A doença como Parábola – para além da psicossomática

Por Manuela Ferreira de Sousa*

nature-hand-natural-people-green-care-young-leafQuando falamos em psicossomática, nos referimos à inseparabilidade de ocorrências físicas e psíquicas em todos os estados de saúde e de doença. No entanto, quando apresentamos uma dor de cabeça crônica ou sofremos de uma gastrite, temos por hábito desvincular o incômodo corporal de nossas vivências emocionais.

A psicossomática implica numa visão holística, onde o homem é visto como um ser bio-psico-social. E se acrescentarmos ainda o aspecto espiritual?

Um trabalho interdisciplinar deve ser considerado por qualquer profissional que receba um paciente em busca de uma resposta para seu sofrimento. Todo sintoma é multifatorial.

O estresse é psicofisiológico, e decorre tanto de estímulos internos (conflitos pessoais) quanto externos (cotidiano). A resposta dada pelo organismo é a ação simultânea dos sistemas nervoso, endócrino e imune para que se recupere o equilíbrio interno. Quando organismo não é bem sucedido nessa tarefa, aparece a doença.

Hoje se fala em Psiconeuroendocrinoimunologia, que confirma a idéia de que vivências e emoções desencadeiam a liberação de determinados hormônios, resultando numa alta ou baixa imunológica.

Desta forma, não apenas as doenças autoimunes ou o câncer são considerados doenças psicossomáticas, mas todas elas.

Existe um fator constitucional ou adquirido pelo indivíduo ao longo de sua vida que o predispõe a somatizar em uma determinada parte ou órgão do corpo, que certamente está ligado a representações psíquicas particulares.

Como psicoterapeuta, percebo que meus pacientes tendem a melhorar de quadros orgânicos quando me preocupo com seu psiquismo, constatação que deve ser feita comumente pelos médicos.

Estudos sobre o placebo abrem uma perspectiva para a compreensão da comunicação psique-corpo. Ele consiste em qualquer procedimento terapêutico ou substância que não tem ação específica nos sintomas ou doenças, mas que, a despeito disso, gera efeitos no paciente. Tais pesquisas demonstram como a psique pode ordenar mudanças bioquímicas, essenciais na mobilização das defesas corporais, assim como a relevância da imaginação e das crenças nos processos de cura.

Quando incluímos o aspecto espiritual, um vasto mundo se abre. Por espiritual entendo a compreensão de significados que vão além do tangível.

Para além da vulnerabilidade do órgão e da psicodinâmica, a situação externa traumática pode ser lida não apenas pelo fato vivido, mas como esse se inscreveu e ficou gravado em nosso sistema. Podemos ler na doença a parábola daquilo que se tem a resolver espiritualmente. A reconstrução da biografia pode ser um ótimo caminho.

Na doença temos a oportunidade de integrar ou devolver à consciência a imagem, o enigma ou mensagem cifrados no corpo. Pela integração de símbolos na consciência, de conflitos que não puderam ser resolvidos e precipitaram-se alterando funções ou cristalizando-se na forma, podemos estimular as forças autocurativas do paciente, transformando o sofrimento estéril em fecundo.

Manuela Ferreira de Souza

*Manuela é psicoterapeuta, com grande experiência em atendimento clínico, e atende nos Jardins, SP. É Mestre e Doutora em Psicologia Clinica pela PUC-SP, no núcleo de Psicossomática. Foi profa da Universidade Paulista – UNIP por 20 anos, e do curso A Imagem Corporal na Contemporaneidade do Cogeae da PUC-SP. Atualmente amplia sua visão na Antroposofia, tendo concluído o curso para profissionais da área da Saúde na ABMA em 2014.

E-mail: [email protected]

Um Comentário

  1. Que texto incrível! Gratidão eterna por ter lido ele nesse momento e por ele ter feito tanto sentido pra mim.

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