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Descalço sobre palcos – a dor e a delícia de ser o que se é

Descalço sobre palcos – a dor e a delícia de ser o que se é

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Por Fernanda Nicz*

Fernanda Nicz

Os dois maiores presentes que se pode dar a um filho são raízes e asas (Hodding Carter).

Raízes = base, valores, harmonia, estrutura. Asas = ousadia, desapego, coragem, liberdade.

Não tenho filhos, mas imagino quão difícil deve ser educar prezando por um equilíbrio entre os dois pontos. Paulo Coelho encontrou um elo: as ASAS podem levar o ser mais longe, permitindo que conheça as RAÍZES dos seus semelhantes – e aprenda (ainda mais) com eles.

De raízes e asas. Das diferentes escolhas – e do respeito de cada ser com a escolha de outro ser. Transformação, mudança e aprendizado podem ser vivenciados tanto por quem permanece como por quem ousa ir mais além do conhecido. Por quem tem mais raiz ou por quem utiliza mais as asas. Há os que ficam e têm asas bem guardadas pra quando quiser voar e há os que partem que conhecem bem suas raízes a ponto de saber pra onde (quando quiser) voltar. Não há apenas uma forma/formato de viver nem somente uma maneira de interferir ou melhorar o mundo, nós mesmos ou o que/quem nos cerca. Entre tantas possibilidades, uma coisa é certa: é possível descobrir-se e transbordar amor independente da distância e do tempo que se afaste do ponto/local de origem.

Dos espaços – Há quem prefira viver e evoluir dentro de determinado espaço. Há quem precise habitar novos/diferentes espaços pra crescer, trocar, transbordar. É da necessidade de cada ser.

Espaços físicos são palcos para interpretarmos nossa evolução espiritual. Muitas vezes, temos vontade de voltar/ir a algum lugar pra resgatar ou viver algo que sentimos/intuímos que precisamos viver. Mais uma vez – ir ou ficar – é da necessidade de cada ser.

Fe Nicz

O meu ser, ao menos por enquanto (desde maio de 2014), por mais um tempo, escolheu a viagem, a estrada, diferentes e novos espaços como modo de estar no mundo. E, recentemente, dei-me conta de como há gente querendo usar as asas, mas com dificuldade de entender como fazer para, por exemplo, sobreviver… Afinal, como se manter na estrada por tanto tempo? Vou dar a minha fórmula, bem pessoal, portanto:

1ª – não preciso de muita coisa (aliás, quase nada) material pra ser feliz. Desapego realizado com êxito! O que venho treinando ultimamente é o desapego – bem difícil, mas não impossível – dos ditos “dramas pessoais”.

2º – tenho conseguido me financiar para meu ir e vir. Por exemplo, recentemente, trabalhei num restaurante em Lisboa por dois meses e, em breve, devo ir ao sul da França colher uvas (vindima).

Com alguns trabalhos como estes (temporários) consigo seguir viagem fazendo o que mais amo: escrevendo (já que por enquanto não consigo viver só da escrita). Busco lugares e pessoas inspiradoras (https://www.nowmaste.com.br/vida-simples-leve-e-colorida-gente-que-vive-o-que-ama-na-vida-por-fernanda-nicz/), vivo por um tempo em ecovilas (https://www.nowmaste.com.br/a-vida-real-numa-ecovila-por-fernanda-nicz/), conheço projetos interessantes e compartilho.

E abusar das asas – repleta de boas intenções comigo mesma e com a humanidade – não é fuga, é simplesmente viver a vida da forma como acredito e do jeito que penso que melhor posso acrescentar ao mundo.

Fe Nicz

Dor e delícia – Toda escolha/estrada traz o bem e o mal, o belo e a dor. Às vezes no meio de um voo de um canto a outro, deparo-me com uma saudade incontrolável do carinho da família e dos amigos. Neste caminho, a incerteza do amanhã bate direto à porta, a solidão (fundamental e de que tanto gosto), por vezes demora-se demais. Tudo isso faz parte, não apenas da escolha, mas de algo já inerente a cada ser: a dor e a delícia de ser o que é (Caetano Veloso).

Cada serzinho ganha uma vida inteira pra descobrir como (por meio de suas escolhas) fazer de sua dor e sua delícia algo maior, uma obra de arte – única –, um presente (propósito de vida) que deixará como legado. Para realizar a grande obra da vida, uns utilizam mais as raízes, outros as asas e é aí, nas diferenças, que a vida ganha beleza.

No meu caso, neste momento, transformar dor e delícia em arte (textos) pede um incessante caminhar – uso prolongado das asas. E assim sigo, em pleno voo, tentando (como todos os seres, a sua maneira) lapidar minha obra de arte.

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A querida Ariana Chediak (http://www.arianachediak.com.br/aura-soma/), que fez a aurasoma pra mim, descreveu de forma bonita: “és viajante contínua da busca. Tu primeiro andas, peregrina, depois encontra, em meio a tudo que viu e viveu de diferente, o que há em comum (povos, crenças, culturas, valores). Neste ponto comum faz a união, apresentando caminhos alternativos aos seres. A escrita é teu instrumento de unir diferentes povos”. Cada ser tem uma trajetória.

Onde meus talentos e minhas paixões encontram as necessidades do mundo, lá está o meu caminho, o meu lugar – Aristóteles.

Fe Nicz

Utilizar asas não significa “largar tudo e cair no mundo” – Defendo a beleza das diferenças, assim, sei que “largar tudo e cair na estrada” não é a única forma de ser feliz ou de mudar algo.

Uma amiga de São Paulo, a Gabriele, que tem um bonito projeto, o Think Twice Brasil (http://www.thinktwicebrasil.org/novo/), abordou o assunto recentemente. Licença Gabi, pra compartilhar aqui – já que pensamos da mesma forma. A Gabriele costuma dizer que não “largou tudo”, apenas deixou para trás aquilo que já não fazia mais sentido pra ela. O Think Twice é um plano de viagem para países da África e Ásia em busca de pessoas que trabalham para melhorar, efetivamente, a vida do próximo. A ideia é conseguir aplicar a experiência em algum retorno social no Brasil. Segundo a Gabriele, é um movimento de conscientização, de resgate de valores. Como o objetivo da viagem é sentir na pele a disparidade social, buscam-se transportes mais populares e maneiras econômicas de hospedagem.

FE Nicz

O Minideias segue um caminho parecido, por isso compartilha histórias inspiradoras de quem “largou tudo e caiu na estrada/mundo”. Explicado o “largar tudo” (obrigada Gabi!), vamos entender melhor o “cair na estrada”. Talvez, como no meu conto favorito A Donzela sem mãos – do livro Mulheres Que Correm Com os Lobos, da Clarissa Pinkola-Estés, seja parar de se chocar com os muros criados por nós mesmos e, em vez disso, aprender a atravessá-los.

(…) as mulheres consideram que a preparação para sua descida iniciática (transformação e despertar) vai se desenrolando ao longo de muito tempo, às vezes de anos, até que afinal e de repente, lá caem elas penhasco abaixo para dentro das corredeiras, na maioria das vezes empurradas, mas de vez em quando com um mergulho gracioso do alto dos rochedos…só que isso é raro.

(…) abandonar algo, assumir a própria identidade, penetrar na profundeza da selva simplesmente porque precisa (…) partir sob uma luz diferente, com um chão desconhecido por baixo dos pés (…) vulnerável, pois não tem onde se agarrar ou apoiar. O destino a leva a viver como andarilha- ela sabe que só o caminhar a fará conhecedora do caminho. Quem a acarinha é o vento.

Qualquer caminho leva a toda parte

Qualquer ponto é o centro do infinito

E, por isso, qualquer que seja a arte de ir ou ficar

(…) não há estrada senão na sensação

É só através de nós que caminhamos.

Fernando Pessoa

Fernanda Nicz

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

Fotos desse texto: Fernanda Nicz e Adilson OLiveira

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