Lendo agora
Alimento para a alma

Alimento para a alma

Avatar

Por Regina Hostin, autora do livro Quando o hoje já não basta

alimento para a alma

Hesitei em aceitar um convite para jantar na casa de amigos indianos. Uma experiência recente em Delhi havia revelado que eu poderia soltar fogo pela boca se insistisse na comida típica. Meu marido tranquilizou-me, pois haviam conversado sobre quão forte (ou não) seria a pimenta. Num gráfico de 1 a 10, “estabelecido entre engenheiros”, meu marido escolheu o nível 3. Mais tranquila, aceitei o convite. Ao chegar, o aroma que vinha das panelas me transportou até a terra de Ganesha. Já tinha valido a pena estar ali. O forte cheiro do curry me seduzia completamente. As vestes dela e o forte sotaque predominando no idioma inglês, até me fizeram esquecer que estávamos em Blumenau.  Percebi sob a pia uma enorme quantidade de condimentos e apetrechos, todos vindos do outro lado do mundo. Imaginei que enchiam uma mala. Senti por parte deles, apego (ou amor) ao que estava ligado ao ato de cozinhar. E aquilo me tocou profundamente, fazendo-me refletir que nunca havia inserido qualquer condimento do Brasil nas listinhas de viagens. Havia ali uma relação diferente dos anfitriões com o alimento, o que me levou a questionar a minha.

A mesa estava colorida. Fomos servidos com vários tipos de arroz, frango ao curry, saladas. Com a primeira garfada veio a certeza de que não esqueceria daquele jantar. Não era forte, mas também não estava suave. Era marcante e muito bom. Eu queria provar mais. A combinação produzia um sabor único, gravado na minha mente de tal jeito, que até hoje, basta relembrar daquele dia para dar água na boca. E depois de um longo tempo saboreando os pratos salgados, chegou a hora do doce. Indescritível. Terminamos a noite com um chá e muitos aprendizados. Toda esta lembrança veio à tona há alguns dias, quando assisti A 100 passos de um Sonho. O filme mostra a saga do jovem chef indiano Hassan Kadam, que muda com a família para a Inglaterra após sua casa pegar fogo e sua mãe morrer. Mas na terra da Rainha a família indiana achou que o alimento não tinha “ alma”. Decidem rumar então para a França onde abrem um restaurante. Do outro lado da tela, na poltrona da sala, estava eu. Completamente inebriada desde o momento que Hassan tinha aberto uma grande mala de temperos. Naquele momento pude reviver todos os odores e sabores daquela noite do jantar. Cada ato aguçava ainda mais as lembranças. Hassan fazia magia com as mãos. Abria os potes e misturava as diferentes masalas vindas da terra natal. O líquido borbulhava nas panelas e o aroma seduzia até os mais incrédulos olfatos, como o da francesa, proprietária do restaurante em frente, que depois de muito esnobar, rendeu-se já na primeira garfada e tentou contratar o jovem chef.

No passado, as navegações rumavam à Índia em busca das especiarias. Como então este povo poderia lidar de forma diferente com o alimento? O açafrão, o coentro, a canela, a pimenta e o cravo…A cozinha indiana não se resume a isso. Sobretudo, une sob as chamas do fogão, conhecimentos milenares. E também gratidão ecoada nas orações antes e após as refeições. Os indianos reverenciam as tradições e a origem de tudo, mudam os pratos conforme a religião e prezam pelo que é fresco. E ao transformarem o que será ingerido com tanta devoção, demonstram o cuidado com o próprio corpo, a primeira casa que nos abriga. Não vi os indianos seguirem receitas. Acredito que ativam os cinco sentidos e misturam tudo com pitadas de amor, paciência e boas doses de sensibilidade. Ao conservar o respeito aos conhecimentos, transformam os ingredientes em alimento para o corpo e para a alma. É algo profundo e sutil. Uma verdadeira relação espiritual com a comida, difícil de ser compreendida, mas facilmente de ser sentida (e saboreada).

Veja comentários

Deixe uma resposta

Vá para cima