!
    Carlos Walker com mais um texto perfeito… correto, lúdico e cheio de ensinamentos. Tudo a ver com o dia de hoje, o dia do mestre!
    Parabéns para você!!!

  3. Que viagem ao centro do coração do mundo!!! Lindo!
    Parabéns!
    Bjo

    Tunis

  4. Entre o cérebro e o sexo fica o coração. Isso não deve ser por acaso. Não devemos ser muito racionais, nem muito instintivos. O caminho do meio (ensinado por Buda), é a melhor escolha. O coração exposto (contrário ao que acreditamos), não nos torna fracos, mas corajosos pelo mesmo motivo. O mais bonito das crônicas é isso, partir de um fato mundano e usá-lo para profunda reflexão a respeito de questões mais relevantes que o físico. Parabéns Carlos!

  5. Paulo C. Slupt diz:

    Genial a relação do amor arterial e o ódio venoso! Parabéns!

  6. Nelci Rogério diz:

    Lindo! Pura poesia. Mas cheia de referências preciosas!
    Parabéns!

  7. Não é a toa que o coração é o orgão mais citado em poesia e música ! Parabéns pelo texto Walker !

  8. Marcia Tsuzuki diz:

    Mais uma vez simplesmente LINDO!!!! Vc está dentro do meu coração em forma de amor arterial!!!! Adoro seus textos que revelam sua alma e seu enorme coração meu querido!!!!!

  9. Silvia Saccheto diz:

    Lindo, rico e iluminado texto. Como sempre….. meu coração palpitou.

  10. Bela reflexão em ciência, icônica e histórica do nosso tambor, querido Walke.
    Ao longo da estrada temporal humana, tanta vertentes de pensamento.
    Em tudo uma verdade.
    Grande abraço, poeta.

  11. Coração deixa de ser apenas mais um vocábulo quando se sente em palavras e contextualizamos a emoção de querer o alem dos muros. “O coração é o Amor em forma de compaixão transcendente.” Calo-me diante da grandeza de Carlos Walker.

  12. Eduardo Franco de Camargo diz:

    texto perfeito! aquece o peito…dentro ou fora.

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