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Da arte de confiar na incerteza – aventura e superação na França

Da arte de confiar na incerteza – aventura e superação na França

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Por Fernanda Nicz*

Fernanda Nicz

Depois de tanto ouvir falar e muito ensaiar, a experiência de colher uvas no sul da França, enfim, aconteceu, e preencheu mais uma página do meu livro da vida. O “antes” foi recheado de expectativas – trabalhar por um mês na natureza, na bela região da Provence – e dúvidas – demoraram a informar o dia de início do trabalho e não havia certeza de quantos dias seriam.

Fernanda Nicz

A floresta – Por fim, num sábado, no início de setembro, “embarcamos”, de Blablácar (https://www.blablacar.pt/), eu e um casal de amigos. A viagem foi rápida e tranquila. O condutor nos buscou na porta de casa em Lisboa e nos deixou em frente ao camping em Chateauneuf du Pape. Melhor impossível. Chegamos tarde da noite. O camping era caro demais e, àquela hora, estava fechado. Com uma lanterna, montamos as barracas na floresta em frente ao camping. Dormi muito bem escutando o movimento das árvores (gigantescas!), forte – parecia que estava perto do mar. Na manhã seguinte, fizemos picnic por ali e fomos conhecer o centro da Vila. Caves e degustação de vinhos por toda a parte. É uma pequena cidade charmosa, medieval, mas tudo é absurdamente caro.

Dois dias depois da chegada acordamos cedo e fomos ao encontro de quem nos empregou para, pensávamos/esperávamos, começar a trabalhar. Não trabalhamos. Disseram que teríamos que esperar uns três dias ainda porque as condições climáticas não favoreciam a colheita.

Fernanda Nicz

Os primeiros dias foram bonitos, calmos e poéticos na floresta. Queria ficar ali. Mas depois da terceira noite fomos “expulsos do paraíso”. Enquanto tomávamos café da manhã na nossa mesinha, em meio às árvores, chegaram quatro pessoas fardadas. Polícia e guarda florestal. É proibido acampar ali; tínhamos meia hora pra desarmar as barracas e partir. Tudo feito, sentamos entre a floresta e o camping. Nenhuma ideia do que fazer ou aonde ir.

Fernanda Nicz

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Mudanças – Resolvemos acampar perto de um lago e no dia seguinte fomos para nossa terceira “casinha”: um barracão empoeirado com alguns tratores velhos. Barracas armadas na pequena parte externa, na grama. Lá vivemos muitos momentos/aventuras que não vou detalhar aqui, mas que pareciam cenas de filme.

Depois de três mudanças, fomos, enfim, à morada definitiva; atrás da fábrica que nos empregou. Ali tínhamos menos desconforto e uma vista de tirar o fôlego. Ruim foram algumas noites de vento absurdamente forte e frio. Pra tentar estabilizar a barraca que parecia que ia voar, coloquei pedras pesadas dentro e prendi com corda em pallet.

Fernanda Nicz

Ócio e tempo – O tempo passava devagar. A razão de estarmos ali, o trabalho, parecia não chegar nunca. No longo tempo de espera pensava: algum aprendizado há de surgir na estagnação, da paciência. Conversando com uma grande amiga questionamos: “por que estamos passando por dificuldades – que pareciam testes de resistência (falta de casa/lugar para acampar, falta de água, demora a trabalhar…)? O que temos que aprender com estas experiências?”

Na tentativa de aquietar a mente e cessar o pensar, buscava a energia do sol. Fechava os olhos, respirava fundo e procurava aconchego em alguma parte do meu ser.

Fernanda Nicz

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Enfim, uvas – Quase uma semana depois da chegada, o primeiro dia de trabalho. Sem grandes segredos; tesoura numa mão, balde na outra e ritmo. Em meio à natureza e com amigos, muitas vezes cantando ou contando histórias, no início foi divertido. Com o passar das horas e dos dias; alguns cortes nos dedos e mãos, dores na lombar e cervical. O que acontece é que muitas vezes há pedras e plantas que picam, outras vezes é preciso muita força e/ou habilidade para tirar o cacho colado entre troncos. A posição para encontrar todos os cachos de uma planta grande e cortá-los não é tão simples como parece.

E, para mim, a França sempre foi um país distante, estranho (obviamente há exceções, sempre, mas o fato é que me sinto melhor e mais feliz na Itália, em Portugal e no Brasil, por exemplo). Em sua maioria, os moradores da região onde estávamos eram fechados/reservados. A comunicação não fluía fácil. Não há muito esforço em falar outra língua. Cafés, restaurantes e comércio ficam abertos por pouquíssimo tempo. Para ir ao mercado (mais afastado do centro da Vila), pegávamos carona. Algumas vezes reciclávamos comida ou pedíamos nas “Boulangerries” se havia pães ou bolos “parados” (do dia anterior, mas que estavam ainda deliciosos). Nunca comi tanta baguete na vida!

Dias livres, novos dias – Quando não estava entre cachos de uvas, lia, escrevia, caminhava ou refugiava-me na floresta, perto do lago, do sol e do silêncio. Num fim de tarde, um senhor pescava. Eu e amigos descansávamos ao sol. Em determinado momento, o senhor, que parecia angustiado, puxava a linha que se enroscou numa planta. Ele não sabia nadar. Depois de muita insistência (dos amigos), entrei na água, fui até a planta e desenrosquei a linha. O senhor puxou devagar, feliz da vida. Era um peixe grande. Minutos depois sua expressão mudou, parecia decepcionado; perdeu o peixe. O peixe ganhou sua vida de volta e eu fiquei feliz por, indiretamente, ter salvado o grande peixe. Dia inusitado.

Fernanda Nicz

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E assim passou-se quase um mês (5 de setembro a 2 de outubro) sendo apenas treze dias (a colheita depende de muitos fatores) de trabalho. Experiência válida, mas confesso que imaginei diferente. Pensei que trabalharíamos mais. Pensei que não seria tão difícil encontrar um lugar para acampar. Pensei tantas coisas. Coisas de expectativa.

Mas não se deve pensar tanto, esperar tanto, imaginar tanto. O tanto será sempre um tanto suficiente para bagunçar algo arraigado dentro da gente. E não é a gente que escolhe todo este tanto. A gente escolhe dar o primeiro passo (a direção), ir e vivenciar mas não escolhe, define ou comanda o que virá – vem o que precisa vir. Trata-se de sintonia.

Dia destes assisti um vídeo que explica melhor o que estou aqui a tentar dizer:

O autor, Gustavo Tanaka fala sobre a “arte” de confiar na incerteza.

É nas incertezas que a vida opera. A incerteza é o campo das infinitas possibilidades.

“Existe uma inteligência por trás de todos os acontecimentos. Nada é por acaso. Ninguém entra e ninguém sai da vida de ninguém por acaso. Não se enfrenta desafios por acaso. As coisas não mudam por acaso. Tudo é parte de um movimento completamente orquestrado e incrivelmente sincrônico. A vida está operando para colocar as coisas que cada ser PRECISA vivenciar.”

Assim, aos poucos, a ficha foi caindo e hoje consigo listar o que precisei vivenciar na “novela da uva” – como a querida amiga Bianca Sampaio, que acompanhou detalhes pré-viagem, chamou este episódio da minha história.

Fernanda Nicz

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Lista aprendizado da “novela da uva”

– Não ter expectativas. Fazer a escolha – parte que me cabe – e, a partir daí, entregar, confiar e não tentar resistir a situações que se apresentam. Respirar fundo e viver o presente tal como é e não ficar triste/frustrada/decepcionada por não ser do jeito que eu gostaria que fosse.

– Ser paciente, saber esperar, ser solidária, saber viver em grupo. Perceber que cada ser funciona de um jeito – prioriza determinadas coisas e tem seu próprio ritmo. Conviver é arte. Conviver com quem se escolhe não é fácil, imagine conviver com quem não se escolhe?
Estávamos em mais ou menos 12 pessoas (durante um mês).

Apesar de tudo, valeu a pena. E, de qualquer forma, o cansaço físico ali foi menos pior que o estresse emocional – cansaço mental – que vivi quando trabalhei por alguns meses num restaurante na cidade grande.

Vivendo, trabalhando, aprendendo. Mas sigo com a vontade e a crença de que se deve viver e trabalhar no que se AMA. No meu caso, o que pulsa mais forte é o ESCREVER. Escrever para descobrir-me desconstruindo e transbordar experiências ao mundo.

Fernanda Nicz

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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