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A vida REAL numa ecovila – Por Fernanda Nicz

A vida REAL numa ecovila – Por Fernanda Nicz

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A curitibana Fernanda Nicz conseguiu reunir muita disposição e algum dinheiro (por meio de crowdfunding) para uma verdadeira aventura de aprendizado e consciência. Ela lançou o projeto Minideias em que ela mesma viajaria pela Europa para visitar pequenas cidades, ecovilas e fazendas orgânicas. “A busca é por pessoas que vivem de forma simples, minimalista, sustentável e por paisagens inspiradoras. O desafio é viajar e viver com o mínimo de dinheiro e coisas materiais, priorizando o trabalho voluntário”, explica ela. A partir de agora, Fernanda colabora para o Nowmastê, contanto sua filosofia de vida e suas experiências.

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A arte de viver em constante aprendizado

A vontade de ver, entender, aprender e viver de acordo com o que acredito – de forma simples, sustentável, minimalista e perto da natureza – e compartilhar a experiência foi o mote do projeto Minideias. A intenção é provocar reflexão, instigar revisão de valores e inspirar mudanças dentro dos paradigmas consumistas das sociedades. Acredito que sustentabilidade e qualidade de vida tem tudo a ver com uma maneira mais simples de viver. Não vejo sentido quando ouço pessoas debatendo e defendendo um mundo mais sustentável, amoroso, consciente, sem parar de consumir e competir. É chegada hora de olhar para a própria vida e modificar alguns hábitos para colocar o discurso em prática. É preciso sim, abrir mão, serenamente, de tudo que é supérfluo (e que, posteriormente, é desperdiçado). É preciso compreender que, com menos, é, de fato, muito mais fácil concentrar-se no que realmente tem valor (para cada um).

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Com estas ideias em mente e a facilidade de ter em mãos a cidadania portuguesa, no último 20 de maio, embarquei para Europa com algumas ecovilas e fazendas orgânicas agendadas GEN e WWOOF.  Descobri que cada ecovila tem um foco diferente (algumas são mais espirituais, outras mais agrícolas), mas todas buscam objetivos parecidos. Escolhi começar por Portugal. No blog e na fanpage é possível acompanhar detalhes, textos e fotos. O que quero compartilhar aqui é a vida que experimentei por 15 dias na ecovila Tribodar. Cheguei em Nisa (alto Alentejo), cidadezinha mais próxima da Tribodar, no dia 26 de maio. O belga Michael Lebaigue (37), um dos fundadores da ecovila, esperava por mim. Uns 10 minutos de carro até Tribodar, fomos conversando (em português!).

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Michael me contou que o centro de aprendizagem para uma vida sustentável e em  comunidade Tribodar (este é o nome completo da ecovila) existe há quatro anos e surgiu do desejo de  “reinventar a sociedade”, vivendo em harmonia com a natureza. Ao lado da publicitária e fotógrafa portuguesa Moabi Lopes (33), ele colocou em prática o projeto de sair da cidade grande e criar um lugar para viver da maneira como acredita. Há pouco mais de um ano, o arquiteto italiano Gennaro Cardone (31) esteve por um mês na ecovila, encantou-se com a forma de vida no local e quando voltou para Itália descobriu que não queria mais viver por lá. Michael e Moabi sugeriram que Gennaro se juntasse a eles e ajudasse a construir espaços e estruturas para a ecovila. Hoje, o italiano coordena a Tribodar ao lado de Michael e Moabi. Ali vive também Manu Inca (3), filho de Moabi e Michael.

Mas de que forma se vive ali?

O “reinventar a sociedade” dito por Michael engloba a filosofia da permacultura, a vivência em comunidade, o conceito de educação não formal (em que o aprendizado parte da liberdade de escolha da pessoa dentro de um espaço inspirador), o cuidado e o contato com a natureza, com a terra e os animais, a pequena pegada ecológica e a comunicação não violenta. Uma das grandes preocupações da ecovila é a educação. Para Moabi, “atualmente, a educação não visa o desenvolvimento pessoal e a felicidade, mas estimula a competição”. Pesquisando, descobriu algumas pedagogias interessantes como a da escola democrática Sudbury e alguns preceitos do suíço pioneiro da reforma educacional, Johann Heinrich Pestalozzi. “O que se defende é uma pedagogia mais prática e ligada à natureza, com maior valor à liberdade da criança, sempre em espaços inspiradores e que motivem a aprendizagem. A ideia é que o que a criança vai aprender parte dela. O adulto é um guia. Assim, a criança desenvolve o que tem mais aptidão e é responsável pelo próprio aprendizado”. Concordo e acredito que, desta maneira, muitas pessoas não perderiam quase a vida toda em busca do dom, da paixão, do que tem de melhor (o presentinho único que cada um traz ao mundo). Pra entender melhor, leia aqui.

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O espaço físico da Tribodar tem como área comum hoje; cozinha, uma sala/biblioteca e um espaço chamado de “healing área”, que é utilizado para atividades como; kundalini yoga (todos os dias as 7h15), meditação, workshops e “talking circles” (conversas para compartilhar sentimentos, ideias e também para definir ações e dividir tarefas). Dois pontos fortes desta ecovila (que me foram confidenciados por alguns voluntários que já estiveram em outros projetos parecidos); preocupação com o desenvolvimento do ser humano como um todo (não apenas com o trabalho) e liberdade para comunicação entre todos na comunidade. A rotina na Tribodar engloba um período de trabalho e um período livre. Há muita liberdade, harmonia e respeito nos momentos de definir tarefas ou de propor um workshop ou atividade. E tudo funciona. Há ainda, eventos realizados pela ecovila como o Festival de Improvisação de Musica e Dança, chamado Tribojam e o PDC – Curso Certificado de Design em Permacultura (24/8 a 5/9).

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Eu e a Tribo

Cheguei na hora do jantar. Todos os voluntários (de diferentes cantos do mundo) me receberam muito bem. Depois do jantar, um deles me explicou regrinhas básicas do funcionamento da ecovila (cada um tira seu prato da mesa e lava, por exemplo..) e me mostrou onde dormir. Há várias caravanas e um dormitório. Levei meu sleeping bag e me acomodei numa das caravanas. Nos meus 15 dias de Tribodar, trabalhei no jardim, “senti” a terra; pisei na lama, senti o aroma das flores, a textura das pétalas e das folhas, carreguei madeira, pratiquei kundalini yoga, respirei melhor, meditei na natureza, cozinhei em parceria para alimentar a todos, participei de workshops variados, deitei na grama para observar estrelas ao lado de toda a “família tribodesca”, fiz pizza na Pizza Party (outro evento bacana realizado pela comunidade), caminhei até Nisa perto de ovelhas. Entendi melhor o conceito de permacultura e sustentabilidade. O Michael me explicou que “permacultura (agricultura permanente) é uma filosofia de vida e sustentabilidade é uma característica. Permacultura é uma maneira de alcançar, por exemplo, uma característica que é a sustentabilidade”. Mais ainda; me senti bem, leve, serena, integrada à natureza e às pessoas. O ritmo é outro. Como a Moabi bem define; “é o ritmo natural do corpo. É viver em lugar que une: trabalho + aprendizagem + vida. Há um nível de relaxamento e conexão interior elevado”. Mais detalhes das sensações aqui. E por ali, os três pilares; Michael, Moabi e Gennaro, se completam de forma harmônica.

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Michael, que além de músico, é mestre em economia (enfatiza a razão: para ganhar credibilidade, ter autoridade para criticar) sempre foi um idealista. Segundo ele, “criticar as organizações sociais e a economia é fácil, difícil é encontrar alternativas, descobrir como fazer diferente e partir para a prática e, a partir daí, organizar para que seja inclusivo e atrativo e aglomerar cada vez mais pessoas e então crescer”. Michael é a cabeça idealizadora e questionadora da Tribo. Moabi é a parte artística, dançante e, como mãe, cuida com carinho da parte educativa. Gennaro é o cara dos espaços. “Acho que temos muitas coisas paradas aqui que não usamos. Minha ideia é tirar tudo que não é material natural. Construir casas com material natural, telhado verde, argila, janelas (o material varia conforme o país e a região). A ideia é trabalhar para deixar a Tribodar mais confortável e bonita para os voluntários e criar novos espaços; de descanso, para crianças…”.  

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Voluntários

O italiano Federico Damiani (28 anos) morou boa parte da vida na cidade de Milão, onde cursou economia. Trabalhou em multinacional e viveu em Honduras. Na época, tinha muitas mordomias e conforto, mas trabalhava 16 horas por dia, muitas vezes nos fins de semana. Em determinado momento, começou a se questionar; não se sentia conectado ao próprio centro, sentia um vazio inexplicável. Mudou de emprego, mas só se sentiu realizado quando descobriu a permacultura, num curso que fez na Inglaterra. Ele me contou que começou uma mudança forte interna: “conheci muita gente que se dedica a esta filosofia de vida, de ter menos, viver em contato com a natureza, comunicar-se não-violentamente..”

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Mais sobre permacultura – Federico aprendeu que a permacultura ensina a fazer design de um espaço com material natural. “O conceito é o design de um espaço, de um terreno em que você se coloca em harmonia com os ecossistemas que encontra. É uma cultura de eficiência, nenhum gasto de recurso, nenhum desperdício”. Ele resolveu então fazer WWOOF pela Europa e colocar a teoria em prática. Quando esteve na Tribodar pela primeira vez (por um mês), viveu experiências transformadoras: “pela primeira vez na vida, pude estar em silêncio com muitas pessoas sem sentir qualquer desconforto. Estava em paz, tranquilo. Aquele vazio interior que eu sentia começou a se preencher”. Foi também na Tribodar que Federico conheceu um argentino que chegou por lá de bicicleta e o inspirou no projeto “Around the world with a bike and a blender”. Isso mesmo, Federico deu a volta ao mundo com uma bicicleta e um liquidificador! E chegou na Tribodar novamente em maio último. “O conceito do projeto era eu parar nas cidades, conectar com as pessoas de maneira aberta e divertida. Construir relações solidárias, sem nenhuma conexão econômica. Eu convidava as pessoas para fazer um mix, vitamina…as pessoas me convidavam para dormir em suas casas”. Durante a viagem (que durou um ano), Federico escreveu artigos contando sua jornada (leia). Hoje, quase um membro permanente da Tribodar, ele não tem dúvidas; “chegou ao fim minha conexão com o mundo tradicional”.

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Outra (italiana também!) que me encantou demais na ecovila e com quem conversei muitas vezes, foi a Elena Ballarin (32). Natural de Veneza, ela morou um tempo em Berlim, estudou crítica de teatro e hoje trabalha com colagens. Já fez exposições em Istambul, Berlin e Barcelona. Elena veio para a Tribodar acompanhando uma amiga, curiosa com o projeto. Passados uns poucos dias, “sentia que era o lugar que procurava. Senti que era o ritmo certo (mesma sensação descrita por Moabi acima!)”. Vale ressaltar que, na época, Elena me disse que estava encantada com Berlim.

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Cidade grande x ecovila

Berlim oferecia muita coisa linda, mas era muiiita coisa mesmo e nada estava conectado a nada. Aqui, há conexão entre cada coisa e um sentido no todo. O que faço hoje; tem continuidade amanhã. Aqui, enfim, encontrei estabilidade. Outra coisa; em Berlim era difícil de analisar meu corpo; não havia hora para comer, comia coisas diferentes a cada dia…aqui há a possibilidade de conhecer melhor meu corpo; há cuidado e horário para comermos (e sempre juntos!). Quando conversava com alguém por lá, sentia que a pessoa não estava, de fato, presente no momento presente. Aqui, sinto que todos estão conectados e concentrados, que fazemos e trabalhamos por um mesmo ideal e objetivo. Enfim, compreendi que o que me interessa nesta vida, são as coisas mais simples”. Elena que também tem um site, conta ainda que já esteve em outro projeto parecido mas que não se sentiu parte integrante da comunidade e sim, visitante.

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Outro ponto forte da Tribodar; é um projeto em desenvolvimento, assim, faz com que cada voluntário sinta-se parte. Há o pertencer, há possibilidades e abertura para novas iniciativas.  Muitos pontos altos esta ecovila tem…não à toa, muitos dos que conheci, estão por lá pela segunda ou terceira vez. Hoje, aos poucos, a Tribodar está crescendo, ganhando mais estruturas (em breve terá uma estrutura física para a educação) e membros permanentes (pessoas de todo o mundo que passam por lá por algumas semanas, se identificam com o projeto e resolvem ficar porque descobrem que nunca foram tão felizes e que é possível viver de acordo com o que acreditam). Eu amei! E só para constar, para alguns que mostrei o roteiro e me disseram que eu estava virando hippie e que nestes lugares o que rola é muita droga, sinto informar que não é nada do que vocês estavam pensando. É amor, consciência e natureza; simples assim.    

 

 

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

 

Veja comentários (2)
  • Olá. Estou mt curioso pois queria saber mais sobre a ecovila tribodar que você ficou em portugal. Estou indo pra PT e queria viver alguma experiencia parecida. Virei vegano ha poucos meses e tento me encontrar mais. Acho que seria bastante valido embarcar nessa. Queria saber como fazer para poder participar dessas ecovilas. Como fazer? Mandei mensagem pra eles pelo fb, mas não sei..
    E se ha outras ecovilas ou lugares que você recomenda proximos a Lisboa. :) obgd

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