Consciência de coração aberto e nossas tais escolhas

Por Nirvana Marinho*

by Kadaltik on Visualhunt.com / CC BY-NC-SA

Tenho me provocado, com alguma frequência, a debater e esbarrar em situações nas quais o livre arbítrio é questionado. Por questionar compreende-se: o que seria de nossos princípios existenciais se o livre arbítrio não fosse uma lei irremediável? O que seria, ainda, um viver no qual a escolha não fosse a questão, mas a questão seria estar no coração para fluir com sabedoria na vida? Sim, sim, é bem diferente. Vejamos.

Pautamos – e escolhi bem o verbo para expressar o que intenciono – nossa vida em nossas escolhas que, por sua vez, nos são dadas como benéficio – grande parte da nossa história cristã e espiritualista se baseia nisso – e são oportunidades de cumprir com o que mesmo? Destino, desígnio, propósito? Ou seja, escolher pressupõe, em alguma medida, que algo deve ser cumprido – dentro ou fora de você – por inspiração ou por expectativa: “de você, espero o melhor”,  “não me decepcione”, “sabia que você chegaria lá”, “seja um bom menino”. Ou ainda, tais mesmas frases podem partir de você mesmo – faça aí, agora, algumas delas a partir da pergunta “o que você intenciona com suas escolhas?”. (Reticências).

As escolhas sugerem liberdade – da qual não abrimos mão de jeito nenhum – e se escolhermos bem, nosso usufruto é que a vida estaria sob controle. Contrário disso, caso escolha mal, sua vida sai do prumo e você pode entender esta reação ou resposta da vida como castigo ou ainda como consequência; afinal de contas, você não soube escolher bem. Caso o possa, seu foco, inevitalmente, parece te direcionar para o controle – ponto muito importante desta nossa divagação – porque escolhendo, te restaria manter-se no propósito, “não desvie o caminho”, “não perca as rédeas”.

Para te propor respirar agora, vou te contar algo aparentemente distinto da argumentação até aqui. Filósofos da linguagem nos mostram um tipo de enunciado a que chamamos de performativo o qual ao afirmar uma ação, ela se performa, acontece, se torna um contexto visível ou verificável. Por exemplo, “eu te batizo” nos mostra factualmente todo contexto religioso, todo significado em torno e todas as crenças que derivam desta afirmação e acontecimento. Assim, parece-nos que “seja um bom menino” e “não perca as rédeas“ são enunciados que performam um estilo de viver. Grande parte deste estilo parte do seu poder de escolha, afinal, seja integralmente responsável por suas escolhas e consequências.

Isso me faz lembrar também um vídeo que vem mudando minha percepção há tempos cujo enunciado é “é possível nunca ser magoado?”, do guru Krishamurti (https://www.youtube.com/watch?v=iiMjVsGqqIM). Neste vídeo – por favor, assista, talvez várias vezes – ele comenta da imagens que temos de nós mesmos. Imagens estas que podem ser entendidas como máscaras com as quais atuamos no contexto, com o outro, no mundo, nas relações. Imagens que funcionam e se correlacionam com o que aprendemos. Imagens estas que  se magoam com o que os outros apontam de nós mesmos. O que dizem sobre nós seriam as escolhas das quais nos orgulhamos ou nos arrependemos e que, portanto, são reveladas nestas imagens – “na verdade, esperava mais de você”, ofensa esta que nós lemos como “seu burro, como pôde ter feito tamanha besteira”; ou, “eu quero te dar tudo que você merece”, imagem esta que corresponde a “eu preciso ser mais do que sou”.

Nosso exercício foi, até momento, perceber as implicações que a pauta do livre arbrítrio impetra – sim, com força quase que jurídica, sugere julgamento e sentença – se escolheu bem, é elogiado, nos sentimos aliviados com nossa auto imagem; se escolheu mal, somos julgados ou até condenados, quiça, nos subjugamos a nós mesmos – “como pude fazer tamanha besteira”.

Com esse percurso, temos um risco aqui que deve ser pontuado, atentamente: um dos principais propósitos do livre arbrítrio é gerar responsabilidade – princípio este inegociável. Mas aqui, gostaria de divagar sobre como compreendemos responsabilidade. Pode ser um peso ou determinante sobre nosso propósito – “se eu não for o que esperam de mim ou o que desejo, nunca me perdoarei de não ter vivido tudo que sempre sonhei” – ou pode ser uma inspiração – “estou presente em meus atos e pensamentos a tal ponto que me responsabilizo por cada interação que estabeleço com minha vida”. O primeiro, tem o coração fechado, o segundo, tem o coração aberto.

Aí está a diferença do livre arbrítrio. Caso você precise acreditar nele – porque se desfazer dessa crença é uma quase morte dos nossos princípios – tudo bem, de verdade. Mas te convido a sentir o livre arbrítrio no coração, aberto. Este que nos coloca não mais nas imagens que nossa mente constrói de nós mesmos e muito menos nas imagens das quais ainda devemos algo – aqui a culpa por ter agido de certa forma ou a vergonha de ser algo que não se espera de você atuam como algoz. Culpa e vergonha não parecem ser úteis para constituir responsabilidade. Coração aberto entende responsabilidade como presença, portanto, caso e quando falhar – e serão inúmeras vezes que suas “escolhas” vão falhar – um grande “sinto muito” é mais que suficiente. É amoroso, é honesto, é construidor de vínculos que nutrem.

Sim, escolher não pode ser subnutrir. Responsabilizar não pode ser uma anemia com a qual você sempre se sente em dívida, inclusive consigo próprio. Escolher e responsabilizar-se no coração aberto é um fluir atento a vida, grato e constantemente…. sim, se divertindo. Um outro tipo de alegria parece surgir. Uma alegria sincera, que pode advir de outra tristeza real ou outros tantos sentimentos possíveis.

Estar presente é estar no dharma – um estado de graça na vida, onde você e seu propósito se tornam uma centelha integrada. “Eu sou” consciência (Nisargadhata) e “consciência é tudo que há” (Balsekar).

Consciência parece surgir em outro desenho – não são nossas escolhas que são conscientes ou inconscientes, ou não são as escolhas aquelas que nos garantem estar na consciência. É o coração aberto que entende consciência e atuar nesse desenho em branco é dançar com os dias, as pessoas, com os amores, com o trabalho, com seus filhos, com suas frustrações, com sua história, com seu limite -…. –  a música que se faz, inexoravelmente, como uma poesia que inclui tudo isso aí – limite, dor, frustração, amor, alegria, e qualquer outro estado possível. Porque estes sentimentos não são mais consequências de más escolhas, ou de boas escolhas. São. Fazem parte. E sabemos lidar com elas, sim, porque estamos aprendendo. Responsabilizando no momento presente. Estou aqui, sendo lida e te lendo ao mesmo tempo. De coração aberto.

*Nirvana Marinho (CBP, Certified BodyTalk Practitioner (CBP), Terapeuta certificada IBA International BodyTalk Association)

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