Como sair das amarras do ciúme

Nowmastê

Do blog de Sri Prem Baba

Entenda melhor como o ciúme rouba sua energia

A primeira coisa a ser compreendida a respeito do ciúme é que ele não tem relação com o outro, apenas com você. Porém, um dos principais truques do ciúme é a distração, que te faz ficar olhando para o outro, atribuindo sua emoção a alguém e te fazendo construir uma história que é repleta de comparações: “eu estou com ciúme de fulano ou ciclano”. A pessoa tomada pelo ciúme se sente menos e, por isso, vai sempre encontrar motivos para reafirmar a sua inferioridade, afinal toda a comparação serve para reafirmar o seu sentimento de inferioridade. O fato é que você pode passar muito tempo distraído com essas novelas a respeito da comparação, fazendo com que toda a sua energia vá embora…

Então, o primeiro insight sobre o ciúme é que ele não tem relação com o outro, apenas com você mesmo. O segundo insight é que ele é filho da luxúria e, portanto, está intimamente ligado à sexualidade. Você tem ciúme dos objetos e pessoas que a luxúria colocou o olhar, algumas presas que ela elegeu para poder exercer domínio, já que ela se alimenta da energia do outro. Quando ela sente que a possibilidade de não ter mais essa fonte de alimento, surge o ciúme. Portanto, o terceiro insight é que o ciúme está associado ao medo da perda e em última análise, à insegurança quanto a sua identidade sexual – se você não confia em você como homem ou mulher, inevitavelmente vai sentir ciúme.

Para entender melhor o ciúme e suas amarras, é preciso compreender a luxúria, já que ele, assim como a sedução e a possessividade, são seus filhos. A luxúria se manifesta quando o ‘eu’ inferior contamina o impulso erótico, fazendo com que você use a energia sexual para ter poder sobre o outro, para transformá-lo em um escravo e satisfazer as suas carências. Isso pode acontecer de uma forma bastante inconsciente. Em algum momento, no decorrer dos ciclos da evolução, a luxúria se emancipa e transforma-se em devoção, te conduzindo ao Senhor. Em algum momento, a entidade humana em evolução se cansa de sofrer começa a buscar respostas do porquê as coisas estão sempre acontecendo dessa forma, criando situações de sofrimento.

Eu tenho ensinado como evoluir no processo de transformação da luxúria aproveitando o relacionamento como material de escola, e compreendendo que a relação é um instrumento poderoso de aprendizado e aferição, que possibilita que você se situe na jornada. Para que você possa tomar consciência de como você está em relação à liberdade observe se você se sente livre e se está podendo deixar o outro livre. A liberdade é um fruto do amor que somente se manifesta quando você pode purificar o sistema dos pontos de ódio e medo, podendo aos poucos, abrir mão desse mecanismo de defesa que é a luxúria. Ao libertar a energia erótica do medo será possível sentir um amor profundo pela vida e pela existência, amor ao qual damos o nome de devoção, que nada mais é do que um florescimento que permite redirecionar a energia sexual para Deus. Mas isso é natural, não se pode forçar acontecer.

“O ciúme está associado ao medo da perda e em última análise,
à insegurança quanto a sua identidade sexual
– se você não confia em você como homem ou mulher,
inevitavelmente vai sentir ciúme.”

Como é que você pode sentir devoção se você está atormentado pelo ciúme? Nesse estado é possível ter vislumbres da devoção, mas não uma devoção firme e constante, porque a luxúria rouba a cena… Você quer direcionar a sua energia para Deus e talvez já possa se colocar nessa direção para manter a devoção acordada, mas quando menos espera, é assaltado novamente pelo ciúme!

Então, antes de mais nada, é preciso reconhecer o ciúme para poder transformá-lo. Se você reconhece que está na escuridão, você acende uma vela e a escuridão desaparece. Se você tentar lutar contra o ciúme não conseguirá vencê-lo porque não é possível vencer a escuridão, já que ela é a ausência da luz e não tem existência própria. O que você pode fazer é aumentar a sua percepção a ponto de perceber a insensatez do ciúme, a ponto de perceber que ele é bobo e não tem sentido.

Talvez, antes de chegar nesse estágio, de ampliar a percepção para tirar a força do ciúme, você tenha que conhecê-lo melhor. Como já disse, ele tem a ver somente com você, por mais que tudo conspire a favor da crença de que o outro é responsável por ele. Lembre-se que isso é uma ilusão, pois ele nasce da sua insegurança, do fato de você não confiar em si mesmo.

É muito natural sentir ciúme se você está vinculado a alguém e essa pessoa resolve ir noutra direção. Especialmente se o outro está sendo canal da luxúria e jogando com você; querendo justamente roubar a sua força e fazer com que você se sinta inferiorizado e impotente. Isso acontece porque você de alguma forma está chamando isso pra si, porque o ciúme precisa dessa energia para continuar vivo.

Vamos supor que o outro esteja indo para outra direção (independentemente de estar fazendo um jogo ou não). É natural que você sinta um esvaziamento da energia, porque ela (a energia do outro) estava com você e foi para outra direção, trazendo desconforto e tristeza ou a dura constatação de que ele não te ama — que não está te priorizando da forma que você esperava. Compreenda isso como uma chance para deixar o outro livre, inclusive para não te amar. Se ele realmente tiver algum sentimento mais profundo por você, irá voltar. Porém, somente se o seu orgulho permitir e, se vocês chegarem a um acordo, será possível retornar.

“Quanto maior o ciúme, maior é o sentimento de impotência que você carrega,
e quanto maior o sentimento de impotência mais claro é
que existem partes do seu Ser trancadas em negação.”

O que eu quero dizer é que existe realmente uma sensação incômoda que surge a partir do esvaziamento da energia que vinha do outro, mas o ciúme pode se apropriar também desse desconforto, porque ele quer continuar vivo e precisa de alimento.

Existem situações em que o ciúme fantasia uma série de coisas para continuar repetindo o drama. Muitas vezes, nada está acontecendo mas ele precisa acreditar que está sendo abandonado, trocado e traído, porque isso lhe dá um senso de identidade.

Então, quanto maior o ciúme, maior é o sentimento de impotência que você carrega, e quanto maior o sentimento de impotência mais claro é que existem partes do seu Ser trancadas em negação. Permita-se conhecer essas partes da sua personalidade; abra-se para o autoconhecimento. Se você já conhece o ciúme e suas raízes, o que está acontecendo é que você não consegue dominar o vício de sentir ciúme (porque ele te vicia em acreditar que está sendo abandonado, trocado e enganado), mas se já tem consciência de que é um vício, o seu trabalho é apenas ampliar a percepção. Amplie a consciência daquele que habita o corpo. Mantenha a presença e, na medida em que a consciência for se expandindo, você vai começando a achar o ciúme estúpido e, aos poucos, você se cansa dele, como uma criança que já brincou bastante com um brinquedo.

Ainda sobre a luxúria é preciso saber que, inevitavelmente, ela está associada ao ódio e à inveja, porque nasce desse sentimento de inferioridade. É por isso que vem a inveja do outro, e inveja até de si mesmo, onde você inveja a parte em você que está começando a despertar e sabota o próprio despertar. Ela é uma maneira de desmerecer o valor do outro, de rebaixá-lo para o mesmo lugar em que você acredita que se encontra. É um impulso de destruir o objeto que você cobiça. Por trás dela está a luxúria, que nada mais é do que uma briga por território, da mesma forma que o macho alfa e a fêmea alfa brigam pelo comando e supremacia do grupo. Se a luxúria tivesse voz – e muitas vezes tem – ela diria coisas como “eu comando”, “eu tenho o poder sobre as mulheres ou sobre os homens.” Em resumo, a entidade quer ser dominante, porque assim ela sente alívio da sua carência e da sua dor.

Esse assunto não é agradável, eu reconheço, mas precisamos caminhar em direção de relacionamentos sem ódio. É possível sexo sem ódio? É possível fazer com que essa energia esteja conectada com o coração? É possível estar com alguém de forma realmente honesta? De fato, com o coração aberto, querendo ver o bem do outro? É possível uma relação de transparência e intimidade? É possível entrar numa relação sem querer fazer do outro um escravo para atender as suas exigências?

Quando você evolui nessa esfera, naturalmente a devoção começa a brotar no seu coração. Mesmo ainda enredado na teia da luxúria, você tem um vislumbre de pura devoção sem que consiga sustentá-la por muito tempo. Você vai vivendo esses altos e baixos, até que, em algum momento, a alquimia se complete.

Eu não posso explicar o desabrochar de uma flor. Eu não posso explicar a devoção, eu posso apenas lhe mostrar. Não tenha pressa. Lembre-se de que o rio corre sozinho. Pouco a pouco, essa alquimia vai acontecendo. Devagar o medo se transforma em confiança, e o ódio em amor. Devagar, você transita do estado de separação e isolamento, para o estado de união. Entenda as situações da vida como oportunidades de crescimento. Esteja aberto para receber o ensinamento que elas trazem. Essa abertura para aprender já é suficiente. Que possamos iluminar a devoção.

*Prem Baba é um mestre espiritual nascido no Brasil, há 50 anos, em São Paulo (SP). Batizado na igreja católica como Janderson Fernandes, filho de uma família de classe média/baixa paulistana. Reconhecido aos 36 anos por seu guru, Maharaj Ji, na Índia, como mestre da ancestral linhagem Sachcha, Prem Baba tem atualmente milhares de discípulos espalhados por vários países.
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