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Consciência, experiência intemporal

Consciência, experiência intemporal

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Por Nirvana Marinho*

Photo credit: h.koppdelaney via Visual hunt / CC BY-ND

Balsekar (1989) comenta: “Basicamente, a questão toda é que o problema para o buscador individual surge porque ele procura intemporalidade dentro da paisagem da duração ou da temporalidade: ele busca a permanência da unicidade na dualidade do fenômeno ilusório”.

Pois começamos bem um ensaio de reflexão e diálogo que é uma série de três momentos nos quais o BodyTalk é nosso contexto como prática terapêutica. Estes textos são exercícios de ser, ensaios da nossa subjetividade, um tom de intimidade para aquilo que é comum a todos nós: nossa consciência vai nos presenteando – as vezes, gregos – de existência. E, permeando tais sintaxes, a filosofia Advaita Vedanta que baliza o BodyTalk, vai se perfazendo.

Começamos com uma citação do guru Ramesh S. Balsekar (1917-2009) que, em seu livro “From Consciousness to consciousness” traz diálogos com seus seguidores e, a cada um deles, traz luz e presença à questão. Na citação, Balsekar traz enigmas a cada palavra escrita, dos quais intencionamos olhar, para, quem sabe, colapsar em nós lucidez. Sim, colapsar, desapego constante das nossas verdades para um sentir-se caindo, flutuando, pertencendo a algo maior do que nosso “quadrado”.

Balsekar diz sobre um problema grande, operante em nós: somos buscadores individuais. Buscamos a dor para crescer. Buscamos a experiência para nos sentir vivos. Buscamos algo para ter algo a dizer sobre nós. Difícil seria sem a dor, sem a experiência, sem ter algo, inclusive a dizer, porque restaria somente o tempo – um sem cronologia, sem passado, presente, futuro, sem predileções nem tão pouco certezas. Como seria?

Esse buscador surge quando justamente nos encontramos na dualidade: duração ou impermanência, ou seja, tempo marcado que quer dizer estar sob controle, ter afirmações ou mesmo dúvidas, muitas – afinal de contas, somos busca-dores – ou presença absoluta que quer dizer também uma espécie de vazio, um tom de estar em meditação todo o tempo, um estar no coração sendo ele um cérebro de extrema sabedoria do que é real.

Balsekar fala justamente da ilusão do fenômeno – afinal de contas, ganhar dinheiro, ter emprego, se sentir amado, estar ou não casado, ter ou não filhos, estar ou não em paz com seus pais são fenômenos, fatos, que almejamos. Embora parte de nós saiba que são ilusões, são temporários, o que neles está é impermanência – podemos perder dinheiro ou emprego e ter de novo, podemos nos sentir amados e depois não mais, podemos casar e nos separar, temos a sensação de que os filhos são nossos mesmos ou que tudo bem não tê-los caso não possamos, e, ainda sobretudo, estar em paz com nossos pais não seria um privilégio de muitos. Dessa maneira, o que neles se apresenta é mesmo não permanente. Não haveria a desejada segurança e conforto que o controle parece ofertar quando nos dá certeza de que nos manteremos seguros com dinheiro, reconhecidos com emprego, amados porque aqueles que queremos, aceitos por nossos pais e mitificados por nossos filhos. Pareceria perfeito se assim fosse, não é mesmo?

Ilusão é justamente a nossa capacidade de acreditar que o controle é uma forma de consciência, quando, na verdade, nos cega dela. Porque nos distancia da capacidade de estar no momento presente, ou ainda, de sentir dor como forma inerente de vida. Isso exigiria de nós, constantemente, aceitação. Veja que não escrevi resignação, nem resiliência, nem tão pouco subjulgo nem submissão. No controle, há forma de poder. Na ilusão, há altos e baixos. Na aceitação, há.

Estamos falando, portanto, da compreensão das dualidades das quais a ilusão nos emprega. De um viver somente se… tiver dinheiro, emprego, amor, família – e o que talvez eu queira com isso é ser aceito, amado, reconhecido. Tais presentes particípios são, na verdade, o ego buscando sobrepor-se.

Ao invés disso, nosso exercício de consciência seria, segundo o que Balsekar nos apresenta, estar – e compreende-se aceitar – a intemporalidade. Segundo dicionário, imtemporalidade é “tudo aquilo que se solta no espaço temporal e viaja fora do tempo. Passa a ser intemporal aquilo que permeia todos os universos paralelos e que se faz presente em todas as dimensões, não existindo o tempo, porque ele pertence a tudo que foi, é e será” (Thaumaturgo). E neste mesmo registro, o exemplo é que tudo que vivenciamos – amor, família, etc – permanecem intemporais em nosso corpo, em nosso campo energético e também fora do corpo, no espaço, no campo, como chamamos ao reconhecer registros inscritos em todos nós. Nossas histórias.

Então, pera! Quer dizer que além de me iludir de estar no controle, de ter opções e escolhas a que chamo de conscientes, o que me faz notadamente me sentir distinto e portanto separado, é isso também que me causa a angústia e saudade de não pertencer ao todo?!

E ainda, ao invés disso, consciência pode ser justamente a inscrição impermanente de minhas histórias no meu corpo, no espaço, em mim e no outro, intemporal?

Sim, isso mesmo.

*Nirvana Marinho (CBP, Certified BodyTalk Practitioner (CBP), Terapeuta certificada IBA International BodyTalk Association)

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  • Belíssimo texto! Uma viagem à noção da intemporalidade que me vem quando me sinto eu mesma independente da idade que o espelho me mostra, também quando vejo meus filhos que para mim são intemporais, não tem um tempo, eles são o que são, independente da idade. Estou nesse caminho de entender, sentir que não controlamos nada e assim penso: nossas escolhas seriam nossas mesmas? tudo é mais fácil quando nos entregamos a essa intemporalidade e passamos a ouvir o som do universo porque tudo é eterno nesse mundão de energia em que flutuamos!

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