Companheiros espirituais: uma nova forma de amar?

Por Adriana Abraham*

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Novos tempos pedem novas formas de se relacionar. O modelo familiar que funcionava antes, mesmo que ao sacrifício de uma das partes, já não se aplica mais a sociedade de hoje. Basta observar que muitas pessoas estão preferindo ficar sozinhas. Algumas mantêm apenas relacionamentos superficiais por temerem o sofrimento causado por uma eventual decepção com o parceiro. Outras, resignadas, já não sentem vontade de se expor a uma nova experiência. Envolver- se implica em riscos. Quantas experiências negativas são necessárias para minar a fé de uma pessoa?

Todos nós conhecemos aquele amigo (a) inteligente, atraente, de bom caráter, enfim, possuidor de inúmeras qualidades, que, apesar disso, está sempre sozinho (a). Passamos a nos acostumar com sua presença solitária. Depois de certo tempo, deixamos até de apresentar pessoas novas ou perguntar de sua vida amorosa. Algumas vezes até questionamos sua sexualidade de forma maldosa.

Será que é possível repensar esses estigmas da nossa sociedade? Ao menos revisitá-los para conferir-lhes um novo significado?

O coração é o primeiro órgão formado no útero. Isso diz alguma coisa, não? Primeiro o coração, depois a razão. Quantas vezes suprimimos nossos reais sentimentos em busca de proteção e segurança. Principalmente aqueles que fazem de tudo para evitar a temida separação. Monja Coen, em seu texto intitulado “Separação afetiva”, afirma que o medo da solidão faz as pessoas suportarem o insuportável. Essa é a outra face da moeda. Relacionamentos compostos de dois seres solitários e profundamente infelizes. O que não se confunde com dois seres independentes que se unem sem se anularem.

Então, o que seria essa nova forma de se relacionar, na qual fosse possível conhecer o outro sem medo dos riscos?

Nesse ponto entra a fé. Antes mesmo do amor e da compaixão. A fé como ingrediente mágico que torna tudo possível. Até mesmo quando as circunstâncias não ajudam. Até mesmo quando tudo parece impedir a união. Monja Jetsunma Tenzin Palmo, em seu vídeo intitulado “Amor romântico e amor genuíno”, afirma que há uma grande e fundamental diferença entre o amor e o apego.

Assim, quem tem apego ao parceiro não confia no fluxo da vida. Não acredita na grande sabedoria contida em si mesmo. Porque amar sempre vai implicar em grandes riscos. E um dos principais riscos é o da impermanência. Amar sabendo que nada permanece o mesmo.

Um relacionamento espiritual é baseado na fé inabalável na relação a dois. Ambos querem estar juntos apesar das circunstâncias. A felicidade de ambos é de suma importância, senão a relação não se sustenta. O objetivo de cada um é fazer o outro se desenvolver em sua missão de vida. Não se trata de “almas gêmeas” e sim “companheiros espirituais”. Não há espaço para competição, pois ambos estão buscando a plenitude juntos, mesmo que cada um a seu tempo.

Isso não significa em absoluto que ambos estão livres de sofrimento. A maturidade emocional necessária para enfrentar os desafios de uma relação a dois é que torna tudo possível. A observação dos próprios sentimentos e atitudes é fundamental para evitar a repetição de padrões negativos do passado. É preciso coragem para aceitar as suas sombras e não transferi-las ao parceiro.

Quando temos fé, conseguimos amar com compaixão. Amar o que o outro permite que vejamos e não o que queremos ver. Amar o que o outro nos oferece e não o que queremos receber. Amar mesmo que ambos já não compartilhem o mesmo lar. Amar colocando a atenção plena nas necessidades do outro, sem se anular. Amar sabendo o momento de partir ao perceber que não há mais o que aprender com o outro. As lições não devem ser repetidas.

Evitar relacionamentos amorosos por temer as consequências prolonga nosso aprendizado. Sempre há o que aprender com o outro. Ninguém entra em nossas vidas sem um propósito. Basta que deixemos esses “mestres” nos ensinarem as lições que precisamos aprender. Sem medo de correr riscos e com muita fé!

Adriana Abraham

*Adriana Abraham é advogada, com mestrado em Direito e Economia, escritora, com cursos nas áreas de yoga e meditação.  Solteira, sem filhos. Carioca e há quase cinco anos residindo em Brasília.

5 Comentários

  1. Lindo o seu texto!!!
    “O medo da solidão faz as pessoas suportarem o insuportável”, ainda não li mas, vou ler o texto de Monja Coen.
    Valeu pela dica!
    Abraço!

  2. Adorei o texto, Dri! Acredito com certeza que aprendemos com todas as experiências que são apresentadas pela vida; mesmo que não tiremos nota máxima, alguma coisa sempre fica, nos empurra na direção que devemos tomar e dá ferramentas para seguir em frente. Um grande beijo

  3. uma advogada cheia de compaixão. raro e lindo.

  4. Parabéns pelo texto, Adriana!
    Fantástico!
    É muito bom quando compreendemos que num relacionamento um é “mestre” do outro e que tudo que projeto na minha parceira, é meu.
    Eu cresço quando assumo a responsabilidade pelos meus sentimentos e tiro um enorme peso da minha parceira e abrimos um novo caminho para crescermos juntos.
    Abraço!

  5. Sempre achei que a gente não tem que buscar a felicidade e sim, ajudar na felicidade pro outro. Se os dois fazem isso, os dois serão felizes. Um estará sempre contribuindo para a felicidade do outro e não importa papel, título, estado civil, etc. O difícil está em encontrar um parceiro tão altruísta quanto o outro, porque o egoismo é inerente a alma . Sim, as famílias mudaram. E quer saber? Isso é muito bom!

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