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Como passamos a desejar um trabalho que amemos

Como passamos a desejar um trabalho que amemos

Nowmastê

Alain de Botton, via The School of Life

Uma das características mais extraordinárias e, ao mesmo tempo, comuns de nossa era é presumir que conseguiremos encontrar um trabalho que não apenas toleramos, ou aguentamos pelo dinheiro, mas apreciamos profundamente – por seu alto grau de propósito, camaradagem e criatividade. Não vemos nada estranho na noção interessante de que devemos tentar encontrar um trabalho que amemos.

Durante a maior parte da História, a questão de podermos amar nosso trabalho pareceu risível ou, simplesmente, peculiar. Aramos o solo e cuidamos dos animais, trabalhamos em minas e esvaziamos mictórios. E sofremos. O servo ou lavrador só poderia esperar pouquíssimos momentos de satisfação, que estavam fora dos horários de trabalho: o festival da colheita no ano seguinte ou o dia do casamento do filho mais velho.

A hipótese correspondente era a de que, se alguém tivesse dinheiro suficiente, simplesmente pararia de trabalhar. As classes educadas na Roma Antiga (cujas atitudes dominaram a Europa durante séculos) consideravam todo trabalho pago como inerentemente humilhante. O interessante é que sua palavra para negócio era negotium – literalmente, ‘atividade desagradável’. O lazer, não fazer nada, talvez caçar ou promover jantares, era considerado a única base para uma vida de felicidade.

Então, no final da Idade Média, começou uma mudança extraordinária de mentalidade: algumas pessoas passaram a trabalhar por dinheiro e por satisfação. Uma das primeiras a buscar essa ambição altamente incomum com sucesso foi o artista veneziano do século 15 Tiziano. Por um lado, em seu trabalho ele se deleitava com os prazeres da criatividade: mostrando a forma como a luz incidia sobre uma manga ou desvendando o segredo do sorriso de um amigo. Entretanto, ele acrescentou algo muito incomum a isso: era extremamente interessado em ser bem pago. Era bastante astuto quando se tratava de negociar contratos para fornecer retratos e aumentou sua produção (e margem de lucro) ao estabelecer um sistema de linha de assistentes que se especializavam em diferentes fases do processo de produção. Foi um dos iniciadores de uma nova ideia profunda: a de que o trabalho poderia e deveria ser algo que você amasse fazer e, ao mesmo tempo, uma fonte de renda decente. Foi uma ideia revolucionária que gradualmente se espalhou pelo mundo – e, agora, reina suprema, influenciando nossas ambições sem que, talvez, nem notemos, ajudando a definir as esperanças e frustrações de um contador em Baltimore ou um designer de jogos em Limehouse.

Tiziano introduziu um fator complicador na psique moderna. Anteriormente, você buscava satisfação fazendo algo como amador e não esperava ganhar dinheiro por seus esforços ou trabalhava por dinheiro e não se importava muito com gostar ou não do trabalho.

Agora, por causa da nova ideologia do trabalho, nenhuma das novas opções é aceitável. As duas ambições – dinheiro e satisfação própria – tinham de conviver. Bom trabalho significava, essencialmente, trabalho que penetrava nas partes mais profundas do seu ser e podia gerar um produto ou serviço que pagasse pelas necessidades materiais de alguém. Essa exigência dupla trouxe uma dificuldade particular na vida moderna – a de que devemos buscar simultaneamente duas ambições muito complicadas, embora estejam longe de ser inevitavelmente alinhadas. Precisamos alimentar a alma e pagar por nossa existência material.

Interessantemente, não é apenas em torno do ideal de um trabalho que desenvolvemos altas ambições combinando o material com o espiritual.

Algo muito semelhante aconteceu com os relacionamentos. Durante a maior parte da História humana, teria sido extraordinário supor que era necessário amar (em vez de simplesmente tolerar) seu cônjuge.

O objetivo do casamento era inerentemente prático: unir terras adjacentes, encontrar alguém que seria bom em ordenhar vacas ou que pudesse gerar filhos saudáveis. O amor romântico era algo diferente (poderia ser bom durante um verão aos 15 anos ou procurado com uma mulher que não é sua esposa após o nascimento do sétimo filho).

Então, por volta de 1750, uma mudança peculiar também começou a acontecer aqui. Começamos a ficar interessados em outra
ideia extraordinariamente ambiciosa: casamento por amor. Um novo tipo de esperança começou a obcecar as pessoas: que era possível ser casado e admirar e simpatizar adequadamente seu cônjuge. Em vez de existir dois projetos diferentes – casamento e amor –, surgiu um novo ideal, mais complexo: o casamento com paixão.

O mundo moderno é construído em torno de visões esperançosas de como coisas que anteriormente pareciam separadas (dinheiro e realização criativa, amor e casamento) poderiam ser unidas.

São ideias generosas, democráticas de espírito, cheias de otimismo sobre o que podemos atingir e intolerantes quanto a antigas formas de sofrimento, mas também têm sido – na forma como tentamos agir com relação a elas – catástrofes. Elas constantemente nos decepcionam. Trazem impaciência e sentimentos de paranoia e perseguição. Geram maneiras novas e poderosas de nos sentirmos frustrados. Julgamos nossas vidas com base em padrões novos ambiciosos que continuamente sentimos não atingir.

Para complicar tragicamente, definimos metas tão impressionantes para nós mesmos que também tendemos a nos convencer de que a maneira de atingi-las não é essencialmente difícil. É, simplesmente um caso, presumimos, de seguirmos nossos instintos. Encontraremos a relação certa (que une paixão com a estabilidade prática cotidiana) e uma boa carreira (que une a meta prática de ganhar uma renda com uma sensação de satisfação interna) ao seguirmos nossos sentimentos.

Confiamos que simplesmente desenvolveremos um tipo especial de empolgação emocional na presença da pessoa certa ou – assim que terminarmos a faculdade – sentiremos uma atração confiável na direção da carreira certa para nós. Colocamos uma parte decisiva de nossa confiança no fenômeno do instinto puro.

Na The School of Life temos uma série de Aulas, Workshops e Intensivos para tentar corrigir essa hipótese – e nos equipar com ideias com as quais realizaremos melhor as ambições admiráveis (mas, na verdade, tremendamente difíceis) que cultivamos sobre nossas vidas profissionais.

Publicado por Alain de Botton em 28 Apr 2017

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