Lendo agora
Cuidar das nossas crianças cuidando de nós mesmos

Cuidar das nossas crianças cuidando de nós mesmos

Avatar

Por John Snyder, via Cultivando o Equilibrio

Thich Nhat Hanh, Inviting the Bell with Children, Vancouver (8/1

Nas ocasiões em que eu desacelerei o suficiente para realmente refletir sobre isso, ocorreu-me que o meu trabalho como professor Montessoriano é muito difícil para alguém com habilidades limitadas como eu, ou seja, para alguém que ainda precisa se alimentar, dormir e ocasionalmente se divertir. As demandas parecem não parar nunca, e quando acontece de diminuírem de vez em quando, tenho um enorme acúmulo de projetos de melhoria para preencher esse tempo.

Os pais às vezes perguntam com uma certa admiração: “Como você faz isso?” É mesmo! Como é que uma pessoa não só continua, mas faz tudo isso com ânimo, feliz, com um senso de perspectiva e, quase sempre,  calmamente presente na sala de aula?

Fico feliz em compartilhar pelo menos parte do “como eu faço isso.” Suspeito que por trás de cada professor bem-sucedido está uma prática de cuidado consigo mesmo e de reflexão, embora raramente falemos sobre essas coisas uns com os outros. Talvez devêssemos.

O cerne da questão é que menos é mais. No olho do furacão das atividades de um professor, deve haver um centro quieto, um local de repouso para o coração e para a mente. Estou convencido de que isto só pode ser mantido por meio da prática regular e disciplinada de tranquilamente parar, prestar atenção às vozes internas, e de se reconectar consigo mesmo da forma mais elevada. Poderíamos chamar essa prática de oração, ou meditação, ou afirmação, ou auto-reflexão; o ponto é que deve ser um período regular de calma, livre de interrupções, um compromisso que se mantém consigo mesmo.

Gosto de pensar nesse intervalo de tranquilidade como um presente para mim mesmo e como um período de condicionamento espiritual que me mantém emocionalmente preparado para o que surgir no meu caminho, dentro e fora da sala de aula. Embora as crianças não saibam da minha prática de reflexão, estou certo de que elas conseguiriam identificar os dias em que não consegui manter meu compromisso comigo mesmo.

Minha âncora, a espinha dorsal da minha preparação diária para a sala de aula, é uma prática encontrada no livro de Thich Nhat Hanh (Thai), “Ensinamentos sobre o Amor”. É a versão de Thai de um texto de 1.500 anos de idade, originada no Sri Lanka:

Que eu possa estar em paz, feliz e leve, em corpo e espírito.
Que eu possa me sentir seguro e ter boa saúde.
Que eu possa estar livre da raiva, das aflições, do medo e da ansiedade.
Possa eu aprender a olhar para mim mesmo com olhos de compreensão e amor.
Que eu possa ser capaz de cultivar as sementes de alegria e de felicidade em mim mesmo.
Possa eu aprender a enxergar as fontes da raiva, do desejo ardente e da delusão em mim mesmo.
Possa eu saber como nutrir as sementes da alegria em mim mesmo todos os dias.
Que eu possa ser capaz de viver com vigor, solidez e liberdade.
Que eu possa estar livre do apego e da aversão sem ser indiferente.

Assim como uma boa rotina de musculação fortalece todos os principais grupos musculares, essas nove linhas exercitam todos os “músculos psico-espirituais” que precisam ser fortalecidos para o meu trabalho com as crianças, pais e colegas. Começo o meu dia com estas linhas e mantenho uma cópia do texto na capa do meu livro de planejamento. Assim, quando sinto que estou me perdendo, posso lê-los para me centrar novamente e me revigorar.

Que eu possa estar em paz, feliz e leve, em corpo e espírito.

Me agrada que esta meditação comece com uma declaração bem clara do que se deseja, do resultado final da prática. Sentado tranquilamente, acompanhando minha respiração, posso trazer meu corpo e minha mente de volta de sua agitação e ansiedade para um lugar de paz, felicidade e leveza que está gradualmente se tornando um hábito ao longo dos anos que tenho praticado. Como um jogador de tênis ensaiando mentalmente suas jogadas, posso ensaiar mentalmente, observando os pontos de tensão e de desconexão em mim e transformando-os em uma calma conexão. O que poderia ser mais útil e importante para alguém que trabalha intensamente com crianças?

Que eu possa me sentir seguro e ter boa saúde. 

Percebi ao longo dos anos que cada progresso em sala de aula depende de todos os membros da comunidade se sentirem seguros e saudáveis. Essa linha me lembra de renovar a minha intenção de oferecer segurança física e emocional para mim mesmo, para que eu possa melhor oferecer essa mesma segurança para a comunidade. Isto torna sagradas as muitas coisas mundanas que eu faço todos os dias para garantir a segurança da comunidade, desde dar aulas sobre o uso seguro de instrumentos científicos até manter o kit de primeiros socorros bem abastecido, mediar conflitos em jogos, e honrar o esforço das crianças em vez dos resultados. Olhando um pouco mais profundamente, eu também compreendi que parte da minha prática é saber como cuidar de mim mesmo e dos outros quando se ferem. Ter a confiança de estar bem preparado me permite assumir riscos calculados, em nome da comunidade. Assim, longe de ser um convite para sempre “fazer apenas o que é seguro”, esta linha faz com que eu me aventure e me afasta de estados mentais tomados pelo medo.

Que eu possa estar livre da raiva, das aflições, do medo e da ansiedade.

É tão bom ter uma lista tão clara como esta dos principais obstáculos que enfrento no meu relacionamento com as crianças, pais e colegas! É ainda mais útil ter tempo para me livrar desses obstáculos e olhar calmamente para as raízes desses problemas. Posso, por exemplo, me dedicar à prática de perceber quando a raiva e o medo estão surgindo em mim e não agir com base neles, até que tenha a chance de me acalmar e investigar o que essas emoções estão me dizendo. Minha experiência tem sido a de que simplesmente reconhecer a presença da raiva, medo, ansiedade, desejo, ciúme, e assim por diante, diminui muito a urgência e a força com que essas aflições atacam o meu corpo e a minha  mente. A função destas emoções é chamar a minha atenção para algo de que eu preciso cuidar; quando eu calmamente lhes dou toda a minha atenção, seu trabalho está feito e elas podem relaxar.

Possa eu aprender a olhar para mim mesmo com olhos de compreensão e amor.

Esta linha não tem preço, porque vai direto ao coração da dor auto-infligida. Ajuda também a remover um dos maiores obstáculos entre as relações que eu preciso construir e eu. Por trás dessa linha está a sabedoria de que, até que sejamos capazes de compreender, aceitar e amar a nós mesmos, não seremos capazes de entender, aceitar e amar os outros adequadamente. Na verdade, sempre que pensamos que outras pessoas estão nos fazendo infelizes com a sua loucura e seu mau comportamento, é muito provável que estejamos projetando neles alguma auto-crítica ou insegurança, com medo de que isso se enraíze em nós mesmos. Para nossa decepção, encontramos essas vozes  perfeccionistas e hipercríticas em nossas próprias mentes, falando através de nossas bocas para infligir danos aos outros. Como é maravilhoso poder abandonar esse ciclo de sofrimento, começando por oferecer a nós mesmos a compaixão que nos permitirá conectar com os outros!

Que eu possa ser capaz de cultivar as sementes de alegria e de felicidade em mim mesmo.

Esta linha vem de uma visão da natureza humana como sendo um jardim, em que são plantados todos os tipos de sementes, cada uma representando uma capacidade do corpo ou da mente. Em cada um de nós há sementes de grande negatividade, de sofrimento e de destruição, ao lado de sementes de grande bondade, alegria, coragem e os mais elevados estados. Algumas destas sementes herdamos; algumas foram plantadas pela nossa cultura e história pessoal. As sementes que aguamos, sejam positivas ou não, tendem a crescer mais que as outras, chegando a dominar nossos jardins internos e nossas próprias vidas. Acho essa perspectiva está completamente alinhada com a opinião da Dra. Montessori sobre a riqueza e a bondade essencial da natureza humana, bem como sobre a importância do ambiente na autoconstrução do ser humano. O ponto importante nesta linha é que, embora seja fácil perder de vista, quando estamos sob o domínio de alguma emoção negativa, as sementes de alegria e de felicidade ainda estão lá. Nós não temos que esperar que as nossas vidas (nem mesmo as nossas salas de aula!)sejam perfeitas para que possamos ser verdadeiramente felizes.

Possa eu aprender a enxergar as fontes da raiva, do desejo ardente e da delusão em mim mesmo.

Agora, iremos além de uma clara intenção de estarmos livres da raiva, do medo e da ansiedade para procurarmos as raízes destas forças negativas em nossas vidas. Silenciosamente, profundamente e de forma consistente, olhamos para isso sem nos deixarmos levar, nos dando a chance de vermos os padrões e de entendermos como isso funciona em nossas mentes. Vendo com clareza, temos a chance de  reconstruir nossos hábitos e reorientar nossos pensamentos para algo mais positivo e mais livre.

Possa eu saber como nutrir as sementes da alegria em mim mesmo todos os dias.

Seguindo com a metáfora de sementes e a intenção de aprendermos a nos ver e nos tratar com compaixão, esta linha nos convida a tomar medidas concretas a nosso próprio favor. As sementes positivas estão lá, mas como posso cultivá-las? Tenho desenvolvido gradualmente uma lista mental de formas muito concretas de acessar as sementes de alegria e paz em mim, e tento fazer algumas dessas coisas todos os dias. Aqui estão algumas das minhas formas de acesso: fazer uma lenta caminhada na natureza; realmente ver e experimentar um céu azul, uma flor, uma pedra, ou um rosto de criança; pensar em alguém que eu amo; desfrutar de uma xícara de chá tranquilamente; dar toda a minha atenção para uma  música ou outra forma de arte; segurar o meu cão no colo; ler um bom poema ou uma matéria científica. Pode ser que a sua lista seja muito diferente; é só prestar atenção nas coisas que lhe dão alegria. No meu caso, em vez de reagir sem pensar por raiva, irritação, ou medo, eu tento parar e fazer um ou mais itens da minha lista para mim mesmo. Assim me sinto mais centrado antes de responder a qualquer situação.

Que eu possa ser capaz de viver com vigor, solidez e liberdade.

Como professor, muitas vezes penso nesta linha como uma descrição do oposto do esgotamento. Cercado como estou pelo frescor das crianças, consigo encontrar esse mesmo frescor em mim. Que eu possa ser suficientemente sólido para suportar os ventos e as ondas das experiências e suficientemente estável para oferecer a força consistente de propósito necessária para construir uma boa comunidade. Que eu possa viver como uma pessoa livre, não como escravo de minhas percepções equivocadas, apegos medrosos e aversões, da minha imagem pública ou da minha história de vida.

Que eu possa estar livre do apego e da aversão sem ser indiferente.

Os Montessorianos são pessoas apaixonadas, seguidores idealistas de uma líder apaixonada e visionária. Temos grandes expectativas e planos ousados. Temos fortes sentimentos sobre muitas coisas, fortes “gosto” e “não gosto”, longas listas de lemas e tabus. E, no entanto, esses apegos e aversões muitas vezes nos atrapalham e acabam ficando no meio do caminho da realização da nossa visão. Esta linha me ajuda a soltar as minhas certezas, tanto positivas quanto negativas, e me ajuda a viver com a mesma abertura que Montessori demonstrou; ela permitiu que um grupo de crianças de uma favela romana mudasse completamente seus pontos de vista culturalmente condicionados sobre o que as crianças são e sobre o que elas podem fazer. Isso me lembra que o oposto do apego apaixonado e do investimento do ego não é a indiferença, mas sim a atenção plena: sustentar minhas percepções e crenças com leveza e estar totalmente presente para o quer que seja trazido por cada momento.

E agora vem a melhor parte. Tendo oferecido bastante cuidado a mim mesmo, percorro as mesmas nove linhas novamente, mas desta vez a energia é direcionada para fora, para a comunidade.

Que as crianças [ou uma criança específica] estar em paz, feliz e leve, em corpo e espírito.
Que as crianças possam se sentir seguras e ter boa saúde..
Que as crianças possam estar livre da raiva, das aflições, do medo e da ansiedade.
Etc.

Para mim, o círculo se fecha dessa maneira, e eu estou pronto para entrar na sala de aula novamente para ver o que de bom pode ser feito a partir de qualquer matéria-prima que o dia nos traga.

 

mb65-caring4

 

 

 

 

*John Snyder ensinou crianças de nove a doze anos e era um administrador em Austin Montessori School, em Austin, Texas. Este artigo foi escrito em 2008, quando John ainda estava ensinando.

Você pode contatá-lo pelo e-mail  [email protected]pobox.com.

 

Tradução livre de Jeanne Pilli do original

http://www.mindfulnessbell.org/wp/2015/02/caring-for-our-children-by-caring-for-ourselves/

Cultivando o Equilibrio 

 

Veja comentários

Deixe uma resposta

Vá para cima