Lendo agora
A primeira experiência WWOOF e meu tempo livre com Schopenhauer – Por Fernanda Nicz

A primeira experiência WWOOF e meu tempo livre com Schopenhauer – Por Fernanda Nicz

Avatar

O projeto Minideias engloba estadias em ecovilas, fazendas orgânicas e algumas andanças não definidas previamente em busca de paisagens e personagens minimalistas, que valorizam a vida simples. Dessa vez, Fernanda Nicz, idealizadora do projeto, nos conta sobre sua experiência no programa WWOOF, que levou à fazenda Artemísia, na Liguria, Itália.

Os seus relatos já são um sucesso no Nowmastê e vale a pena acompanhar de perto!

fernanda

Semelhante a um programa de intercâmbio, o Wwoof coloca em contato voluntários e proprietários de fazendas agrícolas de todo o mundo. Os donos da fazenda oferecem comida e alojamento e os voluntários trabalham por um período e tem a oportunidade de, em contato com diversas técnicas de agricultura biológica, permacultura, construção ecológica, conhecer estilos de vida mais simples, sustentáveis e em meio à natureza. Para ver informações detalhadas de cada fazenda  é necessário se cadastrar no site do país escolhido e pagar determinado valor para ter acesso por dois anos. Fiz meu cadastro no Wwoof Itália porque além de gostar demais daqui (agora estou na região da Toscana), é um país com muita área verde e, principalmente, muitos produtores e ocupação agrícola. 

 DSC04608

Minha estada na Itália é longa, pelo menos até novembro, com mais uma ecovila (na Umbria), outra fazenda Wwoof (na Sicília) e uma estada na Sardenha (Workaway). Escolhi começar pela parte de cima da “bota”, região da Ligúria, perto de Gênova, em Montoggio. As irmãs Emanuela (54 anos) e Daniela (57 anos) Annetta estão à frente da Artemisia junto com Stefano (marido de Emanuela). Durante minha estada, tive a companhia da húngara, Tunde Boros (30 anos), wwoofer também.

 DSC04748

Como a Artemisia atua em diversas frentes; fattoria didática, agriturismo e hospedagem, restaurante, comercialização de produtos da horta; faz geleias, licores, grappa, temperos – a especialidade é o xarope de rosas (da região do Vale Scrivia) , meu trabalho era variado (dependia muito do clima). Colhi frutas e verduras, alimentei os animais (galinhas, coelhos, ovelhas e burro), separei ervas aromáticas, fiz geleias.

 ovelhas

No tempo livre, fui até um lago lindo perto dali, escrevi, li e reli bastante, principalmente, um livro pequeno que trouxe; A Arte de Ser Feliz, de Arthur Schopenhauer e conversei muito com a Emanuela, a Daniela e a Tunde.

DSC04652

Em comum, entre eu, elas três e quase todos os seres; a eterna busca de aprimoramento da arte de ser feliz. Daí a importância de Schopenhauer no meu tempo livre. Vivi e convivi metade do tempo. Na outra metade; refleti e absorvi pautada nas máximas de Schopenhauer, assim, permitam-me citar algumas vezes, em itálico, sua escrita.

 

Artemisia – Emanuela, desde 2006, vive na casa que hoje é a Artemisia, com Stefano e o filho Sebastiano. O sonho de viver no campo é antigo. “Começamos com uma pequena horta e um Bed and Breakfast. Depois, ampliamos, aos poucos, a gama de atividades. Hoje, realizamos cursos variados (conferir no site da fazenda) que reúnem pessoas com bonitas histórias de vida e diferentes buscas e, há quatro anos recebemos wwoofers de todas as idades e de diferentes partes do mundo”. Emanuela me contou, lembrando com carinho, que certa vez, vieram mãe e filha, a filha deu de presente para a mãe uma experiencia wwoof e a mãe escreveu para Emanuela um tempo depois agradecendo pelas melhores férias da vida dela. “É gratificante. E o mais belo disso tudo é poder trocar experiências e conhecer variadas formas de pensar, de estar no mundo”.

horta

Emanuela acredita que viajar como wwoofer é uma oportunidade de conhecer a cultura de um país de forma diferente: “não é apenas viver com uma família, mas também trabalhar com esta família, compartilhar a rotina. É aprendizado puro”. Concordo. Na Artemisia, além de trabalhar, pude acompanhar o dia a dia da família. É interessante observar as diferenças culturais. Perceber como um trata o outro, como convivem com os vizinhos, o cuidado com os animais, o verde, o que leem, os gostos, a ordem dos pratos à mesa (bem diferente do Brasil, aqui, a massa é “primo piatto”, salada vem depois…e come-se muiiito e tudo, absolutamente tudo, é saboroso demais!). Preciso confessar que, para o meu gosto, a comida italiana é uma das melhores do mundo. E é engraçado porque eles acordam já combinando o que farão para o almoço e o jantar. Mangiare felice é um deleite italiano!

 desenho

Daniela, irmã de Emanuela, cuida da comercialização dos produtos, da publicidade da fazenda (site, entre outros), faz marmeladas e, além da Artemisia, trabalha também na revista italiana Terra Nuova (http://www.aamterranuova.it/), na parte de gráfica e design, há dez anos – vale a pena conferir o site da revista que traz assuntos pertinentes sobre ecologia, sustentabilidade e tudo que se refere a uma forma mais consciente de habitar o planeta.

Daniela já viajou e morou em muitas cidades e, há quatro anos, vive na Artemisia. Quando perguntei sobre o lado bom e o lado mais difícil de adaptação no campo, ela me contou que sentia (ainda sente) falta das pessoas (amigos) com as quais convivia. O lado bom? Entre tantas outras coisas, me disse – como me disseram todos que entrevistei na primeira ecovila – que o ritmo dos dias e das noites flui de maneira diferente quando se está em constante contato com a natureza. “O corpo parece fluir em seu ritmo mais natural e o tempo tem outra dimensão”. As irmãs Annetta estão felizes com a vida no campo. Cada uma a sua maneira. Foi um prazer conviver/aprender com elas.

 fernanda2

A verdadeira existência do homem é o que de fato acontece em seu íntimo, sua comodidade interior, que é o resultado do seu sentir, do seu querer e do seu pensar. A personalidade é a felicidade suprema.

 

Mudanças e natureza – Em meu tempo livre, conversei bastante com Tunde, psicóloga. Em sua primeira experiência Wwoof, ela, que sempre morou no interior da Hungria, me contou que vive um momento de vontade de mudança: “quero ser mais feliz, ter mais tempo para fazer o que gosto”. Em sua cidade, Tunde estudava e trabalhava muitas horas por dia, não tinha tempo para nada e sentia uma cobrança grande de todos os lados. “Um dia um amigo me apresentou o Wwoof e pensei; é algo que eu quero para minha vida; viver em harmonia com a natureza e em harmonia com minha natureza”.

 

Para ela, o Wwoof é um caminho para aproximar-se do mundo natural e de si mesma. “Quero sentir como é trabalhar no campo, testar até onde posso ir, experimentar antes de ter minha própria fazenda”. O que quer levar desta experiência? “Autoconhecimento. Descobrir-me, descobrir meu verdadeiro potencial”. A ideia é trabalhar como psicóloga dois ou três dias por semana e no resto do tempo; trabalhar no campo.

Foi bom demais fazer parte deste bonito momento da vida de Tunde, desta busca interna, da vontade de aprendizado e conhecimento.

 

Aquilo que alguém tem para si mesmo, aquilo que o acompanha na solidão e que ninguém pode lhe dar ou tirar é muito mais essencial do que tudo o que possui ou do que ele representa aos olhos alheios.

No que concerne à personalidade, a única coisa que está em nosso poder é o fato de a utilizarmos do modo mais vantajoso possível, submetendo-a, portanto, ao tipo de educação que lhe for particularmente adequada e evitando qualquer outra; além disso devemos nos colocar na situação, na condição, na atividade etc. que correspondam a ela e, em segundo lugar, conservar o prazer delas. Para tanto, é necessário o autoconhecimento, gerador do caráter adquirido. Consequentemente, ganha-se muito mais aplicando as próprias forças na educação da própria personalidade do que na aquisição de bens do destino pois é o que se é que mais contribui para a felicidade e educar a personalidade é, de fato, uma arte.

 fernanda3

Veja aqui os outros relatos de Fernanda Nicz.

 

Informações:

Fazenda Artemisia

Wwoof

 

Quer saber mais sobre os próximos passos do roteiro de Fernanda? Veja aqui.

 

 

 

 

Veja comentários (4)
  • Oi Fernanda, tudo bem?

    Tô com uma dúvida, quem sabe podes me ajudar.
    Fiz minha inscrição no WWOOF Itália, me deram os dados da conta, fui no Bando do Brasil, e lá me disseram que é melhor eu fazer essa transação numa casa de câmbio devido à taxas que são altas do Bando do Brasil para o exterior… Por Western Union seria melhor, mas acho que é só para pessoa física, e nesse caso, é uma associação.
    Como tu fizeste o pagamento?
    Abraço!

  • As passagem de ida e volta fica por nossa conta? E no modo de se comunicar, precisa saber falar super a língua do país escolhido? Obrigado pelas respostas !♡♡♡

Deixe uma resposta

Vá para cima