Dança Xamânica: ritual de morte e renascimento

Por Paula Gama

Os índios de tradições do mundo todo dançam. São rituais nos quais  buscam transcendência e visões, que os aproximam do sagrado, do grande espírito que tudo governa. Os brancos também podem dançar as danças dos índios, afinal somos todos humanos.

Fui dançar pela primeira vez em 1998 na Filadélfia, EUA, totalmente no embalo do meu namorado na época, que tinha se programado para ir a esse ritual. Não tinha idéia no que estava me metendo. Passei três dias sem comer nem beber embaixo de uma chuvinha fina e ininterrupta num ritual que consistia em, alternadamente, dançar ao som de tambores que soam ritmos indígenas e descansar em torno do que se chama um campo da dança.

Embaixo de um daqueles plásticos gigantes de caminhão que me protegiam de não ficar completamente encharcada, na beira do campo da dança, eu me perguntava como tinha me metido em tamanha roubada. Meus companheiros de dança eram na maioria americanos cheios de penas penduradas deitados naqueles colchões infláveis gigantes e emocionados com toda aquela cena xamânica. Eu definitivamente não estava entendendo nada.

A única coisa que eu desejava era que tudo aquilo acabasse logo.

No final, eu já estava prá lá de saco cheio e fui pedir um bocado de leite de magnésia pro anfitrião, dono da terra e também chefe da dança, já que meu intestino nem dava sinal de funcionamento com aquela ausência prolongada de comida. Ele, doce como sempre, me explicou que eu deveria voltar pra dança pois não era permitido sair dos lugares reservados aos dançarinos, que já estavam todos bastante alterados. Disse também que a dança se encerraria em breve e ele poderia me ajudar com meu leite de magnésia. Nesse momento, um choro do fundo da alma transbordou de mim. Ele me confortou e, meio sem graça, voltei pro meu lugar, impressionada com minha absoluta falta de controle sobre aquele choro pensando: “socorro, o que está acontecendo comigo?”.

Ainda cheia de estranhamento, fui encaminhada junto aos outros dançarinos para um salão, agora protegidos da chuva. Benito, um índio que estava presente e que havia tocado tambor durante a dança, tinha a energia muito semelhante à da minha vó materna. Parecia um cacique silencioso e senti uma familiaridade brutal com aquele homem. Ele é irmão do grande chefe dessas danças, Joseph Rael. Presente naquela ocasião, Joseph é um xamã da tribo Picuris, original da região do Novo México, que sonhou três danças e as ensinou aos não índios. Uma delas, a Drum Dance, ou Dança do Tambor, era a que tínhamos acabado de realizar.  Joseph diz que se dança pela paz mundial e que se deve fazer pelo menos 6 dessas Drum Dances pra se compreender o que se está acontecendo ali. Naquele momento eu com certeza não conseguia vincular minha experiência com nada próximo a paz mundial.

Ao final da dança, reunidos em círculo, os dançarinos compartilham suas experiências enquanto seguram o bastão sagrado que é passado de um em um. Quando abri a boca pra contar da minha dança, veio um discurso absolutamente espontâneo em homenagem à minha avó e mais um choro torrencial e incontrolável, só que agora na frente de umas 30 pessoas, que me ouviam sem julgamento, com corações abertos e acolhedores. Ufa! Mais uma vez aquela sensação de como pude chorar assim na frente de toda essa gente e quão incontrolável aquilo estava sendo. Definitivamente algo tinha acontecido comigo.

E aquilo foi só o começo. Fui homenageada e voltei pra casa com o bastão sagrado, completamente atordoada. Um ano depois, toquei tambor numa Drum Dance e nos próximos três anos consecutivos, dancei. Totalmente impossível descrever essas experiências num pequeno ensaio, mas definitivamente posso afirmar que dançar essas danças, sacrificando nossos egos, confortos e desejos nos fazem contribuir com a paz mundial.

2 Comentários

  1. Parabéns, realmente fiquei tocado com o relato simples mas objetivo e gostaria de saber um pouco mais sobre como foram os outros anos (se puder compartilhar, é claro) por algum motivo queria me tornar um xamã dançarino e estou nessa busca pelo poder!

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