Ahimsa em pensamento, palavra e ação

Por Ciro Castro do Espaço Yogapada*

अहिम्स

Ahimsa em pensamento, palavra e ação

Patanjali enumera os Yama, ou seja, as prescrições éticas que um yogui deve seguir, a partir da não-violência. Adquirir não apenas atitudes e ações, mas certamente pensamentos e sentimentos não violentos fundamentam a base da personalidade de um aspirante ao Yoga. Mas o que realmente consiste este conceito e, indo além, como seria a prática mais adequada do mesmo?

O renomado professor romeno Mircea Eliade fundamenta este pensamento num pequeno trecho no segundo capítulo de seu livro Yoga, Imortalidade e Liberdade: “Os refreamentos (yama) e as disciplinas (nyama) tem suas raízes no ahimsa e tendem a completar o ahimsa”. Este seria o ponto iniciático do qual se desdobram todos os outros parâmetros descritos no Yoga Sutra. Desta forma, apenas com a mente e o coração livres de estímulos agressivos pode-se vivenciar os Yama e Nyama seguintes. Isso parece ser claro, pois como teremos a consideração exigida por Satya, a veracidade, sem o conceito de ahimsa devidamente enraizado? Ou mesmo, seria possível vivenciar a ausência de cobiça, Asteya, com impulsos agressivos?

Em seus comentários, Sri Swami Satchidananda explica que ahimsa significa “não causar dor”. Diferentemente de não matar, pois “causar dor pode ser ainda pior que matar”. No trigésimo quinto sutra Patanjali diz: Ahimsa pratisthayam tat samnidhau vaira tyagah — Na presença de alguém com princípios assentados em não violência, cessam todas as hostilidades. Satchidananda conclui: “Quando o voto de ahimsa e assumido por alguém, são cessadas todas as animosidades na sua presença porque esta pessoa emite vibrações harmoniosas. (…) Quando e continuamente praticado em pensamento, palavra e ação por algum tempo, estas vibrações serão constantemente emanadas por elas”.

Fazendo uma análise as avessas do descrito acima, quando estamos em um longo e demorado engarrafamento todos os motoristas permanecem calmos até o primeiro buzinar e contagiar os outros com sua impaciência e logo se forma uma sinfonia barulhenta. Fica claro que a raiva foi contagiosa e, assim, da mesma maneira, a ausência dela também é.

Trazendo luz ao estudo deste primeiro yama, T.K.V Desikachar relata no livro O Coração do Yoga que “ahimsa é mais do que ausência de himsa (ausência de violência). Significa gentileza, amizade e consideração cuidadosa por outras pessoas e coisas”. Mais adiante comenta: “… significa agir com gentileza para conosco. Podemos, como vegetarianos, nos achar em situações em que há apenas carne para comer. É melhor morrer de fome do que comer o que há? (…) ficar preso aos nossos princípios mostraria falta de consideração e até arrogância”.

Vale ressaltar que um dos grandes nomes da espiritualidade do século XX ficou conhecido praticamente por se dedicar sincera e profundamente ao conceito da não violência, da não agressividade, de não causar dor. Mahatma Gandhi, a grande alma que em sua luta pacífica fundamentou a independência da mãe Índia através do conceito da não cooperação com seus opressores, iniciou uma severa greve de fome quando soube que seus conterrâneos e seguidores estavam reagindo de forma violenta às ações do exército inglês.

*Ciro é professor de Yoga e Vedanta diretor do @espacoyogapada , @projetoyoganarua , @yoganoparquesp ,@yogaflix , retiros, workshops e formação em Yoga. Pratica yoga há mais de quinze anos. Formou-se instrutor através de práticas diárias e cursos intensivos e extensivos com Pedro Kupfer (Uruguai), Camila Reitz (SC), Marta Mollinari (GO), Maurício Wolf (RS), Karin Heuser Wolf (RS), Glória Arieira (RJ), Dharma Mittra (NYC), Matthew Vollmer (Reino Unido), Clayton Horton (EUA), Manju Jois (Índia), dentre outros.

Ministrou aulas nas tradicionais escolas Dhyana Centro de Yoga (Goiânia/GO), Yogashala Centro de Yoga (Florianópolis/SC), Centro do Ser (Florianópolis/SC). 

Filiado a Aliança do Yoga já publicou artigos sobre o tema em revistas e sites especializados como a Prana Yoga Journal, Cadernos de Yoga e no site yoga.pro.br.

Já atuou em empresas como Petrobras, ministrou workshops e aulas especiais em cursos de formação em Yoga e palestras em congressos como o Programa Bem-Estar no Trabalho para Oficiais de Justiça do Estado SC.

Foi responsável pelo grupo de estudos de Yoga Sutra e Bhagavad Gita no Yogashala Centro de Yoga (SC) seguindo a tradição do Advaita Vedanta, sob as instruções de Glória Arieira.

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