Abrandar – a necessária urgência de engrenar um modo slow de ser/estar no mundo

Por Fernanda Nicz*

O mundo tem pressa. A mente pede calma na alma. Se não é possível viver sem pressa e sem dar calma à alma, ao menos um intervalo de tempos em tempos, precisam mente, corpo e alma. Um intervalo pra preencher de amor. 

Perdeu-se a essência, abandonaram–se aptidões e habilidades, colocou-se de lado o verdadeiro dom/paixão. Conectou-se a tudo e todos e desconectou-se de si. Excesso, pressão e sobrecarga de informação, falta de tempo, exigências pessoais e sociais ditam as regras da rotina.

E o baile segue; insano, competitivo, acelerado. E os seres seguem o baile…às pressas, impacientes, morrendo de medo de perder alguma informação imprescindível, inundados de novas/mais opções/escolhas a cada minuto. O simples torna-se complexo; o habitual soa natural. E se instala aí a grande armadilha; acostuma-se e acomoda-se.

Mas o corpo tem limites e a vida é sábia. Ou abrandas/desacelera ou algo fá-lo-á parar de qualquer maneira – queira/possa ou não.

Busca Vida (nome de uma praia na Bahia e de uma cachaça de mel e limão) – Em mim, o desejo de uma vida SLOW é antigo e só cresce. Em 2014 percorri a Itália de norte a sul em busca de personagens inspiradores, seres que vivem na rotina o que acreditam e amam na vida. E foi na Toscana que conheci uma pessoa incrível, que fez a escolha de sair da zona de conforto (trabalho bem remunerado na cidade grande) pra buscar mais VIDA. Descobrir de camadas supérfluas/excessos e preencher do que acrescenta. Passei um tempo lindo no mundo encantado da paulistana Jessica Hollaender que rendeu uma matéria aqui:

https://www.nowmaste.com.br/vida-simples-leve-e-colorida-gente-que-vive-o-que-ama-na-vida-por-fernanda-nicz/

Desde então, seguimos em contato e morro de vontade de visitá-la em breve. Hoje, já completamente inserida na vida Slow (foi há cinco anos que se mudou pra Toscana), Jessica sente o momento de transbordar tudo que assimilou, aprende e vive. É hora de ser “ponte”, como ela diz, entre dois mundos: aquele em que viveu e o que vive hoje.

Do passado, traz a formação em Psicologia, o MBA em Business e uma bonita carreira executiva de 15 anos na grande São Paulo. Da rotina atual; uma vida mais simples, mais conectada, mais inteira. Cuida do jardim e da horta, faz pães, geleias, doces, sabonetes, busca água direto da fonte, aprecia o silêncio e pode ouvir a natureza. Trabalha com Tours e Degustações de vinhos e queijos numa fazenda agrícola a sete minutos de casa. Qualidade de vida…trabalhar perto de casa!  A mudança a fez adequar/sintonizar ritmo interno a ritmo da natureza. Ganhou leveza e toda a VIDA que buscava. 

Sob o Sol da Toscana – Da vontade de apresentar seu mundo, nasceu, em parceria com o amigo Marcos Paim – que pensa parecido e fez escolhas de vida no mesmo caminho – o projeto Slow (your) Life in Tuscany que teve, em 2019, sua primeira edição.

Pensado a partir de grandes paixões presentes na vida da maioria dos italianos; arte, gastronomia e vinhos, o programa acontece durante cinco dias no interior da Toscana. A proposta é “desconectar pra reconectar”. Vivenciar, experimentar, refletir e, quem sabe, transformar. Ao lado de pessoas que cresceram e/ou escolheram esta parte do mundo pra viver, reaprender a estar presente no momento presente (um dos fundamentos do movimento SLOW). Um irresistível convite a provar um diferente estilo de vida e repensar prioridades.

Slow Movement – O movimento que, felizmente, só cresce e ganha novas vertentes; slow food, slow city, slow mind, slow travel, teve início em Roma, no ano de 1986, quando um italiano, Carlo Petrini, realizou um protesto contra a inauguração de um restaurante McDonald’s na Piazza di Spagna.

O que se propõe é uma mudança cultural para desaceleração da vida cotidiana. No livro “Devagar”, o canadense Carl Honoré demonstrou como a filosofia Slow pode ser aplicada:

Não é fazer tudo a ritmo de caracol. Trata-se de tentar fazer tudo à velocidade certa. Saboreando horas e minutos em vez de apenas contá-los. Fazer tudo que for possível, em vez de ser o mais rápido possível. É sobre ter qualidade em detrimento da quantidade. Ser devagar significa controlar os ritmos da nossa vida. É você que decide em que velocidade deve andar em determinado contexto.

Respeito aos ritmos naturais, bem-estar e realização do potencial do indivíduo, do território e da comunidade, valorização da simplicidade e uso responsável dos recursos materiais. Abrandar é virtude, mas, hoje, ainda tabu – confunde-se à preguiça e baixa produtividade. Mas o ser humano não é máquina e a ideia de que tudo tem de ser pra ontem é tóxica.

Slow (your) Life inTuscany – Tudo que sugere tempo e presença merece um olhar atento.  Assim, o programa, cuidadosamente pensado pela Jessica e pelo Marcos, tem como espaço principal uma casa histórica – entre vinhedos e oliveiras – do ano 1.200 que pertenceu à família de Maquiavel. Mas não só o espaço extravasa história e acrescenta. Fazem parte do time, profissionais apaixonados pelo que fazem; chefe de cozinha, enólogo, sommelier, mestre em história da arte, professora de yoga, entre outros seres especiais.

Marque na agenda o período de 21 a 26 de junho de 2020 para acordar com sessões de yoga e meditação sob o céu e a luz da Toscana e presentear mente, corpo e alma com o modo SLOW de viver. Uma celebração ao “dolce far niente” em todos os sentidos – detalhes aqui: www.slowlifein.com.

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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