A procura da felicidade por Matthieu Ricard (Série Por que eu não consigo ser feliz?)

Por Matthieu Ricard via Tibet House Brasil*

As Quatro Nobres Verdades nos dizem que, para sermos felizes, primeiro é preciso descobrir as causas da nossa infelicidade. Essa é a abordagem do renomado monge budista francês Matthieu Ricard, que diz que a felicidade genuína só é possível depois de termos compreendido o equívoco fundamental que está na raiz do nosso sofrimento.

Certa vez, uma amiga americana, uma bem-sucedida editora de fotografia, contou-me sobre uma conversa que teve com um grupo de amigos que, depois de terminarem as provas finais da faculdade, estavam pensando no que fariam das suas vidas. Quando ela disse: “eu quero ser feliz”, houve um silêncio constrangedor e, em seguida, seus amigos lhe perguntaram: “Como alguém tão inteligente quanto você não quer mais nada além de ser feliz?”. Minha amiga respondeu: “eu não disse como quero ser feliz. Há tantas formas de se encontrar felicidade: iniciando uma família, tendo filhos, construindo uma carreira, indo atrás de uma aventura, ajudando os outros, encontrando paz interior. O que quer que seja que eu acabe fazendo, eu gostaria de ter uma vida que seja realmente feliz”.

A palavra felicidade, escreveu Henri Bergson, “é comumente usada para designar algo intrincado e ambíguo. Trata-se de uma dessas ideias que a humanidade deixou intencionalmente vaga, para que cada indivíduo possa interpretar do seu próprio jeito”. De um ponto de vista prático, deixar a definição de felicidade vaga não teria tanta importância se estivéssemos falando sobre uma sensação inconsequente qualquer. Mas a verdade é totalmente diferente, já que estamos falando sobre um jeito de ser que acaba definindo a qualidade de todos os momentos das nossas vidas. Portanto, o que exatamente é a felicidade?

Sociólogos definem felicidade como “a medida em que uma pessoa avalia positivamente a qualidade geral que, no presente, tem a sua vida como um todo. Em outras palavras, o quanto que a pessoa gosta da vida que leva”. Entretanto, essa definição não diferencia entre uma profunda satisfação e um mero apreço pelas condições externas da nossa vida. Para alguns, felicidade é apenas “uma impressão momentânea e fugaz cuja intensidade e duração variam de acordo com a disponibilidade dos recursos que a possibilitaram. Por natureza, uma felicidade assim é evasiva e depende de circunstâncias que muito frequentemente estão além do nosso controle. Por outro lado, para o filósofo Robert Misrahi, felicidade é “a alegria que irradia ao longo de toda a existência de um indivíduo, ou durante a parte mais vibrante do passado ativo, do próprio presente e do possível futuro de uma pessoa”. Uma situação que talvez seja mais duradoura. De acordo com André Comte-Sponville, “com ‘felicidade’, queremos nos referir a qualquer espaço de tempo em que a alegria possa nos parecer imediatamente possível”.

Será que a felicidade é uma habilidade que uma vez adquirida, perdura pelos altos e baixos da vida? Há milhares de modos de se pensar sobre a felicidade, e incontáveis filósofos já apresentaram o seu próprio modo. Para Santo Agostinho, felicidade é “um regozijar na verdade”. Para Immanuel Kant, a felicidade tem que ser racional e desprovida de qualquer mácula individual, ao passo que, para Marx, trata-se de crescimento por meio do trabalho. “O que constitui felicidade é uma questão controversa”, escreveu Aristóteles, “e a versão popular não é a mesma dada pelos filósofos”.

Será que a palavra felicidade em si já tem sido tão excessivamente usada que as pessoas desistiram dela, desmotivadas pelas ilusões e lugares-comuns que ela suscita? Para algumas pessoas, falar sobre a busca da felicidade parece ser algo quase de mal gosto. Protegidas por suas armaduras de complacência intelectual, elas zombam da felicidade como se ela fosse um romance sentimental.

Como se deu essa desvalorização? Será que é um reflexo da felicidade proposta pela mídia? Será que é o resultado dos esforços malsucedidos que empregamos para buscar a felicidade genuína? Será que temos que nos conformar com a infelicidade, em vez de fazermos a tentativa, inteligente e genuína, de desvencilhar a felicidade do sofrimento?

E o que dizer daquela simples felicidade que temos ao ver o sorriso de uma criança ou ao tomar uma boa xícara de chá depois de um passeio pela floresta? Por mais ricos e reconfortantes que sejam esses lampejos genuínos de felicidade, eles são muito circunstanciais para iluminar as nossas vidas como um todo. A felicidade não pode estar limitada a algumas poucas sensações agradáveis, a algum prazer intenso, a uma erupção de alegria, a uma sensação fugaz de serenidade, a um dia animado ou a um momento mágico que sorrateiramente nos aparece nesse labirinto da nossa existência. Em si, essas diversas facetas não são suficientes para formar uma imagem precisa da duradoura satisfação que caracteriza a verdadeira felicidade.

Com felicidade, quero dizer um senso profundo de florescimento que surge de uma mente excepcionalmente saudável. Não se trata de uma mera sensação agradável, de uma emoção fugaz, ou de um estado de espírito, mas de um estado ideal de bem-estar. A felicidade é também uma forma de interpretar o mundo, já que, embora possa ser difícil mudar o mundo, é sempre possível mudar a forma de se olhar para ele.

Mudar a forma de olharmos para o mundo não pressupõe um otimismo ingênuo ou uma euforia artificial destinada a contrabalançar a adversidade. Enquanto formos escravos da insatisfação e da frustação que surgem da confusão que domina nossas mentes, será tão fútil dizer para nós mesmos: “Eu sou feliz! Eu sou feliz!”, várias e várias vezes, quanto seria pintar uma parede em ruínas. Buscar a felicidade não é olhar para a vida através de lentes cor de rosa, nem fecharmos os olhos para as dores e as imperfeições do mundo. Tampouco a felicidade é um estado de êxtase que deve ser perpetuado custe o que custar. Trata-se do expurgo das toxinas mentais, tais como o ódio e a obsessão, que literalmente envenenam a nossa mente. Trata-se também de aprendermos a colocar as coisas em perspectiva e reduzir o fosso entre as aparências e a realidade. Para isso, precisamos adquirir mais conhecimento sobre como a mente funciona e termos maior clareza sobre a natureza das coisas, uma vez que, em seu sentido mais profundo, o sofrimento está intimamente ligado à nossa incompreensão sobre a natureza da realidade.

Adaptado de “Felicidade: a prática do bem-estar” (Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill), por Matthieu Ricard. Reimpresso com a autorização de Little, Brown and Company. © 2006 por Matthieu Ricard.

Traduzido do site Lion’s Roar (disponível em: https://www.lionsroar.com/why-cant-i-be-happy)

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