Canção elegíaca dos ilhados

Por Carlos Walker*

Nela nascem vários mitos e outros para ela se refugiam. A ilha é um resto de totem geográfico. Um coral vivo em carne viva quase humana, exposta às intempéries. 

A ilha recobre-se de areais, vegetações, palmeiras, lagoas, cavernas e montanhas.

São tantas entre os biombos moduláveis do tempo como a Síria vinda da palavra Sol, em sânscrito Suriâ, ilha-polar, que o poeta Homero citava muitas vezes. Assim como as ilhas hiperbóreas, as ilhas gregas ou a Ilha Aztlan, ilha-continente dos toltecas, que chamamos lendariamente de Atlântida.

A ilha é uma nave que se perdeu a caminho do céu e desviando-se caiu no mar da Terra. Nas tradições pré-católicas e muçulmanas a ilha é o Paraíso das bíblias descrevendo signos dos reinos da natureza.

A ilha é uma incrustação fenomênica. Nuvens pousam sobre a ilha, pássaros surgem e somem na cerração que a corta ao meio e a sua outra parte levita entre fumaças e nevoeiro.

Nos mitos vixinuítas da Índia aparecem as Ilhas Brancas, assim como nos mitos celtas encontramos místicas e bruxuleantes as Ilhas Verdes.  

A ilha sou eu. Um homem ilhado. Um astronauta, que ao viajar em direção ao Sol extasia-se olhando para baixo e em prantos decide retornar ao seu centro já quase naufragado.

A ilha é uma capela em que pescadores santificam dores orando e repescando seres saídos de sereias. A ilha é um peixe que assobia um segredo. O último segredo que só aos náufragos desembocados em suas praias lhes é revelado.

Mil olhos de ilhas de todas as idades na escalada zodiacal de milhões de eras elípticas e que o pião do sol vai puxando para outros sistemas planetários.

Desde seu nascimento o panteão-mor dos mitos, Zeus, seta suas aventuras a todas as direções cardeais. Por inúmeras ilhas. A ilha é o momento do clarão da morte. A ilha abre e fecha como os sexos opostos copulam sob um oráculo. Dentro-e-fora. Automático.

A ilha é uma criança que nasce e outra que morre. Na pista do horizonte da ilha, a lua gira em vórtices e escapa da pista. Durante a noite, a lua sequestra a alma da ilha e a leva num sonho. Para onde? Alguém assistiu do cais distante a ilha voar como um OVNI!!!

A ilha é uma encruzilhada de cirandas onde pessoas perdidas se reencontram.

O Japão é uma ilha-país. Como a Grã-Bretanha, ilha-feiticeira em que magos-druídas entre menires e carvalhos iniciavam seus aprendizes.

As palavras nascem nas ilhas, de minérios viram larvas e a alçam a borboletas e só depois alastram-se para outras geografias até descolarem-se como fios de metal em direção às galáxias. De lá se abrem em estrelas! Como as entradas míticas para o oco e avesso da Terra onde dizem pulsar a sagrada cidade Agartha com seu sol de plasma sobre os moradores cientes e serenos.

Ilhas são pontos nascidos do absurdo metafísico de um lapso absoluto de alguma ultra consciência cósmica. Como a imensa Groelândia, a maior e mais misteriosa residência dos esquisitos e recentes seres glaucos parecidos com os Greys emitindo gritos metálicos.

Ou Creta, Rodhes, Lesbos ou talvez Naxos ou então Ortígia, a ilha-flutuante assim como Delos e a Ilha de Páscoa ou até mesmo a surtada Lost,  Ilha da modernidade destes nossos tempos inócuos; video-ilha-apocalíptica ridícula!

Mas a ilha é invisível  assim como os discos dos chackas, subindo e girando no elevador da coluna vertebral humana tal qual um micro satélite peninsular de meteorito instalado por delegações planetárias. 

Pode ser a Ilha de Andrômeda que o calor do dia e o frio da noite são extremos insuportáveis. Ou a da vergonha e pérfidas piratarias como as Malvinas. Ou a ilha de Alcatraz com sua catraca moral quebrada. Mas pode ser também a terrível Ilha-da-Maldição-Capitalista, com seu Palácio-de-Torres cinza – o World Trade Center.

Ou finalmente a Ilha dos Bem Aventurados onde reside o Palácio Branco recoberto por joias faiscantes.

A ilha não deixará rastros e viajará para o mais oculto dos mundos subterrâneos. Em seu lugar surja talvez aquela garrafa fechada boiando à superfície com uma mensagem a bordo. A minha carta impermeável indo como um traço ínfimo… Enquanto todo o mar do Universo à sua volta devora-se em ondas gigantes de labaredas líquidas.

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Carlos Walker, IO Escola de Astrologia

Tel: 11- 97129-9876  – [email protected]

12 Comentários

  1. “A ilha sou eu. Um homem ilhado. Um astronauta, que ao viajar em direção ao Sol extasia-se olhando para baixo e em prantos decide retornar ao seu centro já quase naufragado.”
    Me sinto assim também…
    Lindo texto de Carlos Walker. Sempre um prazer mergulhar em sua cultura e a poesia que está sempre lubrificando seus textos e as nossas mentes e corações!

  2. Leonor Leopardi diz:

    Lindo!!!Como sempre Carlos Walker surpreendendo.

  3. Walker é um grande poeta, viajante de todas as formas de luz.
    Caçador bem armado de amor, vaga nos éteres, flui nas matas, olha no céu e escreve na terra.

  4. Gosto de ressignificação, Walker!
    É nesse mundo em que atribuímos novos significados que: as “ilhas” do conhecimento, as vezes fechada, limita a nossa visão de mundo;a”ilha presídio” busca pelo o isolamento junto dos seus dependentes do organismo repressor; temos também o “homem ilhado”, considerado moderno por navegar na era digital e ao mesmo tempo fechado para o mundo; não podemos nos esquecer do individuo com um “sentimento ilhado”, que não lhe dá trégua. E por fim, os que não aguentam tamanha desordem política e socioeconômica, acreditam que a única solução seria fugir para uma ilha e quem sabe “surja talvez aquela garrafa fechada boiando à superfície com uma mensagem a bordo”: dias melhores virão.
    Amo os seus escritos. Um grande beijo.

  5. Um belo e estranho texto!
    Imbuído de uma tristeza e felicidade infinitas! Como a existência humana!
    Parabéns!

  6. Valeu,queridos!
    Somos “ilhas-humanas” elegíacas, jubilosas, dionisíacas,demoníacas,angélicas,etc.

  7. Texto diferente… com uma tristeza velada por tras de cada palavra mencionada. A ilha sempre me retrata uma sensação de tristeza, isolamento e por mais paradísíaca que seja, o que nem sempre ocorre, é meio inquietante! Eu acho….
    Por outro lado, belo quando você fala sobre a literatura grega,,. ao Deus do Olimpo Zeus, segundo você o panteão-mor dos mitos, o que concordo. Homero, Creta….
    Sabe amigo, acho mesmo é que estamos ilhados num mundo caótico, maldoso, onde a verdade passou a ser objeto de luxo. e só resta mesmo a esperança, que dizem ser a última que morre, mas que a mantenho viva sempre!
    Você sempre uma caixinha de surpresas…. com textos bonitos, diferentes, meio surreais, mas que fazem pensar e nos abre a visão!
    Grande beijo, amigo querido.

  8. Carmen Alvim Fiscina diz:

    Que este texto magnifico! Uma narração tão rica que a imagem se torna real durante a leitura.
    Ler teus texto é sempre uma linda viagem.

    Parabéns Carlos Walker!

  9. EspetacuLAR‼️👀

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