Da maresia à necessária travessia; gente que vive o que ama na vida! – Por Fernanda Nicz

Quem vai, imagina que aonde vai é onde deveria estar.

Quem fica, acredita que onde está é como deve ser.

Entre ir e ficar; passa o tempo em meio a passatempos.

Para quem fica, normal, natural e saudável é a rotina. Raramente questiona o “andar da carruagem”, segue. A possibilidade de outra realidade é remota. Seu mundo (bom ou ruim) é uma bolha; sua dança é conforme a música (legal ou chata).

Para quem vai, a busca é por vida (boa ou ruim) além da bolha e dança além da música – de acordo com seu ritmo (feliz ou triste).

 

Escolhas; escola da vida. Nada fácil ficar, quiçá, IR –, afastar-se de conhecidas referências de toda uma vida. Muitos seres, longe da rotina criada e até então, intensamente vivida, perdem a identidade. Criador e criatura fundem e confundem-se. É quando criador (Ser) acredita ser criatura (tudo que criou na vida) e já não mais sabe viver separado (apego), daí a dificuldade (resistência) em IR – descobrir-se de camadas acumuladas (desconstruir-se) para ser/manifestar todo o potencial que, desde sempre, o habita.

Bem disse o sábio indiano Ramana Maharshi; quando o mundo, que é aquilo que se vê, for removido, então se dará a realização do SER, que é aquele que vê.

 (…) a história de quem vai e de quem fica. Pego emprestado o título do terceiro volume da tetralogia da excelente escritora italiana Elena Ferrante pra divagar novas/diferentes interpretações sobre os verbos Ir eFicar.

Foto: Bruna Arcangelo Toledo

A menina que vai – quando digo, em voz alta, quem vai e quem fica, palavras antagônicas – movimento/estagnação, curiosidade/comodidade, olhar em torno/olhar fixo, expandir/recolher – surgem em mente.

Assim sendo, quem vai é o ser que caminha (não necessariamente muda de espaço) em direção à realização da vida que ama/acredita (de acordo com valores e essência). Quem fica é o ser ocupado/acostumado que não cogita diferente maneira de “estar no mundo”.

E, enquanto vivo um período de “gestação” – ensaiando um novo IR –, sigo IDAS de seres especiais, corajosos e inspiradores que conheci ao longo dos anos. Uma destas pessoas é Raíssa Teles, cuja trajetória acompanho, encantada, por meio das redes sociais. Com ela, vibro em dobro porque me identifico com suas paixões: mar, simplicidade, minimalismo, liberdade, vida em constante aprendizagem.

Há pouco tempo, curiosa sobre a vida no mar e sobre como se deu o movimento/transformação/mudança, resolvi pedir à “menina que vai”, que me contasse um pouco da história toda.

E Raíssa começou contando da sorte que teve em encontrar um amor que partilha de seu projeto/sonho. Dádiva da vida; dois seres unidos, um desejo em comum – não um desejo qualquer, mas a realização de um propósito – algo abrangente, que envolve outros seres e pede responsabilidade (palavras da Raíssa).

A história toda – O desejo em comum de Raíssa e Christof Brockhoff, seu companheiro há quase cinco anos, era morar num veleiro. A vontade de uma vida nômade e a paixão pelo mar alimentavam o sonho que, por um tempo, ficou de lado. Foram quase quatro anos entre Brasil e Europa – Christof é de Liechtenstein (principado entre Suíça e Áustria). Ora juntos, ora separados, foram amadurecendo a relação e dando formas ao projeto. Ao contrário de Chris, que cresceu velejando com o pai – skipper –, Raíssa não fazia ideia do que vinha a ser, na prática, a arte de velejar. Mas, sobre o mar, sua pesquisa era constante pois queria integrar o trabalho de autoconhecimento com a natureza e conectar estudo do mar com estudo do Ser. Dessa conexão nasceu seu principal workshop: M.A.R. – medo, amor, revolução.

No ano de 2017, Christof foi morar no Brasil – com a certeza de que não viveria em São Paulo. A ideia era comprar um Jipe 4×4, reformar e transformar numa casinha itinerante e, assim, levar seus projetos para diferentes cantos do mundo. Seria o primeiro passo para, mais à frente, comprar um veleiro.

Mas, a vida SINALIZA (antecipa!) e, no início de 2018, Raíssa esteve em Ilhabela, litoral de São Paulo, para uma expedição na qual trabalha com jovens o autoconhecimento e o empoderamento pessoal por meio da natureza. E foi durante este trabalho que sentiu o chamado: seu lugar não mais era o asfalto e sim, o mar. No mesmo periodo, Christof também viajou pra perto do mar e sentiu o mesmo. Um chamado em comum (amor de verdade + projeto que faz sentido = vida flui…). Uma ficha enorme caiu. Decidiram não mais comprar o Jipe. Cortaram custos, venderam carro, conseguiram o dinheiro necessário e, enfim, encontraram “o veleiro” e logo mudaram-se para a “nova casa”.

Reforça a velha máxima: é incrível a força que as coisas tem quando precisam acontecer.

A primeira travessia (Rio de Janeiro a Ilhabela) à bordo de uma nova vida aconteceu em 22 de março – dia do aniversário de Raíssa – de 2018.

Escola diária – Dentre as tantas lições da vida nova, velejar tem se mostrado a tarefa menos complicada. Viver à bordo requer atenção constante, é exercício de disciplina e presença. Sem cuidados, a qualquer momento, o barco afunda, estraga, enferruja ou mofa. É preciso entender de mecânica, elétrica, ser o mais sustentável possível, aprender a possuir e consumir menos, estar em harmonia com o corpo – a necessidade de energia é maior que em terra firme.

Para além da lista acima, Raíssa acrescenta: o mar tem qualidades que fazem com que se trabalhe o poder da mente. Isolamento, impermanência e movimento constante, somados ao novo/desconhecido despertam medos profundos e também poder pessoal. Não há como/nem pra onde fugir da obrigação de olhar/encarar o que emerge.

Tempo não é definido por relógios ou dias da semana, mas pelo barco, os ventos, as ondas, sol e lua. “Estar no mar/barco favorece nosso alinhamento com a alma. Nas cidades é fácil esquecer que somos natureza. O ritmo acelerado/artificial nos afasta do que somos e de nosso real potencial e, muitas vezes, acaba por ‘domestificar’ os seres para que se encaixem na linha de produção do caos. Estar no mar nos reconecta com nosso ‘eu-selvagem’ e isso é surpreendentemente potente! Aproxima-nos da real liberdade – não aquela que se traduz de forma inocente, ‘fazer o que se quer, quando e como se quer’ -, a liberdade de SER, de explorar infinitas formas de criar realidade e de expressar a alma. O mar, enfim, mostrou-se um espaço que faz sentir-me VIVA (como nunca antes havia sentido)”, declara a empolgada “menina que vai”.

No mar, não há como construir muros e, não importa em que parte dele se está, a sensação é, sempre, de unidade e plena igualdade. Isso não é só lindo, mas, absolutamente poderoso.

 

Aplaudo de pé a menina que escolheu IR e, hoje, vive, em parceria com seu amor, desafios e realizações à bordo do veleiro de 33 pés, do ano de 1979, chamado Mintaka – nome de estrela, uma das três Marias, do Cinturão de Orion. O casal está em Ilhabela (em uma poita e não em marina) fazendo curtas viagens, mas, no longo prazo, a ideia, é comprar um veleiro maior (tipo um barco pirata antigo), reformar e transformar em uma escola dos mares que possa receber muita gente e velejar por todos os oceanos.

Sea Beyond, o projeto da Raíssa e do Christof, é um transbordar de tudo que vivem e acreditam. É uma escola em que o professor é o mar, o Mintaka; a sala de aulas e o casal; anfitrião de expedições que abordam, entre outros temas; autoconhecimento, relacionamentos e empreendedorismo social.

https://www.sea-beyond.org/… Vale demais a visita!

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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