Meu mestre era cachaceiro

Por Paula Gama

Essa foi a descoberta mais chocante que tive quando fui estudar no Instituto Naropa, no meio dos EUA, Colorado, em Boulder, essa cidade que meio parece um sonho. Linda, beirando as encostas rochosas do Colorado; se pode ver a neve no topo das montanhas em qualquer época do ano. Lugar mágico que acomoda a maior comunidade budista dos EUA, o centro do ensino do Rolfing, a única universidade budista do ocidente, e por ai vai.

Aportando no Naropa fui logo frequentar uma conferência sobre espiritualidade na educação e encontrei uma discussão sobre um tema que nem eu sabia que  era pensado entre educadores. Mas eles estavam lá pensando e discutindo o que era a espiritualidade – vejam bem, não a religião-, nas escolas. Essa discussão pode abrir mais um tópico, mas quero aqui falar sobre um outro assunto…

O Instituto Naropa foi fundado por Chogyam Trungpa Rinpoche em 1974. Monge budista fugido do Tibet em 1959 pós invasão chinesa, Trungpa foi daqueles que cruzou o Himalaia a pé e que poderia estar aqui vivo pra contar não fosse pelo fato dele ja ter falecido de…muita cachaça.

trungpa
Chogyam Trungpa Rinpoche.Muito além do politicamente correto.

Trungpa era o que aqui na terra chamamos de alcoólatra. E assim descobri que meu mestre budista tinha morrido disso aos 48 anos. Fiquei completamente passada. Como assim? Ele não era budista?

Enfim, quem sabe do que estou falando sabe que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ser um mestre espiritual tem pouca ou nenhuma relação com seu comportamento ou personalidade. Excêntricos, ladrões, assassinos povoam as estórias dos mestres e discípulos das tradições de muitas religiões. A era do politicamente correto é bem mais recente do que a história da humanidade.

Bom, eu já era completamente fã do Trugpa antes de saber que ele era cachaceiro e tive que me render a trabalhar em mim esse novo conceito: meu mestre era um libertino, um ser que queria mostrar a um ocidente dos anos 60/70 que tudo bem você ser um louco e ainda assim querer ter uma prática espiritual. Um quebrador de regras e padrões, chegava nas palestras trançando pernas e quando abria a boca liberava palavras que são muito mais benéficas a humanindade do que a maioria das pessoas sóbrias durante toda uma vida. Homem iluminado, ousado, deixou um legado, entre escolas e centros de meditacão e uma biografia extensa e profunda no espaço de uma vida terrena brevemente interrompida.

Três filhos, o mais velho é herdeiro atual do trono de Shambhala, a sociedade iluminada de onde veio a visão maior de Trungpa e que o inspirou a criar o Caminho do Guerreiro, treino de ensinamentos e prática que os alunos cumprem pra absorverem e experimentarem o teor dessa sociedade iluminada. Um gênio com quem eu não posso nem quero questionar um vínculo de amor a primeira vista, que tive desde que li seu livro introdutório do mundo de Shambhala e de que pratiquei com disciplina a meditação que ele trouxe lá das entranhas do Tibet para os ocidentais.

Não existe nem um pedaço em mim que não admire esse homem incondicionalmente e não tenha uma gratidão profunda por ele ter trazido todo esse precioso conhecimento que me ajudou a viver de uma forma muito mais livre e prazerosa. Sim, eu acredito que a espiritualidade tem a ver com abrir as possiblidades de viver e não limitar a vida a um monte de regras que a tornam um terreno de repetição de medos.
Enfim, esse cara é quente. Um amor profundo que mora no meu coração.

 

 

 

 

3 Comentários

  1. Difícil quebrar esse paradigma tão arraigado em nossa cultura ocidental: espiritual = perfeito/ sem vicios/sem falhas. Mas é um exercício poderoso. Se podemos aprender com nossos inimigos e as piores pessoas que nos machucam e ofendem, porque nosso mestre, não poderia nos ensinar muitas coisas mesmo tendo suas falhas? É um novo conceito a se absorver!

  2. Acredito nessa entrega.

  3. Luiz Armando Ferracini diz:

    Magnífico!

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