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À mão – Por Carlos Walker

À mão – Por Carlos Walker

Carlos Walker

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Ultimamente tenho olhado mais e demoradamente para as minhas mãos. Não sei exatamente a razão ou motivo específico para isso. Talvez, por elas ainda serem sinalizadoras e testemunhas das mudanças do meu corpo; além de provas irrefutáveis de sinais e registro dos meus rastros. Venho passeando por suas linhas riscadas no mapa da minha palma.

Quando bebês, reverenciamos em deslumbrada adoração aquelas mãozinhas, olhando estranhamente os seus contornos, de onde saem varinhas de dedos mexendo-se sem parar, minúsculas peças em movimento de uma encantada engrenagem. Saboreamos, cheiramos e sorrimos, descobrindo que essas mãos serão nossas cúmplices para o resto da vida.

Passados 60 anos, e novamente elas, agora de pele mudada, mais enxuta sobre os ossos salientes, vão virando um tipo de condão mágico, aquele que inventa do imaginário – livro, artes, ciência, curas, barco, carro, aeronave, visor, lápis, batuta e orquestra – a trespassar e acender nossas emoções, fantasias, os guardados sentimentos, em gavetas, estantes, paredes, sala, ruas e jardins afins.

Na juventude, como um Narciso de jeans, nós, sem camisa e descalços, miramos aquele jovem rosto no espelho, acreditando no brilho de seus olhos grandes e na forma sedutora, que já deixava entrever sua intrínseca vulnerabilidade; lá íamos nós, descendo pelos ombros e pernas, tronco e espádua à sedução fantasiosa cheia dos ardis diferenciais de nosso sexo.

Passada a fogueira e altas labaredas das primeiras vaidades, voltávamos em seguida, preocupados agora em separar cada parte anatômica deste corpo, que aos poucos prenunciava seus aparentes deslizamentos, de início, suaves e lentos até alterar por completo toda a nossa geografia física, dos (outrora) belos e atraentes desvãos de contornos e relevos. Ah! A mão do tempo…

A mente e as mãos perduram. E podem ainda sobreviver na teia quântica resultante de seus esquadros mágicos.

Mãos – duas estrelas puxadas do alto por fios translúcidos – quase invisíveis. Pentagrama misterioso, misto de objeto, barbatana e asa. Também servindo como garras para uma sobrevida ou mesmo em mudra de gestos, a prece que se projeta em perpendicular, rumo ao infinito. A mão e suas imprecações e implicações.

Que constrói a casa, que mata crianças, sementes da humanidade. A mão gananciosa que conta e, uma outra, que acena a esperança para um ponto náufrago e ínfimo de uma humana-ilha. Mão mestra e maestrina. Artesãs e doadoras da vida.

Mãos mortais, pecadoras. Mímicas, miméticas, cheias de disfarces e mentiras. Ou então, leais, firmes, a que alimenta, conforta e acaricia.

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A mão pega, enlaça e doma. Com a permissão da natureza e dos animais. Mão que rege, conduz e explica. Mãos obrigatórias e escravas. Dos pactos de guerra ou paz entre vassalos e soberanos. Corta, cura, encanta e revigora. A mão do adeus, de quem não olhará mais para trás ou a mão que acena para alguém parado e se afastando aos poucos do cais. A mão que toca e a que encobre o rosto de cansaço, vergonha, dor. Mão calejada como um cacto, que desconhece o veludo. O M da mão, mãe que cuida e a recolhe até a morte. Mão da missão cumprida. Na Terra. No tempo da mente.

A mão, flecha em ponta aberta, apontada pelo centauro Quíron, o médico imortal. Mão da Deeksha, doadora universal de luzes, teclado de carne e ossos a transferir num jorro de energias, um mantra cósmico de raios e fluxos !

A imposição das mãos. A mão vê. Tateia no escuro. Apura na ponta dos dedos. Mão bailarina, yoguin, contorcionista, acrobática e teatral. A que intermedia. O beijo na mão. Os vários órgãos genitais da mão. Assim como os braços e mãos de Kali, a mãe- deusa-ígnea, purificadora de nossos erros e sujeiras, livrando-nos do medo que turva.

Mãos que invocam e as que rodopiam, dos giratórios dervixes. O Tai Chi é um balé de mãos imitadoras de zoo-movimentos diante dos cenários da natureza e do universo. A mão em punho! O cigarro nos dedos da mão. A mão dos fumantes. Dos amantes. As veias da mão. Masculina, feminina, andrógina ou mesmo a assexuada. O aperto de mãos. Mãos que empurram ou aquelas que escapam. A unha dos dedos. A mão morta mas que ainda fala… As que apoiam, acompanham o abraço. E as que oram, as loucas que pintam paredes do mundo, e erguem edifícios e explodem as cidades. Mãos más e boas, que atiram. Mãos maternais. Mãos do prazer, do brincar, de dar o presente num momento inesperado e certo. Presente que fica à mão.

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Mani-festação, palavra que vem de mão – a consagração – do todo manifestado!                                                                   Montes de planetas com seus montes: o da Lua, o de Vênus, o de Apolo. Restos de letras e palavras escritas em línguas proto-históricas ou quem sabe, ufológicas na pele da mão? A mão pesquisa, arqueologicamente mas também leva o búzio da praia aos nossos ouvidos. Vira a página para o sonho, folheia os pensamentos. O olho no centro da mão. A mão que colhe, que acha o cheiro e dá o toque. Escreve, decodifica, desenha, costura, pincela, tecla e clica. A mão oculta, cirúrgica. E num dia claro, a mão que rega. A flor na mão.

Às vezes, seguramos a vida com as mãos, a presa da mão que nos enreda, o freio de mão que devíamos usar pra mudar a direção da rota errada.

Mas um dia, a mão também dá um basta! E abre a porta (que nos trancafiava), nos joga pra fora, a céu aberto, faz sombra à nossa testa, para que possamos avistar o disco do sol sobrevoando alto; enquanto a nossa frente, avança, imensa, estendida, a futura, real e linda estrada!

Carlos Walker

Veja comentários (26)
  • Calor textual que aquece como Reike de nos trazer a analise e vez. Walker que nos acaricia em mãos de Arte visto que sua Essência eh caricia a nos tocar em dentro. Ler como quem ouve “Mãos de Afeto” (Lins-Martins) e deleitar no toque sofisticado que eh simples porque nos chega. SALVE, CARLOS WALKER!!! Astro de nos apontar as mãos em concha, nelas a Luz.

  • Ama( ão)do,Walkerido..como escreve bem. !!! Sempre me encanta…Emocionante,instigante,caminha rápido e nos dirige ao encontro do que queres. E sempre acrescenta muito saber. Antes de tudo,como é saboroso seus textos,as palavras que brotam e correm uma a uma seguramente. Lindo,lindo!!! E sweet.

  • Milagres! Como estamos cercados deles, e você foi um que apareceu aqui na nossa sessão de Deeksha, quando comecei a ler esse texto todo o meu ser ficou em êxtase. Encantador como a arte pode traduzir o trabalho e o poder de nossas divinas mãos. Gratidão amado. Andréia Pacheco

  • Belo texto, encantador como suas músicas, e digitado pelos dedos das mãos. Elas agem de acordo com o talento e o caráter de cada um. No seu caso, as mãos se expressam pela sensibilidade, traduzida em palavras do poeta.

    De maneira geral, a pessoa de bom caráter tem as mãos abençoadas, estendidas para o próximo, e cultivam a semente do bem. Se for de mau caráter – rezo a Deus por distância a todos – as mãos agem para corromper, roubar, matar e destruir, sob a frieza de sentimentos opostos ao amor.

    Abraços

  • Maravilhoso texto querido!!! Romântico e forte ao mesmo tempo!!! Me trouxe a consciência de que agarrei o meu destino com as minhas mãos e segui em frente, inteira, com todos os membros!!!! BJS

  • Ameu amigo Wauke como as suas mãos escrevem b. E como a mão tem papéis fundamentasis na nossa vida. Do transporte de energia a eecução de nossas tarefas. Por elas aé percebemos que estamos envelhecendo. Você sempre escolhe uns temas maravilhosos para escrever. muito legal este. Demorei a escrever amigo, erstou trabalhando demais e o temo escasso… dou uma postadinha aqui e ali rapidamente, mas os seus textos merecem uma atenção estecial. Bjss Walker querido. :*

  • Belo texto, Walker…

    Mãos que tocam instrumentos são mãos que inspiram a vida de forma definitiva, sagradas mãos, mãos de um Gismonti, de um Paco de Lucia, de Naná, de Keith Jarreth, de Keith Moon.
    Mãos para arte, mãos para o trabalho, mãos para a luta, mãos para a paz.

    Abraçaço,

    Débora

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