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Chá & Feldenkrais

Chá & Feldenkrais

Nowmastê

Por Nathalia Leter*

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Uma arqueologia da experiência poética

Pensemos assim. Diariamente, todos costumamos realizar certos trajetos de um ponto a outro na cidade onde vivemos. Vamos de casa ao trabalho, do trabalho à faculdade, do supermercado à yoga, voltamos pra casa novamente e assim por diante. Percursos que, após repetidos duas ou três vezes, passam a se tornar habituais e nos oferecem o benefício de quase não ter que pensar em como vamos fazer para chegar ao nosso destino.

Ou seja, eu não preciso acionar o Google Maps, o aplicativo Waze ou o cidadão na calçada para me informar sobre a direção toda vez que saio para buscar meu filho na escola: uma vez assimilado o roteiro, eu instintivamente tiro o carro da garagem e saio guiando como que no modo automático. Meu corpo me oferece a possibilidade de memorizar modos de executar ações ou trajetos no espaço, poupando-me o tremendo esforço de ter de reaprender tudo o que foi feito anteriormente a cada vez, dispondo-me de uma sobra de energia e liberando minha atenção para outros assuntos. Graças isso eu posso, por exemplo, cantar alegremente a música que está tocando no rádio ou elaborar a ideia do que vou preparar pro almoço enquanto dirijo distraidamente até a escola.

Essa metáfora nos ajuda a compreender a linguagem corporal, na qual também podemos falar em termos de mapas ou cartografias do vivido. É que o sistema nervoso opera por mapas, realizando incontáveis e simultâneos cálculos de direção de sinais para gerenciar cada mínima ação que executamos. Por exemplo, para buscar um alimento e traze-lo até a boca será necessário captar e decodificar os sinais visuais do alimento para perceber sua distância para, em seguida, enviar comandos de movimento até meu braço, antebraço e dedos da mão, além de outro sinal que me indique com que intensidade eu devo segurar o alimento para que não o deixe cair nem o esmague; finalmente, é preciso que eu conduza minha mão até minha boca para introduzir o alimento – supondo, aliás, que eu saiba onde exatamente fica minha boca!

Parece loucura imaginar como um gesto tão básico pode guardar tamanha complexidade, não é? Pois de fato não é simples. Afinal, estamos falando de ‘propriocepção’, ou seja, a percepção que temos de nosso próprio corpo e que nos permite nos mover conforme nossa vontade – e esse sentido pode ser mais ou menos desenvolvido. Portanto convém estudar com atenção a linguagem deste corpo que desenha caminhos internos conectados ao cérebro, responsável por enviar as informações certas para o endereço certo.

Em primeiro lugar, é interessante observar que se essa incrível capacidade de armazenar memórias  liberou tempo e energia para que o Homo sapiens pudesse se dedicar a muitas atividades e com isso desenvolver novas aprendizagens, por outro lado é preciso compreender que isso nos lança também um desafio: o de buscar sempre introduzir linhas de fuga e frestas por onde escapar do ‘modo default’, para que a repetição automática possa dar lugar à experiência. Porque onde existe ação altamente padronizada, ocorre uma perda de atenção ao que se está fazendo e, com isso, empobrecimento da experiência de contato com os ambientes.

E é aqui que chegamos ao tema de nossas mais profundas reflexões. Logo que comecei a trabalhar com os chás especiais, derivados da planta chinesa Camellia sinensis, interessei-me pelo trabalho da Cecília Gobeth, terapeuta corporal pelo Método Feldenkrais, pois intuía uma delicada e rica relação entre nossas pesquisas. Desenvolvido pelo israelense Moshe Feldenkrais, essa pesquisa somática problematiza este corpo modelado por uma série de padrões e condicionamentos que o engessam em modos muito limitados de ação e de resposta ao mundo. O trabalho baseia-se na realização dos movimentos mais fundamentais e necessários à existência, os quais, uma vez revisitados de maneira consciente, podem abrir espaço para que uma reeducação aconteça.

Por reeducação, queremos dizer que até mesmo movimentos aprendidos na tenra infância, como ficar de pé ou caminhar, podem ser remodelados à luz de uma nova orientação que sugere outras qualidades de comandos para nosso sistema. Com isso, abre-se todo um horizonte de escolhas e variações que permitem, inclusive, a descoberta de maneiras mais funcionais, saudáveis e elegantes de realizar tais ações. Em outras palavras, é possível alterar comportamentos e hábitos (mapas!) formatados no passado a partir de novos designes (novas cartografias!!!) aprendidos agora e, com isso, encontrar liberdade para traçar novos rumos em todos os aspectos.

De maneira que o Feldenkrais centra-se nas funções motoras – camada músculo-esquelética – ao passo que a experiência com os chás nos introduz ao ambiente íntimo das mucosas, dos fluidos e vias da nutrição, das funções olfativa e gustativa, ou seja, ao universo onde a vida fala em termos de pulsações involuntárias: a motilidade. A degustação de chá oferecida por mim, seguida por sequências de lições do Feldenkrais, conduzidas por Cecília Gobeth, propõe um trajeto que parte das camadas mais profundas em direção à coordenação motora: vamos da motilidade fundamental aos movimentos fundamentais. Vale ressaltar que a planta do chá possui uma singular composição química que envolve, além de substâncias funcionais e antioxidantes (catequinas, flavonoides, vitaminas etc), também suaves doses de cafeína e a preciosa L-Teanina, que atua na liberação de serotonina. Dessa aromática alquimia resulta uma bebida que estimula um leve despertar ao mesmo tempo em que libera ondas de bem estar e relaxamento muscular. O chá contém também substâncias indutoras do estado alfa, ou seja facilitando a imersão em um estado de ‘atenção flutuante’, que predispõe o organismo ao processo terapêutico.

O intuito deste encontro entre o Chá e o Feldenkrais é nos ajudar a refazer os caminhos que nos levam até as potências arqueológicas da vida, pulsando e organizando-se continuamente em nossos corpos… Das peristalses orgânicas primordiais aos impulsos que fazem emergir o movimento e a coordenação motora. É a partir desse lugar – onde tudo está sempre vibrando e inaugurando novas formas – que redescobrimos a experiência de nadar nesse vasto e intenso mar de acontecimentos, buscando meios de tornar nosso viver mais saboroso e po-ético.

(esse texto teve a colaboração de Cecília Gobeth)

 

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*Nathalia Leter

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Jornalista-blogueira, investigadora vocal e sommelière de chás apaixonada pela tradição oriental e pelo pensamento ocidental, nos pontos fundamentais onde ambos se abraçam e complementam. Desde 2006 é pesquisadora-assistente do O Caminho do Canto, orientado pela musicista Andrea Drigo. Desde sempre, interessa-se pelo estudo das escritas poéticas que nascem deste corpo em devir, imerso no acontecimento. Realiza workshops e sessões de degustação individuais ou para grupos, além de eventos gastronômicos e trabalhos artístico-terapêuticos com a dançarina e educadora somática Cecília Gobeth (Método Feldenkrais).

Contatos:

Telefone: (11) 9 8106 9177
e-mail:  [email protected]ail.com.br
blog: “O Caminho do Chá”

 

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