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Da possibilidade da harmonia – viver de acordo com o ritmo natural do corpo e do todo

Da possibilidade da harmonia – viver de acordo com o ritmo natural do corpo e do todo

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Por Fernanda Nicz*

Depois das andanças pelo lado de lá (Europa), uns meses por aqui e a mesma vontade de chegar mais perto da natureza. Felizmente, descobri que há muitas ecovilas e comunidades interessantes espalhadas pelo Brasil. Entre tantas dicas, amigos de São Paulo me falaram muito de um lugar no Rio Grande do Sul, perto de Pelotas. Pesquisei um pouco e gostei de tudo e todos que vi. Como estava em Curitiba pra visitar a família, tudo se encaixou e conspirou a favor. Resolvi passar uns vinte dias no Sítio Amoreza.

Personagens – Na rodoviária de Pelotas, ao descer do ônibus, reconheci a Maria Flor (26) com o pequeno Cauê (10 meses) no colo. Flor é a companheira do Pedro (29), um dos filhos da Ana (50). Sim, o Sítio é um lugar “família”. Foi Ana que, há uns quatro anos, reconheceu o lugar que via, insistentemente, em seus sonhos. Depois de muito estudo, planejamento e vivências em lugares similares nasceu a Amoreza, fruto de um sonho e de anseios por um mundo diferente; mais próximo da Mãe Terra, mais sustentável, solidário, simples e feliz.

Peu (Pedro) resume a vinda à Amoreza como consequência de um desencanto e uma esperança de mudança. “Começamos a sentir certo desconforto ao perceber que a vida, na cultura vigente, é estruturada para que os seres alimentem o sistema – baseado no capital e na acumulação de bens – e mantenham-se alienados, sem autonomia e, consequentemente, tristes ou doentes”.

Além do Peu, o Rael (21), outro filho da Ana, também vive na Amoreza. Rael é artista. Em todos os sentidos. Faz fotos incríveis, toca e canta. Aposto muito nele. Acho que esse menino ainda vai voar alto. Há um ano, quem se juntou a eles foi o “vô” Darcy (78), pai da Ana. O vô sempre me chamava pra tomar um mate (chimarrão) e papear na área da casinha dele – bem na entrada do Sítio, ou seja, ele acompanha a chegada e a saída do pessoal bem de perto. Vô curioso. Poeta e músico. Recitou algumas poesias pra mim, me deu um CD autografado e se encantou lendo algumas das minhas crônicas que insistiu em conhecer. Contou-me histórias emocionantes de amores vividos. Um cara romântico. Completam a família Amoreza; as (amadas) cachorras Amora e Lôla. Por lá estão ainda (há quase um ano), a querida Priscila e sua filha Cecília, experimentando uma nova forma de vida.

Seres especiais demais. Com cada um deles tive uma identificação, admiração e carinho diferente. Muito amor e uma energia linda pairam no ar.

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O arroio e a pirâmide – O Sítio – oito hectares (quatro de mata nativa) – é limitado pelo Arroio Valdez. Este é um ponto alto, o que fez toda a diferença. Fez um bem enorme (tomava banho de rio três vezes ao dia) a ponto de me fazer questionar e chegar a uma conclusão; quero (ao menos em algum momento da vida) morar/viver perto da água. Levantar de manhã, dar alguns passos e cair na água é a melhor forma de acordar; feliz, energizada. Depois do mergulho, uma breve meditação e saudação ao sol nas pedras e o dia começava diferente. Pra deixar tudo bem original; tem ali, no meio do arroio, além de algumas cachoeiras, uma pedra em forma de pirâmide.

A Amoreza oferece ainda, o “cinemato”, um espaço que, acrescido de uma boa fogueira (e muita cantoria em noites estreladas), é usado para aguçar reflexões e pensamentos por meio de documentários e filmes. Os atrativos do Sítio incluem também um lugar estratégico pra assistir ao pôr do sol – um espetáculo diferente a cada dia.

unnamed-15(Foto/ Rael Castro)

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O dia a dia – Depois do café da manhã, um bate papo para definir e dividir afazeres. O trabalho engloba melhoramento/construção de estruturas e espaços, cuidados com a natureza/horta/permacultura, cozinha, ajuda com os produtos (pães, bolachas e outros alimentos integrais) feitos no Sítio que são levados para feiras orgânicas em cidades próximas e na feira virtual Bem da Terra.

A Amoreza desenvolve projetos de agroecologia, permacultura, educação ambiental e estudos ambientais. Promove oficinas e variadas atividades sempre em meio à natureza. No primeiro fim de semana, assim que cheguei, participei da vivência “O Sagrado Feminino”. Incrível; o aprendizado, a troca e, principalmente, a cumplicidade e amizade que teve início ali.

unnamed-16(Foto/ Rael Castro)

Natureza e comunidade – Viver em meio à natureza é libertador e viver em comunidade proporciona um aprendizado indescritível. Enquanto na maioria das grandes cidades, a natureza é deixada de lado, a parte, como se não fosse o que de fato é; uma continuidade do ser humano – algo integrado -, e enquanto a sociedade estimula a competição e induz os seres a considerar o outro, concorrente/inimigo, em lugares como a Amoreza (amor + natureza) é exatamente o contrário. O lema por lá é: “a natureza é o caminho e o amor conduz”.

Foram dias intensos. Aterrissei por lá com o coração um tanto quanto despedaçado (a Ana sabe do que estou falando) e saí fortalecida, leve, feliz. Voltei a sentir corpo e mente em outro ritmo, como senti nas ecovilas em Portugal e Itália. As sensações são parecidas e as estruturas não são muito diferentes. Na Europa é bem comum o uso de “caravanas” (trailers). Na Tribodar, em Portugal e no Giardino delle Belle, na Sicília, Itália, dormi em caravana. Já aqui (Brasil), na Amoreza, dormi num dormitório (há opção de barraca também). Diferenças pequenas dentro de um mesmo (e imenso) propósito; um ESTAR no mundo mais consciente e integrado ao todo.

Um vídeo lindo sobre a vida na Amoreza

Amoreza no facebook

Algumas ecovilas no Brasil

Na Bahia, a maravilhosa Piracanga

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(Foto/ Rael Castro)

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

 

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