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BodyTalk: Consciência como um vazio

BodyTalk: Consciência como um vazio

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Por Nirvana Marinho*

Texto em homenagem a Renata Yahn

Ao longo de 2017, tive a oportunidade de compartilhar textos sobre o BodyTalk que inclui aspectos de seu amplo protocolo de atendimento, tendo a saúde como um modo de consciência. Foram estes: (1) BodyTalk & corpo em movimento, (2) BodyTalk & meridianos em relação, (3) BodyTalk & chakras para me re-conhecer no todo, (4) BodyTalk & planetas como cartografias de sentido, (5) Química do corpo, química da alma e (6) Os cinco elementos da MTC, escuta sensível da natureza do corpo. E também, outros três justamente sobre a filosofia que baliza a prática de consciência – Advaita Vendata – tendo sido estes: Consciência, experiência intemporal; Consciência de coração aberto e nossas tais escolhas e Consciência “extra”, no final daquele ano. Ainda um restou aqui, de estudos, anotações e sobretudo do afeto e partilha feito com Renata Yahn. Portanto, ele aqui, publicado, é um gesto de gratidão ao seu sorriso.

Photo by Ben White on Unsplash.

Nisargadatta Maharaj (1897-1981), em seu livro “Eu sou aquilo” (2014), constata:

“Além da mente, não há separação” – “Vejo como você vê, ouço como você ouve, experiencio como você experiencia, alimento-me como você se alimenta. Também sinto sede e fome, e espero que alimento seja servido na hora. Quando privado de alimento ou doente, meu corpo e minha mente ficam fracos. Percebo tudo isto bastante claramente, mas, de algum modo, não estou nisto e me sinto como se flutuasse acima disto, distante e desapegado. Mesmo assim, não distante e não desapegado. Há indiferença e desapego como há sede e fome; há também a Consciência disto tudo e um sentido de imensa distância, como se o corpo e a mente, e tudo o que acontece para eles, estivessem em algum lugar muito além do horizonte. (….)”

Ramesh S. Balsekar (1917-2009), em seu livro “The seeking” (2004), faz perguntas referentes ao que lidamos recentemente em outro ensaio neste site – “existe essa coisa de livre arbítrio? Existe uma vida pré-determinada? Deus joga dados com o universo?”. Haveria mesmo o “doership”, um fazedor de destino? Seria ele aquele que reúne as condições para nossas esperanças de controle e também de sofrimento, vergonha e culpa? Balsekar diz que ambos existem: o “Eu”, que é aquele que “está apto a aceitar totalmente que “ninguém é fazedor” e o “ego ordinário”, que é aquele que “não está apto a aceitar totalmente que “não existe um fazedor””. Percebam: um ego admite que “ninguém é fazedor”, outro declara “não existe um fazedor”, ambos são egos, segundo Balsekar. Mas e se “removermos o sentido de fazedor pessoal totalmente de qualquer ego e nos tornamos “o Sábio”? O que está em jogo?

Permitam-se ficar mais um pouco com o “fazedor”, com Balsekar. Ele ensina que “o que certamente quebra com o embasamento da paz no momento é o pensamento de algo que você fez ou que você deveria ter feito, ou algo que você poderia ter feito e não fez – daí vergonha e culpa. E continua,remova a carga e você vai achar que você não tem que procurar pela paz; ausência dessa carga é a presença do que eu estou procurando”. O que consiste mesmo, então, essa tal busca?

Em nada, não há nada que você precise fazer e buscar a não ser estar em si mesmo, o que é o trabalho mais empenhado de todos. Uma ética de existência. Não há nada lá fora, nada que realmente importe. Um niilismo? Talvez, aos que se interessam por Nietzsche, Sartre, entre outros. Mas certamente uma base fundamental para filosofia Advaita Vedanta, da qual nos debruçamos aqui com estes gurus, elevando ao autoconhecimento um olhar de questionamento a respeito da verdade imputada sobre nossa jornada de auto realização ou iluminação. Seria essa uma busca mesmo? Busca do que se não do vazio?

Seja qual ego você se encontrar: “ninguém é fazedor” ou “não existe um fazedor”, nosso ofício aqui é desfazer; não há algo a ser feito que não resulte culpa, medo, vergonha porque sua lógica será a do resultado, e não da jornada. A jornada deseja somente o agora, o estar aqui, a presença, a observação, atenta, o cuidado, o amor próprio e por isso a compaixão – um não existira sem o outro. Portanto, o vazio é estar aberto ao momento. Assim a paz habita.

Nem felicidade nem paz poderiam ser postos como “a cenoura do coelhinho”, um objetivo a ser alcançado, nem mesmo a iluminação. A jornada não é menos difícil por isso, ao contrário, o comprometimento é íntegro. “Estou aqui”, “vamos observar”, “eu te vejo”, “escuto” seriam nossas provas de amor, constante, a nós mesmos e ao outro, a quem quisermos amar. Amor seria uma crença sincera de presença, e não mais uma história. A posse seria do vazio, de todas as possibilidades prováveis com este outro. O encontro seria no vazio, se pudermos sem vergonha nem culpa, seria… não mais um fardo, um peso, seria certamente mais leve. Porque, inevitavelmente, assumiria minha responsabilidade sobre minha jornada – sobre o que ainda insiste em ocupar o que deveria estar vazio, aberto – e igualmente o outro, atento a sua jornada. Jornada aa qual assistiríamos com amor, compaixão e cuidado. O vazio seria pura atenção. Consciência.

Nem a busca, portanto, nem o buscador, nem o fazedor seriam mais nossas preocupações. Ocupações antecipadas. No tempo intemporal, na presença e, consequentemente, na consciência, nossa ocupação seria o “a presença do que eu estou procurando” que é habitar o vazio e, nele, todas as possibilidades. Como viveria? Atento a elas, como se relacionam, o que me contam, o que entrelaçam, o que desavessam. Assim, poderia ser.

“Então, o que espero da autorealização ser para mim é me habilitar a viver minha vida, aceitando o que quer que o momento traga, porque eu não tenho escolha e ainda sinto-me ancorado na paz e na harmonia. Percebe?” (Balsekar)

Nirvana Marinho


*Nirvana Marinho (CBP, Certified BodyTalk Practitioner (CBP), Terapeuta certificada IBA International BodyTalk Association)

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