Da liberdade – Quando a bailarina esquece-se de si mesma e torna-se a própria dança

Por Fernanda Nicz*

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É fascinante viver (mesmo que por um curto período de tempo) em diferentes ecovilas, comunidades e projetos pelo mundo. Saber que é possível colocar sonhos e ideais em ação, mesmo sem tanto recurso. Conhecer seres que pensam parecido, tem os mesmos valores (e vivem de acordo com eles), acreditam nas mesmas coisas.

Ir mais fundo em conceitos como permacultura, educação holística, minimalismo, mas, principalmente, ir mais fundo em mim mesma. Tempo de conhecer-me a ponto de desconstruir-me e, então esvaziar-me. E ao chegar à essência, sentir a identificação/comunhão com o todo. Porque tudo é vazio. A paz, então, ensaia e se instala. É como uma bailarina no palco. Ela se esquece de si mesma enquanto dança. E então entra em cena o momento mais belo e mágico; ela se torna a própria dança, a música, o movimento; vida.

Aquietar. Observar o pensar e o não pensar. Estar presente. Ir além da dualidade corpo e mente. Além da dualidade do eu e do outro, do dentro e do fora. Pensamos que são as situações externas que nos movem. Na verdade, é nossa própria mente que move a vida. 

Monja Coen

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Neste bonito e, ao mesmo tempo, dolorido processo de dissolução do EU, o autor mexicano Don Miguel Ruiz tem sido grande parceiro. Diz ele, em sua melhor obra (em minha opinião), “O Quinto Compromisso (o ensinamento mais avançado dos toltecas)”:

Estamos aqui para DESAPRENDER. Só se sabe aquilo em que se acredita, o que se aprendeu.Sócrates demorou a vida inteira para chegar a ponto de dizer: “Quanto a mim, só sei que nada sei”.

Quando se dá sentido a tudo por meio de símbolos, a atenção é dispersada por várias coisas ao mesmo tempo. Quando se tira o significado de todas as coisas (desconstrução), retorna-se ao SER que ÉS.

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Meu lugar – Dentre tantos incríveis projetos, um deles mexeu demais comigo. Há dois motivos porque a Tribodar (http://www.tribodar.com/) foi minha escolhida. Racionalmente: é o lugar que engloba o todo (mente, corpo, trabalho, saúde…), que te permite, ao mesmo tempo, sentir-se fazer parte e viver de acordo com seu próprio ritmo. Emocionalmente: há uma energia que paira por aqui (que senti logo no primeiro dia) difícil de traduzir em palavras. A Tribodar me põe sempre à flor da pele e me faz esbarrar, sutilmente, no dia a dia, em fragilidades que tento evitar ou – em meio a tanta poluição sonora, visual e excesso de informação – simplesmente não consigo ver quando estou na cidade. É intenso, denso e nem tudo são flores (http://www.nowmaste.com.br/pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores-fernanda-nicz-compartilha-seu-caminho-de-aprendizado/).

Meus três maiores DESaprendizados por aqui; PRESENÇA (viver uma coisa de cada vez/o momento presente), VERDADE (viver de acordo com meus sentimentos e ouvir mais os sinais emanados pelo corpo) e AMOR (incondicional e de forma mais livre e saudável). Sim, disse DESaprendizado porque se nasce ESSÊNCIA e quanto mais anos se faz mais acrescenta -se crenças/comportamentos que nada têm a ver com o que realmente se É.

Desapego – Não escolhi viver aqui da noite pro dia. Escolhi viver aqui depois de visitar e conhecer outros projetos e, principalmente, depois de um demorado processo de revisão de valores. Abri mão, aos poucos, do conforto e de bens materiais (desconstrução externa). O objetivo agora é abandonar comportamentos e crenças (desconstrução interna, a mais difícil) que se repetem e fazem-me parar no tempo.

Para viver numa ecovila (na maioria delas), é preciso ter ciência de que se há de abdicar de conforto, objetos materiais, banho com água quente em lugar fechado e privado, banheiro comum, sabonete e shampoo industriais, entre outras coisas. É preciso estar disposto a conviver pacificamente com aranhas, insetos, sapos, (às vezes, cobras e escorpiões!). É preciso relaxar um pouco em relação à organização e limpeza – pra mim esta é a parte mais difícil – porque é impossível manter tudo no lugar e impecavelmente limpo quando, em média, quinze pessoas (sempre diferentes; uns chegam, outros partem e é um vai e vem sem fim) utilizam a mesma cozinha, sala de estar, banheiro.

IMPORTANTE: conviver em meio a tantas chegadas e despedidas também faz parte da (minha) desconstrução. Aprendendo a arte do mais difícil dos desapegos; de pessoas. Algumas despedidas são bem doídas. É preciso soltar. Compreender que cada ser tem um caminho/sonho/jornada a seguir.

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Escola Natural – Hoje, a Tribodar é o meu lugar, é o que faz sentido. É a vida fluindo mais próxima dos meus valores. Mas esclareço: não é porque faz sentido hoje que será pra sempre (seguimos em constante evolução, assim, necessidades também mudam) e não é porque é bom pra mim que será bom pra outro ser.

Por aqui, o silêncio, sons e tons da natureza, proximidade de estrelas, tudo conspira para um contato absurdo e escancarado comigo mesma. Possíveis máscaras sustentadas nas grandes cidades, dentro do sistema, não se sustentam. Muitas Fernandas já não cabem mais em mim, sinto-me cada vez mais próxima da essência. Acontece como diz Don Miguel Ruiz, um constante enfraquecimento do poder que damos deliberadamente para as impressões que vem do exterior e fortalecimento de nosso próprio ser interior.

Vivo numa “escola natural”, onde se DESaprende do acordar ao deitar-se. Vivo um dos períodos mais intensos da vida. E, sim, deve ser possível tudo isso na cidade grande ou em qualquer lugar, depende de cada ser. No meu caso, o movimento/deslocamento do ponto de origem/raiz foi fundamental para um completo esvaziar-me. Posso hoje dizer que, aqui, deu-se o mais bonito e profundo encontro meu comigo mesma. Posso talvez dizer, como Ruiz, que este é o momento em que o verdadeiro EU vivencia o processo de não mais acreditar que SOU o que assimilei até aqui (o que penso ser) e passa a simplesmente SER o que de fato É.

Monja Coen complementa: há um momento em que se rompe o casulo que nos separa do todo. Podemos entrever realidades maiores do que as que estamos vivendo. Até que, libertos do casulo de uma individualidade separada, podemos voar livres.

Poeminha inspirado no texto:
 

Fernanda Nicz

website: minideias.com.br

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