Atrás da pureza

Texto e fotos por Aline Micelli*

Desde o dia 29 de dezembro do ano passado participei da experiência de ficar hospedada na casa de uma amiga para aproveitar as belezas naturais de Minas Gerais. Estava mesmo precisando de férias, foram quase dois anos trabalhando sem interrupção com Yoga e com poucas viagens. Sentia a necessidade de ampliar meus horizontes. Surgiu esse convite inesperado e, como boa aventureira, resolvi embarcar no fluxo.

Assim que cheguei ao distrito de Tabuleiro, que fica na cidade de Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, fui capturada pela atmosfera que me cercava. Minha amiga optou pela simplicidade da vida na roça, deixando de lado um apartamento e o caos urbano pela casa idílica no campo, cercada de bananeiras, com piso de cimento queimado e fogão à lenha. Não era novo pra mim, que há uns 10 anos tinha feito escolha semelhante morando em Alto Paraíso, Goiás.

Lembrei dos motivos que me levaram também a trocar o conforto de uma vida supostamente fácil com fogão a gás, internet banda larga, cinema, shopping, pela vida no cerrado. Eram tantos! E todos tinham a ver com a vontade de viver uma vida honesta e simples, em contato com a natureza, trocando experiências dentro de uma comunidade e aprendendo, assim, mesmo que com alguns percalços, a ser gente.

Dizem que no passado os Yogues e Yoguines (que não eram muitas, presumo, porque Yoga não era “coisa” de mulher) se retiravam para a floresta, afastados de tudo para poder praticar. Perto da natureza era possível aprender através da observação os ciclos da vida, acompanhando a rotina dos animais, das plantas, as cheias e secas dos rios, a sabedoria da existência era sem esforço revelada. Fazendo um paralelo com os dias de hoje nesse aspecto nada mudou apenas as cidades foram povoadas de Yogues urbanos, mas todos guardam na alma esse espírito selvagem.

Mãe e filho

No mesmo dia que cheguei uma égua deu à luz. É incrível observar como os cavalos se desenvolvem. Mal saem do ventre e já dão sua primeira galopada, acompanhados sempre do incentivo de mães zelosas. Com o passar dos dias aquela relação também foi me nutrindo. Os dois passavam muito tempo na frente da casa e compartilhar daquela relação encheu meu coração de compaixão. Pensei na vida simples desses dois seres, que vão servir durante toda a sua existência e que ali, sem saber, desfrutavam desses pequenos momentos de alegria.

Comovida voltei o olhar à cadeia de relações formada pelos seres que habitavam aquela roça: cachorros, galinhas, porcos, cavalos, bois, pássaros, gatos, aranhas, cobras… Essa bicharada e os humanos, todos ali dividindo o mesmo espaço! Atrás da aparente pureza dessa troca entre o humano e o ambiente natural, a sobrevivência do mais forte é uma das leis que rege essa convivência. É necessária sensibilidade para perceber os perigos e superar limitações, parte que também é fundamental na prática de Yoga. Ser flexível com a vida, com os seus fluxos, com o próximo e conosco são lições que ajudam a evoluir no caminho.

Inteireza. É isso que acredito ter ido buscar todas as vezes que me aventurei a conviver com os seres selvagens. Nessas ocasiões lembro que tudo ficou mais fácil quando baixei minha guarda e abri o coração para as lições. Existiram muitas pedras no caminho, literais até, como quando pegava uma trilha para a cachoeira, por exemplo. Mas, no final, toda trilha, por mais difícil que seja, sempre revela uma beleza. Ela pode ser grande e abundante de água ou pequena e mesmo assim acolhedora, mas todas elas são um convite para apaziguar o desejo humano de se unir a pureza de novo.

Desejo a todos e todas muitos aprendizados em 2014.

E, se faltar a paz… Minas Gerais.

aline

*Aline é jornalista formada pela PUCRS, professora de Yoga há mais de 10 anos, com formações em Hatha Yoga e há dois anos formada pela professora Micheline Berry em Vinyasa Flow Yoga. Recentemente adotou seu nome espiritual, Sahi Sangeet, que significa música autêntica. Cozinheira, taróloga, flamenca e apreciadora da humanidade. Tem também um blog no qual divide suas histórias lúdicas, escritos pelo seu lado mais selvagem, chamado Lili e o Mundo.

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